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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

UM CONTO

O AMOR É ETERNO
 

Como não tive oportunidade de ouvir as confidências da Nanda (e que, como boa coscuvilheira que sou, logo venho partilhar convosco…) fui procurar no meu baú e descobri um conto que escrevi há pouco tempo, e de que gosto particularmente.
Para substituir as ditas confidências (ou inconfidências, melhor dizendo) submeto-o à vossa apreciação.
Espero não vos defraudar com a troca.
O AMOR É ETERNO
Marta caminhava lentamente em direcção à sala. Parou à entrada, olhando tristemente para o sofá de dois lugares, agora vazio. Quantas horas felizes ali passara, ao lado do grande amor da sua vida, que a acompanhara por mais de quarenta anos…
Não pôde deixar de lembrar o que acontecia neste dia, o do seu aniversário. Quando ali chegava já encontrava, sobre a sua cadeira, um lindo ramo de rosas vermelhas. Este ritual cumpriu-se, ano após ano, ao longo da sua vida de casada. Luís, o marido, estava escondido atrás da porta, mostrando-se apenas quando ela pegava nas flores. Pé ante pé aproximava-se por detrás, enlaçando-a pela cintura. Ela voltava-se e, com um terno beijo, agradecia-lhe aquele gesto de carinho. Só depois de as rosas terem sido depositada s numa linda jarra de cristal, enchendo a sala com o seu intenso perfume, é que Luís lhe entregava a prenda de anos. E o cuidado com que ele a escolhia! Sabia adivinhar-lhe os desejos, que ela nunca revelava; ele parecia ter um sexto sentido que lhe indicava as coisas que ela mais desejava.
Este era o seu primeiro aniversário em que o lugar dele no sofá estava vazio. Partira há cinco meses, deixando um vazio impossível de preencher. Sentia uma saudade enorme dos serões que ali haviam passado, de mãos dadas, conversando sobre os acontecimentos do dia, ouvindo música ou vendo televisão.
Cerca das dez horas cumpria-se o ritual do chá. Ela levantava-se e, sem nada dizer, dirigia-se à cozinha. Pouco depois sentia-se no ar um agradável aroma a hortelã, ou erva príncipe, ou limão… por vezes camomila.
Voltava da cozinha com um tabuleiro onde colocara uma pequena taça com saborosos biscoitos de canela, ou de manteiga… às vezes de amêndoa…  que fizera à tarde, o bule do chá e duas chávenas de porcelana. A sala ficava impregnada do odor que saía pelo bico do bule.
Invariavelmente Luís comentava, fosse qual fosse o chá que ela tivesse feito:
- Como foi que adivinhaste que era exactamente esse o chá que me estava a apetecer hoje?
Ela sorria e, invariavelmente também, respondia, interiormente feliz pela subtileza com que ele sabia agradecer:
- Tu sabes que eu tenho um dedo que adivinha…
E sorriam ambos, felizes.
Não tiveram filhos. Não sabiam se a dificuldade dela em engravidar se devia a algum problema seu ou dele. Nunca o quiseram saber. Deixavam o tempo passar, sempre com a esperança de que um dia acontecesse serem surpreendidos com a vinda de um bebé. Tal não aconteceu. E à medida que o tempo foi passando aceitaram esse facto sem amargura ou desconforto. Viviam um para o outro; ele trabalhando num escritório de advocacia, ela cuidando do lar e do pequeno jardim em frente à casa onde moravam.
Tinham amigos com quem conviviam sempre que se proporcionava, embora gostassem muito de estar os dois sozinhos. Tinham-se dedicado inteiramente um ao outro…
Interrompendo os seus pensamentos o toque da campainha da porta fê-la estremecer.
Levemente contrariada dirigiu-se ao hall de entrada. À porta encontravam-se dois estafetas. Um deles empunhava uma caixa de cartão rectangular, com cerca de 40 centímetros de lado e furos na parte superior; o outro segurava cuidadosamente um ramo de perfumadas rosas vermelhas.
Marta sentiu um aperto no coração. Não, não era possível As rosas vermelhas sempre lhe tinham sido oferecidas pelo marido, ao longo dos seus 43 anos de casada.
Fazendo um esforço enorme para disfarçar a sua consternação, disse:
- Com certeza os senhores enganaram-se na morada… Eu não encomendei nada, e não existe qualquer outra pessoa cá em casa…
- Não, não há engano, é mesmo esta a direcção – responderam, quase em uníssono, os dois estafetas.
- Desculpem, mas isto só pode ser uma brincadeira de mau gosto… - insistiu ela.
- Não, minha senhora, não é nenhuma brincadeira – respondeu o rapaz que empunhava as rosas, estendendo-lhas. E continuou:
- Estas rosas foram encomendadas por um senhor há seis meses, com a indicação expressa de que deveriam ser entregues neste dia, sem falta. Repare que até tem um cartãozinho escrito, que o senhor lá deixou, recomendando que o juntássemos às flores…
Marta, dominando a sua enorme comoção, segurou as flores e abriu o pequeno envelope, retirando dele um cartão onde, reconhecendo a letra de Luís,  pôde ler:
- Com o meu eterno Amor.
Dificilmente conseguia controlar-se. Foi a vez do outro estafeta se lhe dirigir:
- Connosco passou-se exactamente o mesmo, minha senhora. Há seis meses foi à nossa loja um senhor fazer esta encomenda, com a mesma recomendação: “Que fosse entregue hoje, sem falta”. E também deixou um cartão…
Marta sentia que o coração ia explodir-lhe no peito. O que poderia estar dentro daquela caixa? Começou por ler o cartão, que dizia:
- Com todo o meu Amor, para te fazer companhia nas longas noites de Inverno.
Tremendo, foi colocar as rosas na sala, voltando para receber a caixa. Segurando-a com cuidado percebeu que, no seu interior, alguma coisa se mexia. Abriu-a sem demora. Lá de dentro saltou uma pequena bola de pêlo branco que imediatamente correu para a sala, indo sentar-se no sofá, no lugar que sempre fora ocupado pelo marido.
Marta ficou paralisada. Mesmo encontrando-se do outro lado da vida, Luís adivinhara o que ela teria desejado que ele lhe oferecesse naquele aniversário – um cãozinho!
Dirigindo-se ao sofá sentou-se ao lado da prenda acabada de receber. Fez-lhe uma festinha na cabeça. O pequeno animal agradeceu lambendo-lhe a mão.
Marta sentiu o coração apaziguado como há muito tempo não acreditava ser possível…
E dirigindo-se ao seu novo amigo, murmurou, pensativamente:
- Como havemos de te chamar? Talvez… Luisinho… Gostas?

Maria Caiano Azevedo
 25/03/20019

domingo, 1 de abril de 2018

COLECÇÕES E COLECCIONADORES

COLECÇÕES
 Coleccionar, seja o que for, é próprio do ser humano. Para algumas pessoas constitui mesmo uma necessidade, justificada psicologicamente como algo mais do que um simples passatempo de adolescentes.
Coleccionador é o indivíduo que faz colecção dos mais variados objectos, como selos ou moedas, por exemplo. Mas são também coleccionadores os museus e as bibliotecas:
- Os museus coleccionam os mais diversos objectos – o Museu do Louvre guarda objectos desde a era napoleónica até aos dias de hoje, de entre os quais se destaca a famosa Mona Lisa, pintada por Leonardo da Vinci.
- As bibliotecas são coleccionadoras de livros. Uma das mais famosas foi a Biblioteca de Alexandria, no antigo Egipto, na qual se encontraria, segundo a lenda, a famosa fórmula da imortalidade.
O historiador Philipp Blom defende que os coleccionadores não são “maníacos que juntam qualquer coisa por compulsão”. Ele entende que há razões históricas, filosóficas e psicológicas que podem levar o indivíduo a tornar-se coleccionador. Motivos como “sentimento de grupo”, “competição”, “medos”, “desejos não realizados” ou “vontade de se isolar do mundo” poderão estar na base do coleccionismo.

“Não pense que todo o coleccionador é um sujeito mal-amado, reprimido, solitário. Coleccionar quando criança tem as suas vantagens. O hábito nos ensina a organizar e controlar as coisas, decidir a vida e a morte de cada objecto. Eis uma boa forma de aprender a tomar decisões e a lidar com o mundo exterior” – diz Blom

Desconhece-se ao certo o período em que o ser humano começou a coleccionar objectos. Mas aceita-se como válida a hipótese de o homem pré-histórico já exercer essa prática. É bem provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma colecção de crânios como talismãs…
Hoje existem provas de que já havia coleccionismo na Roma antiga assim como no Egipto – é famosa a colecção de cerâmicas finas do faraó Tutancamon.
O coleccionismo era restrito a reis e aristocratas, e só no século XVI deixou de o ser. Nessa altura começou-se a coleccionar tudo, desde cromos a pacotinhos de açúcar, passando por jóias a embalagens de cigarros.

Há, e houve, em todo o mundo, coleccionadores famosos, sobre os quais não vou debruçar-me. Mas não posso deixar de referir a famosa estilista milanesa Biki, de seu nome verdadeiro Elvira Leonardi Bouyeure, neta do compositor Puccini, que vestiu princesas, milionárias e estrelas, como a actriz Sophia Loren e a soprano Maria Callas, fazendo furor nos desfiles de Alta Moda, em Milão.
Biki montou uma sala refrigerada na sua casa para conservar chocolates comprados nos mais diversos lugares do mundo.
Tudo o que até aqui foi dito se refere a coleccionadores e colecções de um nível bastante elevado.
Sem a visibilidade de qualquer coleccionador famoso… quero aqui referir uma colecção que, embora não tão famosa, não deixa de ser muito interessante e constituir já um acervo bastante razoável. Trata-se da colecção de dedais da nossa amiga, a blogueira Amélia - 

DEDAIS DA AMÉLIA, 

a quem, se me permitem, dedico esta postagem. Sei que para além de dedais ela colecciona outras coisas, mas não serei eu a desvendar o segredo…
No seu blog podemos apreciar dedais lindíssimos, de todos os lugares do mundo, nos mais variados materiais, cores, feitios… enfim, uma colecção de fazer inveja – no bem sentido, é claro!
Eu sempre tive a mania de “guardar coisas”, mas não posso considerar-me uma coleccionadora. Tenho vários objectos antigos em louça, cristal ou prata, mas nada que constitua “uma colecção”. E como gosto muito de bonecas… quando vou viajar trago uma dos países que visito – e muitas outras que me ofereceram.


 O mesmo se passa com miniaturas de garrafas de bebidas e de perfumes.


E com mochos? Como gosto muito deles… “colecciono-nos”. De vários tamanhos e materiais rondam umas centenas.


Para terminar vou citar Silvia De Renzi, historiadora da ciência da Universidade de Cambridge, na Inglaterra que diz:
“As colecções foram fundamentais para a organização da natureza como fazemos hoje.”
Um coleccionador, mesmo quando obtém uma raridade, não sente seu desejo atenuado. Na verdade, nada é mais triste que pensar em completar uma colecção. Quando as mãos seguram a nova aquisição, os olhos já vislumbram a próxima peça.” (O sublinhado é meu)

Termino esta postagem com os votos de uma PÁSCOA MUITO FELIZ.





quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O SEGREDO



O SEGREDO

CAPÍTULO 10 – 1ª. Parte

O abraço que envolveu os dois irmãos continha muitas saudades acumuladas ao longo do tempo em que tinham estado sem se verem, e um grande, enorme, amor fraternal.
Em crianças brigavam muito um com o outro, entrando até, por vezes, na agressão física, ainda que sem gravidade. Tinham maneiras de ser muito diferentes.
Mas, à medida que foram crescendo e talvez por tomarem consciência de que estavam a ser criados e educados apenas pela Mãe, o que para ela representava um grande sacrifício e responsabilidade, adoçaram a sua convivência e, sem mesmo se aperceberem, foram-se tornando grandes amigos que, depois de jovens adultos, eram inseparáveis.
Por isso aquele abraço, após uma tão longa ausência, foi comovido para ambos, e comovedor para a mãe, que os observava em silêncio.
Depois de tudo o que se passou em seguida, aos poucos foi-se restabelecendo a serenidade. Nanda, recomposta do choque, propôs irem lanchar, pois “o que servem nos aviões não presta para nada”.
Saborearam o bolo da mãe, e depois passaram a tarde conversando e matando as saudades.
Luís falou, com orgulho mal disfarçado, do seu pequeno rebento, ao mesmo tempo que justificava a ausência de Catarina:
– O bebé é ainda muito pequenino, está ligeiramente constipado, e por isso a mãe ficou em casa cuidando dele.
O quarto que o pai lhes disponibilizou não é muito confortável – na verdade tratava-se de uma pequena arrecadação onde, à última hora, o pai colocara um divã de casal para eles dormirem. O espaço até é razoável, mas é um pouco húmido e, com o frio que tem feito nas últimas noites, o bebé ressentiu-se.
Mas enquanto o pai não lhes consegue a tal casita que prometeu arranjar-lhes, sujeitam-se àquela situação. Por um lado porque têm esperança de que não seja muito prolongada, e por outro porque o dinheiro é pouco e não chegaria para irem para um hotel, por muito modesto que fosse, ou até mesmo para uma pensão.
Com o ordenado que o pai lhe paga, que não é nenhum exagero mas, ainda assim, melhor do que nada - como ultimamente lhe acontecia no Alentejo - pensavam poder pagar o aluguer da tal casita, e fazer face às despesas mais essenciais. Mais tarde logo veriam se a Catarina poderia ir trabalhar, contribuindo assim para as despesas.
Agora que tinham um filho para criar a responsabilidade era maior e precisavam, mais do que nunca, de estar unidos e em harmonia.
*
No dia anterior André telefonou à mãe confirmando que iria, com a sua mulher Fiara, passar dois meses de férias em Portugal. Levariam com eles uma amiga, de quem muito gostavam, que trabalhava também em investigação, mas num ramo diferente do deles.
Perguntou à mãe se não se importaria de a acolher em sua casa, dado que era uma pessoa bastante tímida e falava mal o português. Além disso, como se deslocava em serviço, o tempo que passaria em casa seria, praticamente, para dormir.
Ainda que a ideia não lhe agradasse totalmente, Nanda não conseguiu recusar o pedido do filho. Como eles chegariam cerca das três horas da tarde, depois de ter vindo do trabalho, fez um bolo para o lanche do dia seguinte.
Para não faltar muitos dias ao serviço pediu dispensa apenas da parte da tarde.
Ainda falou ao filho na hipótese de os ir esperar ao aeroporto, mas André opôs-se terminantemente. Não se justificava, pois podiam perfeitamente ir de táxi. Ele sabia que Nanda não gostava muito de conduzir, especialmente por locais que não conhecia bem. O carro estava a maior parte do tempo dentro da garagem.

Passava um pouco das três e meia quando os viajantes chegaram. Nanda correu para a porta para os abraçar demoradamente. Não se viam há três anos, e as saudades eram muitas.
Seguiu-se o abraço dos irmãos, que Nanda observava, enlevada.
Depois de acalmadas as emoções e todas as manifestações de carinho, André disse:
- Mãe, esta é a amiga de quem te falei. Chama-se Eliane.
Nanda desviou, finalmente, os olhos dos seus filhos, voltando-se para Eliane.
Num relance, “viu” Ludovico sob a forma de uma linda jovem.
Retrocedendo no tempo, recordou o grande amor que os unira. Fora por amor que dele se separara, há tantos atrás, e o deixara na ignorância do seu estado.
A emoção foi demasiado forte. Sentindo-se cambalear, foi apoiada por Luis que a transportou em braços, desmaiada, para o sofá.

Mais um excerto do meu projecto literário com o título (provisório) “O Segredo”.
Maria Caiano Azevedo

PS – No próximo dia 14 haverá uma postagem especial – especial porque este ano publicarei apenas no início de cada mês – para comemoração do 10º.aniversário desta “CASA”



terça-feira, 27 de junho de 2017

O SEGREDO DE BELA


O SEGREDO DE BELA

Depois de cumprido o que considerava um dever – tentar convencer Tó Zé, o seu ex, a ajudar o filho de ambos – Nanda levou o Nero a passear.
Após ter comido e bebido, o pobre cão estava tão aflito que, mal se apanhou na rua, alçou a perna no arbusto mais próximo, não tendo já capacidade vesical para aguentar até à árvore que normalmente regava com os seus fluídos urinários.
Nanda ia de tal modo absorta nos seus pensamentos que nem se apercebeu de que estava a ser conduzida pelo Nero. Só quando sentiu uma forte pressão na trela se lembrou do local onde se encontrava e do que estava ali a fazer – a passear o cão.
Arrastada pelo animal, acabou por dar quase de frente com a vizinha do lado, também ela dona de um canídeo, mas do sexo oposto.
A Diana era uma cadelinha que vivia apaixonada pelo Nero, o qual correspondia, com fidelidade canina, a esse amor.
Feitos os cumprimentos, das donas e principalmente dos seus estimados animais, estes, com encostos de focinhos e outras expressões de afecto, preparavam-se para ir mais longe nas suas manifestações, mas foram severamente interrompidos pelas respectivas donas que, de momento, não tinham muito tempo para lhes permitir grandes efusões.
Puxando-os com força pelas trelas conseguiram que se afastassem. Os pobres animais, contrariados, tiveram que obedecer, mas ficaram olhando para trás, mirando-se um ao outro, com um ar muito desconsolado e infeliz.
De regresso a casa Nanda deu uma arrumadela às roupas que usara no dia anterior, compôs a cama, passou pela cozinha e pela sala, e, considerando que tudo estava mais ou menos apresentável, apressou-se a ir tomar um refrescante banho e vestir roupas elegantes para ir encontra-se com a Bela.
Já estava ligeiramente atrasada.
Assim, quando chegou ao “Caminho de Casa” a amiga já a aguardava.
Abraçaram-se efusivamente e, depois de uns ruidosos beijos, escolheram uma mesa e sentaram-se.
A conversa só foi interrompida para encomendarem o almoço. Escolheram salada para ambas já que andavam a tentar perder peso.
Nem uma nem outra precisava disso, mas preocupavam-se com umas gordurinhas embirrantes que teimavam em alojar-se “naquela zona da cintura”. Sonhavam voltar a ter as “cinturinhas de vespa” dos seus vinte anos…
Falaram de tudo e de nada, como se há muito tempo não se vissem.
Esqueciam-se que conversavam todos os dias, faziam caminhada juntas, e de vez em quando encontravam-se para almoçar. Mas nunca lhes faltava assunto.
Nanda pôs Bela ao corrente dos últimos acontecimentos, dizendo-lhe como se sentia baralhada com tudo o que lhe estava a acontecer.
- Só para veres como estas coisas me estão a afectar… imagina que até
comecei a pensar na hipótese de ir trabalhar com o TóZé, aquele traste!
- Bem, na verdade isso mostra que a tua cabeça anda à razão de juros. Espero bem que tenha sido apenas um pensamento passageiro, e que não leves isso a sério…
- Não, claro que não; nem que o Tó Zé fosse o último homem no mundo eu quereria estar perto dele!
E continuaram conversando animadamente.
Sendo ambas divorciadas, sem ter que dar satisfações a ninguém, às vezes iam para a “night” beberricar uns copos e divertir-se.
Foi o que combinaram fazer. À noite, depois de comerem qualquer coisa, encontrar-se-iam e iriam para a paródia.

À hora combinada lá estavam elas, “vestidas para matar” e lindamente maquilhadas. E alegremente passaram umas horas nos locais já conhecidos de ambas, onde sabiam poder estar sossegadas, sem correrem o risco de serem mal interpretadas e sofrerem dissabores.
Ouviram música, beberam sem exagero, e ainda deram um “pezinho de dança” com conhecidos de outras vezes que lá tinham ido.
Quando se sentiram satisfeitas regressaram, e, próximo de casa, despediram-se com um “até amanhã”.
Nanda entrou no seu apartamento, tirou os sapatos, trocou a roupa pelo pijama e, como ainda não tinha sono, apesar da hora adiantada, quase de madrugada, foi para a sala.
Ligou a música em tom baixo, e abriu a porta do bar, do lado direito do aparador. Olhou, procurando a bebida que iria beber. Não lhe apetecia muito um licor – àquela hora não queria uma bebida doce. Optou por Whisky. Serviu-se, foi à cozinha buscar gelo, e, à média luz, recostou-se no sofá.
De olhos fechados deliciava-se ouvindo a música suave, tomando um gole de whisky, vagarosamente. Sem opor resistência, como num sonho, deixava-se embalar por aquela quietude.
Lentamente, como que a levitar, encaminhou-se para a janela e olhou lá para fora. Na semi claridade do alvorecer avistou, na praia, um vulto que lhe pareceu familiar.
Mas… Não! Não podia ser verdade! Aquela figura que caminhava na praia, a princípio apenas difusa, à medida que se aproximava… sim, não havia dúvidas! Era o Luís. Mas porque andaria ele na praia, àquela hora matinal?

Na longínqua linha do horizonte vislumbravam-se já os primeiros rubores da alvorada, anunciando mais um dia de sol e calor.
Na praia, Luís, descalço na areia fria, um ar desalentado, ombros descaídos, no rosto bronzeado as fundas olheiras denunciavam uma longa noite de insónia.
Com visível esforço ia caminhando lentamente quando, inesperadamente, avistou o seu irmão André.
Este, alegremente, aproximou-se em passo rápido para saudar o irmão; mas imobilizou-se ao atentar bem no aspecto de Luís. Com ar de espanto, exclamou:
- Eh! Pá, estás cá com uma cara que mete medo ao susto!
- Não me digas nada, pá. Nem imaginas o que me aconteceu.
- Não, não posso imaginar o que te pôs nesse estado! Viste algum fantasma?
- Bem pior do que isso… mas antes diz-me: o que fazes tu aqui na praia a estas horas, com esse ar tão feliz? Ainda mal nasceu o dia…
- Eu conto, sim, mas depois. Primeiro quero saber de ti.
Nanda abria a boca de espanto. Como era possível? O seu filho André vivia na Suíça, com a Silvana: o Luís ainda ontem estava no Algarve, acabara de ser pai… A que propósito estavam os dois ali na praia, conversando como se se tivessem visto na véspera?
Resolveu continuar a prestar atenção à conversa dos dois irmãos.
- Tudo bem, então eu falo primeiro – respondeu Luís.
Ontem, para festejar o nascimento do meu filho (a mãe contou-te… penso eu) fui com uns amigos beber umas granjolas. A certa altura o Xico (lembras-te dele…) propôs que passássemos para bebidas mais fortes. A ocasião até justificava… e todos concordaram.
Já estávamos bem bebidos quando entra no bar um grupo de mulheres, todas em grande risota. Depois de ligeira hesitação, cochicharam e dirigiram-se para a nossa mesa. Imagina quem fazia parte do grupo… A Bela!
- O quê? A Bela, amiga da mãe?
- Claro! Conheces mais alguma Bela?
- Não. Mas continua.
Neste ponto Nanda sentiu-se desfalecer. Bela, a sua melhor amiga, num bar “daqueles”? Não podia ser. O seu filho Luís devia estar completamente bêbado e tinha-a confundido com uma galdéria qualquer!...
Com esta ideia recuperou a calma e continuou ouvindo a conversa. Luís dizia:
- Sentaram-se ao pé de nós e pediram bebidas iguais às nossas. Não sei quanto tempo depois disseram que se iam embora, e ali mesmo se formaram casais… A mim calhou-me a Bela.
- O quê? Estás a brincar!...
- Antes estivesse… Mas não estou, aconteceu mesmo. Fui com a Bela para casa dela. Levou-me para o quarto e… enfim, podes imaginar o que se seguiu. Tu conheces a Bela…
- Conheço, conheço…
- Sabes que ela consegue ser espantosa! Mete-te no coração e tu nem te atreves a reagir…
- Lá isso é verdade…
-Pois então! Quando dei com aqueles olhos líquidos, que prometiam delírios, a fixarem-me intensamente, quando me senti docemente envolvido nos seus braços, a Bela desprendeu-se, foi até à porta do quarto, abriu-a, e, em altos brados, exclamou:
- SURPRESA!
Foi mesmo uma surpresa, uma enorme surpresa!
Afastando-se para o lado apresentou-me uma mulher horrenda!
Não era ainda velha, mas feia como a noite dos trovões! Um olho abaixo e outro acima, mirando cada um para seu lado, a boca torta, desdentada, ostentando um sorriso alvar. Só lhe faltavam os pêlos no nariz para ser uma autêntica bruxa, saída de um conto de Andersen.
- E qual foi a tua reacção?
- A princípio fiquei sem acção. Mas quando vi o riso de escárnio e gozo na cara da Bela… atirei-me – literalmente – pela janela, meti-me no carro, e vim para aqui. Sabes como o mar é para mim um calmante…
- Razão tens tu para estar com esse aspecto horrível…
- Digo-te, foi a pior experiência da minha vida. Mas diz-me tu agora: com esse ar tão feliz…onde passaste a noite?
- Eu? Eu… passei a noite com a Bela.
Excerto do meu projecto literário com o título (provisório) “ Segredos”.

Maria Caiano Azevedo

quarta-feira, 22 de março de 2017

GOSTO…


GOSTO de aves, altaneiras e velozes como o vento, das suas penas coloridas, das suas plumas…


 GOSTO de chapéus, chapéus com plumas


que oscilam quando o vento lhes bate de mansinho


GOSTO do vento manso que, por vezes, acaricia suavemente as folhas das árvores, os ramos executando movimentos sensuais…



outras vezes arrastando as folhas rudemente pelo chão, fazendo-as rodopiar em danças frenéticas, com loucas coreografias a esmo, rodando, rodando sem fim, até que, sem forças, repousam na berma da estrada…
GOSTO do vento furioso, forçando as frinchas das janelas, assobiando sinfonias por si mesmo compostas…



GOSTO de relógios


 O Homem quis dominar o tempo... e inventou o relógio.
Mas o tempo riu-se, e continuou a caminhar. Sabia que nem o mais refinado relógio conseguiria aprisioná-lo.
O Tempo! Esse senhor que ao longo dos anos vai acumulando lembranças, boas e más, que marca os rostos com os sulcos da vida, que tece belos casulos de luar para guardar segredos, que leva os sonhos para o mundo do faz de conta…
Esse mesmo Tempo que passa ligeiro, e um dia, nas trevas do desencontro, nos mostra um relógio que apenas tem corda para mais alguns segundos…
Importante é aproveitá-lo... antes que ele desapareça ...

GOSTO do sol indiscreto entrando pelas janelas, assenhoreando-se do quarto onde durmo, derramando-se na cama onde acabo de acordar.



GOSTO da imensidão do mar que em tempos longínquos levou os portugueses até terras da Ásia e da América…

(A emigração funcionava ali até 1930. Hoje é um Museu, onde se encontram os registos dos emigrantes que aportaram a New York, por mar.)

GOSTO de cavalos, esses nobres animais de porte altivo, pertencentes à família dos equídeos, por vezes, com sucesso, usados em equoterapia (recuperação da coordenação motora de certos deficientes físicos), adaptados a trabalhos agrícolas e transporte, desportos e jogos, como pólo, provas de equitação e corrida,


onde podem atingir a incrível velocidade de 60 Km/hora.
São inúmeras as histórias de comportamento admirável de cavalos em campos de batalha, já que, até meados do século XX, foram usados de forma intensa nas diversas guerras que grassaram durante esses longos anos.
Ainda hoje existem as unidades de cavalaria, embora, felizmente, os cavalos já não estejam expostos aos perigos das guerras antigas

GOSTO…
GOSTO de ti quando chove, dos teus cabelos molhados,
GOSTO de ti ao nascer do sol, com o raiar dum novo dia, o rosto irradiando felicidade,
GOSTO de ti quando choras, as lágrimas sulcando-te o rosto, pérolas brilhando quais diamantes…

 GOSTO DE TI!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

FÉRIAS/SENTIDO INVERSO

… No dia seguinte eu não trabalhei à noite e fiquei na sala. Acomodei-me no sofá e liguei a televisão.
 A minha amiga veio sentar-se junto de mim e começou a falar:

SENTIDO INVERSO
III e ÚLTIMA PARTE

- Sabes o que significa o que surpreendeste ontem?
- Calculo que sim… Ou haverá outra explicação diferente daquilo que pensei?
- Não, o que pensaste está correcto. Eu sou lésbica, e não me envergonho…
- E porque haverias de te envergonhar? Se há algum motivo para te envergonhares é o não teres sido franca comigo, quando pensámos em alugar o apartamento e passarmos a viver juntas.
- Se soubesses que eu era lésbica não terias vindo viver comigo?
- Provavelmente isso não me faria mudar de ideias, viria viver contigo, sim, mas não teria feito figura de parva…
- Mas tu não fizeste figura de parva coisa nenhuma. Quando é que tal aconteceu?
- Olha, todas as vezes que recebeste amigas no teu quarto e eu não desconfiei de nada. Achas pouco?
Nesta altura ela agarrou a minha mão, meigamente, acariciando-a com um ar perfeitamente inocente.
Eu não vi nesse gesto qualquer segunda intenção, por isso não retirei a mão.  
A minha amiga disse:
- Perdoa-me. Acredita que não queria magoar-te. Eu gosto muito, muito, de ti. Há muito tempo, desde o primeiro ano da Faculdade, que eu sentia uma atracção enorme por ti. Mas nunca tive coragem para to dizer. O facto de sermos tão amigas ainda me intimidava mais.
À medida que falava ia se aproximando, e em breve estava a dar-me pequenos beijos no pescoço, entrecortado de curtas frases - “ Deixa-me fazer-te feliz”…
Senti um frémito de prazer percorrer-me o corpo. Fechei os olhos e imaginei-me nos braços dum príncipe encantado, acariciando-me ternamente.   
Perante a minha passividade, ela avançou a outra mão e começou a desabotoar-me os botões da blusa.


Abri repentinamente os olhos e “vi” que ao meu lado estava UMA princesa, não UM príncipe.
Com suavidade mas também com firmeza, retirei a mão que tinha sobre o meu peito e afastei-me dela. Segurando-a pelos ombros, olhos nos olhos, disse-lhe, claramente:
- Eu gosto muito de ti, tu sabes. Adoro-te! Mas entre nós nunca poderá existir nada para além de uma grande mas pura amizade.
- Pois aí é que está a questão. Tu vês-me como uma irmã, e qualquer envolvimento entre nós ia ter, para ti, o cariz de incesto.
Mas tu não imaginas como pode ser doce e ao mesmo tempo arrebatador o Amor entre mulheres. Aquela minha amiga que avistaste ontem é fantástica. Deixa-me apresentar-ta. Tenho a certeza que mudarás de ideias. Eu senti, ainda há pouco, que estavas a ter prazer…
- Sim, é verdade que por breves momentos fiquei excitada. Mas sabes porquê? Porque me imaginei nos braços de um homem.
Não, minha amiga, não quero que me apresentes ninguém. Eu sei que, definitivamente, gosto de homens, e serei incapaz de ter qualquer ligação íntima com uma mulher.
A minha amiga notou o tom firme em que falei. Não insistiu. Continuámos, e ainda somos, excelentes amigas.
Este incidente não me afectou minimamente. Talvez fizesse com que me viesse à memória, com maior frequência, o que aconteceu quando andava na escola.
Será que, se aquela experiência se tivesse consumado, eu hoje seria como a minha amiga? Gostaria só de mulheres, seria lésbica? Para esta pergunta não encontro resposta.
Eu e a minha colega ainda partilhámos o apartamento por dois ou três anos. Depois ela foi viver com outra amiga, com quem estabeleceu uma relação estável, que dura até hoje.
A nossa amizade não foi afectada com a separação. Continuamos grandes amigas. Respeito a sua opção de vida tal como ela respeita a minha.
Eu continuei com os estudos, acabei o curso, e fiquei a estagiar no escritório do meu “patrão”. Namorei muito, mas sem compromissos sérios.
Há dois anos, quando festejei os meus 35 anos, conheci alguém especial. Muito especial. Houve química entre nós. Iniciámos uma relação de Amor sem sobressaltos, com os seus momentos de paixão intensa, e sentimos que “fomos feitos um para o outro”. Estamos ambos convencidos de que acabaremos os nossos dias juntos.
Entretanto, alguns meses depois de o conhecer, uma noite sonhei que eu era homem. Nesse sonho a minha Mãe aparecia olhando-me com enlevo e orgulho, e de repente notei que estávamos vestidos de cerimónia: a minha Mãe com um vestido longo, e eu com um belo smoking. Ela segurava o meu braço, caminhando lentamente ao meu lado. Ao longe vislumbrei um vulto, que não identifiquei, de alguém usando um vestido de noiva, o que me causou um grande sobressalto. Era o meu casamento!
Acordei subitamente, impressionada com um sonho tão disparatado.
Durante o dia várias vezes o mesmo me veio à ideia. E pensava:
- Como será ser homem? Os homens serão assim tão diferentes das mulheres? Deveria eu ter nascido homem? Nesse caso eu gostaria, naturalmente, de mulheres…
Nessa mesma noite tomei uma decisão.
- Quero experimentar a sensação de ser homem!
Inscrevi-me numa rede social com um perfil masculino.
Como domino razoavelmente bem a técnica da imagem em computador “construí” uma foto dum homem jovem, muito charmoso, que causa um verdadeiro delírio especialmente entre as teenagers.


Todas as noites abro a minha página e respondo às inúmeras mensagens das minhas admiradoras, a cada dia aprimorando as minhas qualidades de figura masculina, contando histórias fantásticas que as põem ao rubro.
Sou um verdadeiro herói. Bem de vida, com uma profissão liberal, sem compromissos a não ser com o meu trabalho, uns 28 anos muito saudáveis e frequentes idas ao ginásio.
Trato todas com o mesmo carinho, sem preferência por nenhuma, de modo a não causar ciúmes. Um gentleman muito diplomático.
Mas o mais estranho é que faço isto com prazer, e sinto-me cada vez mais presa ao personagem que todas as noites encarno.
O facto de a maioria, se não a totalidade dos comentários e pedidos de amizade que recebo serem de mulheres, talvez explique o prazer que me dá representar o papel de homem.
De vez em quando faço auto-análise, como sempre fiz, não querendo nunca recorrer a psicólogos. E muitas vezes me pergunto se, no fundo, eu não sentirei um certo desprezo ou desgosto pelo facto de ser mulher, e se não faço isto como uma espécie de vingança. Porque, no fundo, o que estou a fazer, é enganar mulheres, jovens, na sua maioria – pelo menos assim se apresentam – ainda que apenas no campo virtual.
Quando estas dúvidas me assaltam fico muito desgostosa comigo mesma, e durante uns dias não abro a minha página. Mas… não resisto muito tempo, e acabo por voltar lá e começar tudo de novo. Nessa altura já as minhas admiradoras me encheram a página com lamúrias…

Entretanto… está nos meus planos constituir família com o meu actual namorado. Mas, antes, tenho que lhe contar este meu segredo. Se ele o entender… passaremos a viver juntos, teremos os nossos filhos, e seremos felizes para sempre. E abandonarei a página social, quanto mais não seja por falta de tempo, pois tenciono dedicar-me à família por completo, embora sem descurar a profissão…
O meu maior desejo é que a minha prole, em número ainda não definido, seja constituída apenas por meninas. Vou vingar-me cobrindo-as de laços, lacinhos e laçarotes, flores e passarinhos, e corações, atravessados ou não por setas! Sem esquecer os folhinhos e os cabelos pela cintura.

Hoje eu pergunto-me: eu seria uma pessoa diferente, mais estável, mais segura, com menos dúvidas que, constantemente invadem o meu espírito, se a minha Mãe não tivesse tentado forçar o meu destino, querendo dar-lhe um sentido inverso?