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sábado, 14 de dezembro de 2013

LENDA DO CHORO DA GUITARRA PORTUGUESA

                         (Meus verdes 15 anos… até cantava o Fado, e bem, segundo dizem)

Diz-se que a guitarra portuguesa é o instrumento que mais se aproxima do sentimento lusitano do povo português.
O seu timbre é de tal modo inconfundível e carregado de simbolismo que qualquer português o reconhece, esteja onde estiver.
Com origem na Idade Média, começou por frequentar os salões da alta burguesia, acabando por “cair” nas mãos do povo. Hoje é associada, inevitavelmente, ao Fado.
“A guitarra portuguesa significa o choro do Fado, a expressão da alma…”
Destino, fado e saudade são palavras que, naturalmente, se relacionam com o trinado da guitarra portuguesa, que lembra uma criança que chora ou uma mulher que suspira.
Faz-se ouvir, mas não se impõe.
O som único do trinado da guitarra portuguesa faz lembrar o choro, a mágoa e a tristeza, a que muitos atribuem um significado especial – um castigo infligido pelo Deus Menino.
Ora veja:

O PASSEIO DA VIRGEM MARIA


 No início de uma noite doce e calma, com o luar iluminando o caminho, resolveu a Virgem Maria dar um passeio.
Com o Menino Jesus pela mão, caminhando sem destino, seus passos a levaram em direcção à Mouraria.
Ao ouvir um som plangente Nossa Senhora parou, e comovida ficou.
Uma guitarra trinava tão amargo padecer que a Virgem, emocionada, chorou.
Como pérolas, as lágrimas rolaram pela sua bela face.
Ao ver assim torturado o rosto que tanto amava, Jesus, amargurado, com voz dorida, perguntou à guitarra a razão por que chorava.
A guitarra não soube explicar o motivo do seu penar, e Jesus ficou muito zangado.
Voltando-se para Maria, exclamou:
- Não gosto da Mouraria! Chorar assim é pecado.
E dirigindo-se à guitarra, continuou:
- Magoaste a minha Mãe! Pois, por castigo, hás-de chorar também pelo resto da tua vida!

E assim a guitarra portuguesa ficou condenada a chorar por toda a eternidade.
Esta é a razão do “choro da guitarra portuguesa”.

domingo, 6 de novembro de 2011

LENDA DO OÁSIS DE HUACACHINA



Há, no Peru, um local chamado oásis de Huacachina.
Trata-se de uma região formada por dunas de areia branca, tendo ao centro um belo lago verde, cercado de árvores.
Como em muitos outros sítios naquele país, existe um certo misticismo a respeito deste local.
São muitas as lendas a ele  associadas.
Dentre várias escolhi uma história de amor muito antiga, passada em tempos pré-hispânicos, que conta a vida de uma donzela que, com suas lágrimas, terá formado o lago do oásis.

A Lenda do Amor Perdido
Vivia em Cacaraca, centro indígena de alguma importância, uma donzela de olhos verdes, cabelos negros como azeviche, curvas sensuais como as vasilhas do Templo do Sol de Corikancha (Cuzco - um dos recantos mais sagrados para os incas).
Próximo, em Pariña Chica, vivia Ajall Kriña, jovem de olhar duro e forte, em combate, parecendo o bastão que se ergue na mão do guerreiro ou polida flexa em arco estendido; mas de olhar doce quando em paz, na sua terra, com um riso que fazia lembrar nota de música antiga, lançada por fatigado guerreiro, que regressa após prolongada ausência.
Ajall Kriña enamorou-se perdidamente pela jovem princesa do “pueblo”, de formas arredondadas de virgem.
Um dia, quando a jovem levava na ilharga o cântaro da água pura, a sua alma, apagada e muda até então, abriu a jaula e deixou cantar o seu coração, como uma cotovia:

Mi corazón en tu pecho cómo permitieras;
aunque penda de un abismo,muy hondo,
muy hondo o estrecho
de modo que tú me quieras
como tu corazón mismo.

A princesa Huacachina, a das lágrimas eternas, assim chamada porque desde que os seus olhos se abriram para a vida não fizeram senão chorar, não tardou em corresponder ao carinho profundo, fervoroso e intenso do feliz varão dos olhos mutantes -  de dureza ou doçura, de aço ou de mel.
Todas as manhãs e todas as tardes, nos cálidos ocasos ou nas rosadas auroras, Huacachina, cujas lágrimas parecia haverem secado para sempre, entregava a Ajall Kriña os carinhos do seu coração, as joias da sua ternura, o calor da sual alma pura e simples.
Mas a felicidade, que sempre julgamos eterna, voou como Zéfiro fugitivo que se some por entre as folhas das árvores.
Ordens de Cuzco dispunham que todos os jovens se apresentassem para sair imediatamente a combater a sublevação de um longíncuo “pueblo” beligerante.
Ajall Kriña, com a alma dilacerada, despediu-se da sua jovem feiticeira.
Ela jurou-lhe amor, carinho e fidelidade. Ele, feliz por sentir que ela não o trairia, e não entregaria o seu coração a nenhum outro, marchou com os outros do seu “pueblo” a caminho do “pueblo” revoltoso, a fim de debelar a rebelião e sufocar o movimento sacrílego contra o ‘Deus-Inca’.
Ajall Kriña, com terríveis feridas abertas, cicatrizes no corpo todo, morre em combate, depois de ter lutado como um leão.
Logo a má notícia chegou a Huacachina.
A bela princesa dos olhos feiticeiros, como louca, desesperada, a coberto das sombras da noite que se aproximava, sem que seus pais se apercebessem, caminhou pelos montes até cair prostrada, abatida, suada.
O pranto que jorrava do manancial inesgotável de seus olhos caía nas areias co

mo panos  de cambraia, e estendiam-se para além da Huega.
As lágrimas rolavam e continuaram rolando muitos minutos, dias, meses… dos seus olhos injectados pela dor.
Quando a fome, a dor, a tristeza e a desventura romperam o frágil ctistal da sua alma e a vida passou veloz, essas abundantes lágrimas, absorvidas pelas areias escaldantes, surgiram à flor da terra, depois de terem saturado as entranhas da terra, que as devolveu por não poder suportar o contágio da imensa dor.
De dia as verdes águas evaporam-se, em pequenas quantidades e sobem até ao céu, como se fossem chamadas pelos deuses para aprender sobre a dor; de noite, quando as sombras e o silêncio empurram a luz e o ruido, a princesa sai, coberta com o manto da sua cabeleira que ondula sobre o seu corpo.
Com esse manto negro, muito negro, mas menos escuro que a sua alma, continua chorando o seu pranto de ausência e tristeza.
Algumas gotas  descobrem-se de manhã, logo ao amanhecer, sobre os raros juncos que às vezes brotam; vêem-se sobre as inúmeras folhas rugosas e notam-se em cada um dos dentes das folhas penteadas da velha alfarrobeira, que estende os seus ramos levantando-se sobre a cama de areia, para pedir aos ceus piedade e consolo destinados à princesa da triste sina, do sonho desfeito, do paraíso perdido

As lágrimas desta mulher, de olhos verdes e cabelo muito negro, foram formando pouco a pouco a lagoa. Diz-se que nas noites de lua nova ainda se podem escutar seus lamentos.


domingo, 31 de julho de 2011

LENDA DO XÁ DE SAMARKANDA



Em tempos longínquos houve, em Samarkanda, um Xá, que ficou conhecido pela sua bondade e sentido de justiça.
Um dia, resolvendo viajar, saiu da sua cidade, à data capital do Turquestão, acompanhado do seu fiel criado.

Naqueles tempos as viagens eram demoradas e cansativas, por isso o Xá resolveu fazer uma paragem.
Depois de devidamente acomodados na estalagem, disse para o seu criado:
- Vai ao mercado e traz-me fruta fresca.

O criado obedeceu prontamente.
A caminho do mercado apareceu-lhe, de súbito, a Morte, com um ar lívido, disforme, uma boca enorme.
Olhou para o criado com um enorme ar de espanto estampado no rosto.

Aterrorizado, sem fala, o criado, sem pensar em cumprir as ordens de seu amo, retrocedeu de imediato.

Ao vê-lo naquele estado, e sem a fruta, o Xá perguntou o que acontecera, ao que ele respondeu:
- Vi a morte! E ela olhava-me duma maneira assustadora.
Preciso voltar hoje mesmo para Samarkanda, encontrar a minha família. Tens que me deixar sair daqui!
O Xá deixou-o partir, mas ficou a pensar:
– Porque é que a Morte fez isto?
Como desejava mesmo a fruta, pôs de parte os seus pergaminhos, - no fundo, ele era o Xá do Turquestão – e encaminhou-se para o mercado.

Encontrando a Morte, tal como o seu criado a descrevera, perguntou-lhe:
- O que é que o meu criado te fez, ou disse, para o assustares daquela maneira, que o fez fugir sem sequer me levar a fruta?
A Morte respondeu:
- Eu não lhe disse nada! Apenas me admirei de o ver aqui, esta manhã.
É que eu tinha um encontro marcado com ele para esta noite, em Samarkanda.
É para lá que vou já de seguida.

Esta é uma lenda que, a meu ver, transmite esta mensagem:
- NINGUÉM FOGE AO SEU DESTINO


SamarKanda é uma cidade do UZBEQUISTÃO,
ex-república soviética da Ásia Central. 



No século VII Samarkanda tornou-se um ponto de escala na Rota da Seda.

Aqui se encontravam algumas das principais etapas da Rota da Seda

(Reedição da publicação no meu blog HISTÓRIAS DE  ENCANTAR)

domingo, 13 de março de 2011

LENDA DAS SETE COLINAS DE LISBOA

Embora Roma seja também conhecida pela “cidade das sete colinas”, a verdade é que este epíteto pertence, por direito que lhe é conferido pela antiguidade, à cidade de Lisboa.
Espero não estar a ser muito “bairrista” ao fazer esta declaração 
Acerca da origem das colinas de Lisboa existem várias lendas, cada qual a mais interessante, e, em muitos pontos, coincidentes.
Escolhi esta que vou partilhar convosco por ser a que mais me agrada.
Em época que se perde nos tempos, ainda antes de ser ocupada por romanos e gregos, e até fenícios, existia aqui um reino chamado Ofiusa, que era governado por serpentes gigantescas.
Ao contrário dos outros elementos do governo, que eram serpentes normais, a rainha era diferente. Possuía cabeça e tronco de mulher, tendo as pernas substituídas por cauda de serpente.
Não deixando de ter, no seu íntimo, as características inerentes à serpente, era, contudo, um ser muito gentil e afável, com um enorme poder de sedução, que usava para atrair todos que aportavam ao seu reino.

Nas suas longas viagens aconteceu que Ulisses

e os seus companheiros passaram pelo Rio Tejo e, encantados com a sua beleza, resolveram ancorar e passar aqui alguns dias descansando, quem sabe, até, fundando uma cidade, a que seria dado o nome de Ulisseia.

Logo que viu Ulisses a rainha apaixonou-se perdidamente por ele. Propôs-lhe que se mantivesse no reino e, em troca, ela o desposaria.
Ulisses, receando a fúria de Ofiusa, com a qual podia correr até risco de vida, pois não esquecia que ela era meio serpente, fingiu aceitar, até que ele e os seus homens pudessem descansar e abastecer a nau com mantimentos necessários ao prosseguimento da viagem.

Alguns dias depois a nau encontrava-se perfeitamente abastecida; podiam, portanto, pôr-se a caminho.

Numa manhã bem cedo, ainda a rainha se encontrava a dormir, Ulisses conseguiu enganá-la e fugir para o mar alto.

Ao ver-se só, enraivecida por ter sido enganada, a rainha lançou-se da colina onde vivia em direcção ao mar. A sua longa cauda não lhe permitia mover-se com grande velocidade, mas não a impediu de serpentear até ao rio, deixando atrás de si, como prova do enorme esforço, as sete colinas que ainda hoje existem em Lisboa.
Chegada ao rio ainda continuou algum tempo nadando até ao mar, mas acabou por desistir, sem forças para continuar perseguindo Ulisses, que entretanto já se encontrava longe.

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- A primeira colina é a de S. Vicente de Fora – pertence ao Bairro de
Alfama
- À esquerda desta levanta-se uma outra que sobe até ao Postigo de Stº.
André – pertence ao Bairro da Graça

(Miradouro da Graça)

- A terceira colina é a mais alta de todas, a colina de S. Jorge, que tem
no cimo o Castelo de S. Jorge – pertence ao Bairro da Mouraria

(Miradouro do Castelo de S. Jorge)

- A quarta elevação tem o nome de Sant’Ana – pertence ao Bairro da
Anunciada
- A quinta é a de S. Roque – pertence ao Bairro Alto
- A sexta colina é a das Chagas, que deve o seu nome à igreja que ali
edificaram os marinheiros da rota da índia, em louvor às chagas de
Cristo – pertence ao Bairro do Carmo
- Finalmente a sétima colina é a de Santa Catarina – pertence ao bairro
Camões.

(Miradouro de Santa Catarina)

Ainda hoje se conservam aí os 7 principais templos de Lisboa.

As sete colinas de Lisboa continuam a dirigir-se todas para o rio Tejo, em busca dum amor eterno.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

UMA HISTÓRIA DO IMPERADOR KRU WON


Hoje vou propor-lhe um jogo.
Começarei por contar uma história passada em tempos antigos.
A certa altura vou sugerir-lhe que faça uma escolha. De acordo?
Então continuemos para ver o resultado

Era uma vez um imperador da China Antiga chamado Kru Won, governante inteligente mas cruel, que liderava o seu povo com mão-de-ferro. Tinha muitas esposas guardadas por eunucos reais, enquanto ele se divertia jogando; ao mesmo tempo divertia os seus súbditos com jogos públicos.
Para seu mal, um dos generais de maior confiança do imperador apaixonou-se por uma das esposas predilectas de Kru Won e fugiu com ela.
Foram capturados e voltaram à corte de Kru Won, para receberem o castigo.
Era costume, em casos semelhantes, mandar cortar a cabeça do prevaricador.
Porém, desta vez, o imperador resolveu divertir-se com a situação, e proporcionar à sua corte um espectáculo diferente.
Ordenou que o general se colocasse no meio de um anfiteatro que tinha duas portas.
Debruçando-se do balcão onde se encontrava, o imperador falou para o general:
"- Atrás de uma daquelas duas portas mandei colocar uma donzela: atrás da outra encontra-se um tigre faminto.
Tu, general, terás que abrir uma daquelas portas. Assim, ou te casarás com uma bela donzela ou serás comido vivo.
A minha esposa, que partilhou a tua cama e se encontra aqui a meu lado, sabe atrás de que porta se encontra a donzela e qual a do tigre.
Como vocês dois sentem um profundo amor um pelo outro, dei-lhe permissão para que ela te indique qual a porta que deverás abrir."

O general olhou para a mulher amada, e ela indicou a porta à esquerda. Ele correu e abriu-a imediatamente.

QUEM É QUE ELE ENCONTROU ATRÁS DA PORTA? A DONZELA OU O TIGRE?

Chegou o momento de escolher

Obs. - A história foi escrita com o intuito de que a sua atitude interior em relação à vida surgisse naturalmente.
A sua resposta apenas vai evidenciar, de acordo com a sua escolha, qual o tipo de atitude natural que você tem em relação à vida e às pessoas.
Através da sua resposta, você poderá ter uma noção do seu QE (Inteligência Emocional).



TIGRE




Se você acha que atrás da porta escolhida pelo general se encontra o Tigre, significa que não confia na esposa do imperador, revelando uma atitude de desconfiança em relação ao mundo e às pessoas com quem convive.
Acredita, por exemplo, que sempre que uma pessoa lhe oferece ajuda está querendo alguma coisa em troca. *


DONZELA

Se você optou pela donzela demonstra que confia na esposa do imperador, e revela uma atitude positiva em relação à vida e às pessoas.
A simples presença de optimismo na personalidade é, por si só, um factor de maturidade e equilíbrio emocional, principal responsável pelo sucesso e pela felicidade das pessoas.
Atitudes positivas e optimistas aproximam as pessoas cada vez mais dos seus objectivos, facilitando a conquista de metas e a realização de projectos. * *


Voltando ao conto:
Imaginemos que o malvado imperador deixava sua esposa fujona indicar a porta e em seguida trocava as posições da donzela e do tigre…
Assim que o general seguisse o conselho da sua amada, ele não apenas morreria como a deixaria assombrada por ter indicado a porta errada.
Seria a forma mais cruel de punir ambos.

Mas se, no último momento, o general desconfiasse da indicação e optasse pela porta contrária à que a sua amada lhe indicava?
Nesse caso ele ficaria com a donzela, mas perderia para sempre a confiança na amante, pois sempre se lembraria que ela lhe indicara a porta onde se encontrava o tigre.

Portanto, num caso ou noutro, o imperador teria sempre a sua vingança.


** Segundo os cientistas entrevistados e citados por Daniel Goleman no seu livro «Inteligência Emocional» o optimismo na personalidade de uma pessoa é um factor essencial para o seu sucesso.
Está provado que pessoas optimistas e positivas são mais felizes e realizadas, desenvolvem relacionamentos afectivos, amorosos, sociais, profissionais e familiares mais equilibrados e gratificantes.
Em suma, a opção pela "Donzela" indica bom nível de maturidade e equilíbrio, emocionais que, somado a outros factores pode indicar alto nível de Q.E.

* Se a sua opção foi pelo "tigre", pense um pouco nisso. Será que você tem explorado todas as oportunidades que têm surgido na sua vida, ou está se limitando para não enfrentar os problemas que imagina que vão surgir?
De facto a opção pelo Tigre indica uma tendência pessimista em relação a possíveis resultados, que pode levar você a perder boas oportunidades de sucesso.
Pode parecer que nada dá certo para si, mas na verdade a sua atitude negativa é que é a verdadeira responsável pelos resultados insatisfatórios que vivencia.
Daniel Goleman

domingo, 23 de janeiro de 2011

LENDA DO GALO DE BARCELOS











LENDA DO GALO DE BARCELOS

Igreja do Senhor da Cruz - Barcelos
(Foto minha)


Quando eu era criança vivi uns anos nos arredores de Barcelos.
Lá ouvi contar uma lenda acerca do «galo de Barcelos» que, naquele tempo, ainda não tinha a notoriedade que hoje lhe é atribuída, a ponto de alguns o considerarem como um símbolo de Portugal.
Não vou tão longe, sendo contudo certo que os turistas que passam por essa cidade do norte do nosso país não deixam de levar consigo, como recordação, o famoso galo.
Vou tentar “compor” a história que ouvi, se para tanto a memória me não falhar.
Ora ouçam:

Em tempos remotos aconteceu, no norte de Portugal, um crime de morte, que jamais se conseguiu esclarecer.
Foram inúmeras as investigações realizadas, mas todas em vão. Nunca se descobriu o assassino.

Algum tempo depois deste acontecimento, quando tudo tinha caído no esquecimento, apareceu na então povoação (hoje cidade municipal) de Barcelos um peregrino, oriundo da Galiza, que se dirigia a Santiago de Compostela.
Ao ver a figura do romeiro alguém se lembrou do já quase esquecido caso do assassínio, e se dirigiu às autoridades declarando a sua desconfiança.
Não tardou que houvesse logo quem afirmasse tê-lo visto na noite do crime junto ao local onde o mesmo fora praticado.
Perante afirmações tão seguras o romeiro foi preso.
Apesar de submetido a grandes torturas e suplícios, o galego afirmou-se sempre inocente. Mas todas as evidências e coincidências o apontavam como o verdadeiro criminoso.
Sem ter como comprovar a sua inocência o romeiro foi julgado e condenado à morte pela forca.
Finalmente chegou o dia da execução da sentença do homem, que, em vão, continuou jurando estar inocente.
No centro do povoado de Barcelos foi erguida a forca.
Ao ser questionado acerca do seu último desejo, o pobre homem declarou desejar ser conduzido à presença do juiz.
À chegada, o malogrado homem encontrou o juiz numa grande jantarada, rodeado dos seus amigos e admiradores.
De fronte do juiz o galego voltou a afirmar a sua inocência, suplicando, pela fé cristã, que tivessem misericórdia e não o enforcassem.
O magistrado, que aprendera as leis em Salamanca, acabou por ficar confuso com as veementes declarações de inocência do romeiro. Mas nada pode fazer pois que já houvera julgamento e o homem fora condenado à forca. Portanto, havia que se cumprir a sentença.
Ao ver que não conseguia demover o juiz, e que os seus convidados se riam da sua tentativa, avistanto um frango assado em cima da mesa, interpelou São Tiago, o santo que ele se propusera visitar quando fora interrompido na sua caminhada:
- São Tiago, vós sabeis que estou inocente. Para o comprovar fazei com que esse galo, que está em cima da mesa, morto e assado, cante antes que eu seja enforcado.
Todos se riram das palavras do galego. O juiz ordenou que o homem fosse levado para a forca e que a sentença fosse cumprida.
Assim foi feito.
Passado o mal estar inicial todos continuaram a comer e a beber alegremente. Mas, por uma estranha superstição, ninguém se atreveu a tocar no galo nomeado pelo galego.
Todos estavam ansiosos para que terminasse o suplício do romeiro, cumprindo-se finalmente a sentença.
De repente, perante o espanto geral, o galo assado começou a cobrir-se de penas transformando-se numa bela ave, tão viva quanto todos eles, e começou a cantar alegremente.
Toda a gente ficou boquiaberta. O juiz e os seus convidados acorreram ao local da forca.
Encontraram o galego suspenso no ar com a corda do pescoço solta. E, perante a admiração geral, descobriram que ele ainda estava vivo.
Imediatamente libertaram o preso, deixando que ele seguisse para Santiago de Compostela a fim de cumprir a sua promessa de romeiro.
Meses depois o galego regressou já com a sua promessa cumprida.
Em sinal de agradecimento aos que atestaram a sua inocência mandou erguer um padrão, que se encontra na zona histórica da cidade,


que tem de um dos lados São Paulo e a Virgem, o sol, a lua e um dragão; do outro lado vê-se Cristo crucificado, um galo e São Tiago sustentando no ar um enforcado.

A justiça fora feita através do canto do galo ressuscitado, que se tornaria o símbolo de Barcelos.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Pedro Abelardo nasceu em 1079, em Le Pallet, perto de Nantes, Bretanha. Tornou-se célebre na Europa como Professor de Teologia e Intelectual.
Em 1114 conheceu Heloísa, à data com 14 anos, rendendo-se aos seus encantos.
Veja a trágica história de amor que ambos viveram.



ABELARDO E HELOÍSA



O romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo iniciou-se em Paris, no período entre o final da Idade Média e o início da Renascença.
Abelardo havia sido recentemente contratado pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica.
Heloísa, que já ouvira falar de Abelardo e se interessava pelas suas teorias polémicas, tentou aproximar-se dele através dos seus professores. Mas as suas tentativas foram em vão.
Uma tarde, Heloísa saiu para passear com a sua criada Sibyle, e aproximou-se de um grupo de estudantes reunidos em torno de alguém.
O seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar precisamente nos pés do jovem que era o alvo das atenções, o mestre Abelardo.
Ao escutar o seu nome, o coração de Heloísa disparou!
Ele apanhou o chapéu e, quando Heloísa se aproximou para o pegar, ele logo a reconheceu como Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo.
Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando os dois se olharam.
Heloísa colocou o seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo, e retirou-se.
Desde esse encontro, porém. Heloísa não conseguiu mais esquecer Abelardo.
Fingiu estar doente, dispensou os seus antigos professores, e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelo Cântico dos Cânticos, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas.
Ela sabia que Abelardo seria atraído pelas suas actividades e viria até ela.
Quando ficou sabendo dos estudos de Heloísa, conforme previsto por ela, Abelardo imediatamente a procurou.
Abelardo tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa, que logo o aceitou como o mais novo professor da sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas nocturnas que ele lhe daria.
Em pouco tempo essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas, e, sem demora, contando com a confiança de Fulbert, passaram a ficar a sós.
Fulbert ia dormir, e a criada retirava-se discretamente para o quarto ao lado.
Em alguns meses conheciam-se muito bem, e só tinham paz quando estavam juntos.
Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa, e os dois amaram-se.
A partir desse momento Abelardo passou a desinteressar-se de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se das suas obrigações como professor.
Os problemas começaram a surgir. Primeiro, esse amor começou a esbarrar nos conceitos da época, quando os intelectuais, como Heloísa e Abelardo, racionalizavam o amor, acreditando que os impulsos sensuais deveriam ser reprimidos pelo intelecto.
Não havia lugar para o desejo, que era um componente muito forte no relacionamento dos dois, originando um intenso conflito para ambos. Ao mesmo tempo, Sibyle, a criada, adoecera, e uma outra serva que a substituíra encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa, e a entregou a Fulbert, que imediatamente expulsou Abelardo.
No entanto isso não foi suficiente para separá-los.
Heloísa preparou poções para seu tio dormir, e, com a ajuda da criada Sibyle, Abelardo foi conduzido ao porão. Local que passou a ser o ponto de encontro dos dois.
Uma noite, porém, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobri-los.
Heloísa foi espancada, e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada.
Mesmo assim o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu, e eles passaram a encontra-se onde pudessem: sacristias, confessionários e catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia frequentar sem acompanhantes a seu lado.
Heloísa acabou engravidando, e para evitar aquele escândalo, Abelardo levou-a à aldeia de Pallet, no interior da França.
Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados da sua irmã, e voltou a Paris;
mas não aguentou a solidão que sentia longe da sua amada, e resolveu falar com Fulbert para pedir o seu perdão e a mão de Heloísa em casamento.
Surpreendentemente Fulbert perdoou e concordou com o casamento.
Ao receber as boas novas, Heloísa deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia.
Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem sequer trocar alianças ou um beijo na frente do sacerdote.
O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert lhe dera.
Ofendido, Fulbert decidiu pôr um fim naquilo tudo. Contratou dois carrascos e pagou-lhes para invadirem o quarto de Abelardo durante a noite e arrancar-lhe o membro viril.
Após essa tragédia Abelardo e Heloísa jamais voltaram a falar-se.
Ela ingressou no Convento de Santa Maria de Argenteuil, em profundo estado de depressão, só retornando à vida aos poucos, conforme as notícias das melhores do seu amado iam surgindo.
Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho.
Abelardo construiu uma Escola Mosteiro ao lado da Escola Convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas nunca se falavam. Apenas trocavam cartas apaixonadas.
Abelardo morreu em 1142, com 63 anos de idade. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem. Faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa das suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.
Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo para ali depositarem Heloísa, encontraram o seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada de Heloísa.
Em 1817 os restos mortais dos dois amantes foram levados para o cemitério do Padre Lachaise.

Sepultura de Abelardo e Heloísa no cemitério do Padre Lachaise


Morte de Heloísa

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A NUDEZ

Num dia chuvoso como o de hoje, que não favorece a imaginação de quem, como eu, ama o sol e dias luminosos, resolvi provocar a musa inspiradora, remexendo em velhos arquivos.
Foi assim que me deparei com um apontamento sobre o fotógrafo Spencer Tunic, americano, natural de Nova Iorque.
Depois de se formar em Belas Artes especializou-se em fotografar grandes grupos de pessoas nuas, a que dá o nome de «paisagens de corpos».
Realizou trabalhos em várias partes do mundo; mas foi em Barcelona que reuniu o maior número de pessoas que se despiram para o artista – 7.000 pessoas.
Em 18 de Agosto de 2007, no seu último trabalho, fotografou 600 pessoas nos Alpes suíços, a pedido do grupo ambientalista internacional Greenpeace, para uma campanha de consciencialização sobre o aquecimento global



Achei extraordinária esta ideia do Greenpeace de associar um grupo de pessoas nuas ao grave problema do aquecimento global, que exige tomada de medidas urgentes.

A utilização da nudez como forma de atingir um determinado objectivo não é inédita.
Já no século XI uma mulher usou a sua nudez com um intuito altruísta - ajudar o seu povo a livrar-se de insuportáveis impostos.
É o caso de Lady Godiva.

Mas…será verdade que existiu uma Lady Godiva?
E será verdade que cavalgou nua pelas ruas de Coventry?


Lady Godiva de John Collier, ca 1897

Existiu, sem margem para dúvidas, uma Lady Godiva, casada com Leofric, um barão que viveu durante os reinados de Canuto e Eduardo, o Confessor, no século XI.
Os corpos de Lady Godiva e de Leofric encontram-se sepultados na Igreja da Abadia de Coventry, na Grã-Bretanha.

Segundo dados históricos, Leofric lançou um pesado imposto à cidade, que até a própria esposa considerou elevado.
Resolvendo interceder pelo povo, ela pediu-lhe para o retirar.
Considerando a ideia absurda, Leofric gracejou, respondendo que o faria quando ela cavalgasse nua pelas ruas da cidade.
Lady Godiva aceitou o desafio.
Tendo tomado disto conhecimento, todos os habitantes da cidade se recolheram a suas casas, em sinal de respeito. Desse modo ninguém viu Lady Godiva no seu passeio.
Houve, contudo, uma excepção: um homem chamado Peeping Tom aguardou a p assagem de Lady Godiva.
Como consequência desse acto irreflectido, por intervenção celestial, ficou cego para o resto da vida.

Embora não existam fundamentos sólidos que confirmem esta história, também não h á bases que permitam negá-la.
A lenda foi contada, pela primeira vez, pelo Prior de Wendover, célebre cronista inglês, falecido em 1236.
Alguns historiadores defendem que o prior interpretou mal a história, e que a alusão à nudez de Lady Godiva se referia a ela ter-se despojado dos seus bens.
Outros, interpretam essa nudez como a falta de adereços e jóias preciosas, marca d a nobreza à qual pertencia.
Outros ainda pensam que quem estava nu era o cavalo que ela montava, que se teria apresentado desprovido de todos os panejamentos, atributos da classe a que ela pertencia, que assim se humilhava, levando-a a ganhar a aposta que Leofric lhe lançara.

Na história inicial não existe qualquer referência ao personagem Peeping Tom. Este só foi introduzido vários séculos mais tarde .

O certo é que ainda hoje há uma celebração em honra de Lady Godiva, que foi instituída no dia 31 de Maio de 1678.
De 1980 em diante, Pru Poretta, uma habitante de Coventry City, figura como Lady Godiva, para atrair turistas às festas do Município.
Desde 2005 Poretta mantém o status de “embaixadora não oficial” de Coventry, liderando uma marcha a favor da paz mundial e da união dos povos.




Estátua de Lady Godiva no centro de Coventry


Celebração em honra de Lady Godiva, em Coventry City

Lady Godiva foi imortalizada num poema de Lord Tennyson, cuja poesia, na sua grande parte, se reporta a temas mitológicos.