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domingo, 23 de outubro de 2011

PRAZERES DA VIDA CAMPESTRE

PRAZERES DA VIDA CAMPESTRE II


Com o decorrer dos dias viemos a verificar que as cabras Lulu e Lulubela afinal eram ovelhas. O fornecedor a quem as compráramos havia-se enganado, e trocara o nosso pedido com o de outros “supostos agricultores”, que, tal como nós, só passado algum tempo verificaram que as ovelhas que haviam comprado afinal eram cabras!
Apesar de serem muito loucas as ovelhas Lulu e Lulubela eram de raça pura – Damara – uma raça que não cria lã e por isso não precisa ser tosquiada. Para nós isto representava um grande benefício, já que não possuíamos os apetrechos necessários nem estávamos interessados em toda essa trabalheira da tosquia. Se o tentássemos seria, com certeza, mais uma experiência fracassada. Fora, aliás, essa a razão por que havíamos encomendado cabras e não ovelhas.
O tempo passava e Lulu e Lulubela não davam mostras de ganhar juízo – as suas “cabriolices” eram cada vez mais atrevidas. Cheguei mesmo a pensar se não seriam o resultado de algum cruzamento de cabra com bode ou ovelha com carneiro.
Até que, a certa altura, comecei a notar que Lulubela, a mais louca das duas, não acompanhava a irmã nos seus saltos e correrias, preferindo refastelar-se à sombra das árvores. Deitada de lado apenas esticava o pescoço para comer alguma erva que se encontrava ao seu alcance. E comecei a notar também que ela estava a ficar muito gorda.
- Não admira, passa os dias deitada à sombra… Andará ela doente?
Depressa descobri que a doença de Lulubela afinal era gravidez, confirmada pelo veterinário. Fora o resultado das suas visitas conjugais ao bode Bucky, que, apesar de muito poucas, deram os seus frutos – ou viriam a dar, dentro do tempo regulamentar.

Numa noite particularmente fria o meu marido levantou a gola de raposa da samarra, e resmungou:
- Porque será que estes animais escolhem sempre o tempo mais frio para terem as crias?
Era meia noite, estávamos deitados, quando ouvimos os gemidos aflitivos da Lulubela. Pensamos que tinha, finalmente, chegado a hora.
A gravidez da Lulubela tinha decorrido sem problemas. Contudo, já havia ultrapassado em um mês o tempo de gestação, o que nos trazia preocupados.
Ao contrário dos outros animais que davam à luz em campo aberto, Lulubela estava a ser tratada com todos os cuidados, tendo-lhe nós arranjado um canto no estábulo, com palha fofa, para ela estar instalada confortavelmente.
Ao fim de três horas de trabalho de parto, em que Lulubela se debateu com todas as suas forças, apareceu a cabeça, seguida do resto do corpo, dum lindo cordeirinho cor de champanhe.
Com Lulubela extenuada mas feliz, lambendo a sua cria, fomos novamente para a cama, para aproveitar as poucas horas que restavam até ao alvorecer.
Logo que apareceram os primeiros raios de sol saltei da cama e dirigi-me ao estábulo, para ver Lulubela e o seu bebé.
Na semi-obscuridade que ainda reinava no estábulo ouvi o som do cordeirinho a mamar, o que me deu a certeza de que tudo estava bem. Aproximei-me cautelosamente para não o assustar.
Foi então que o meu pé pisou qualquer coisa que se escondia debaixo da palha. Um berro penetrante rasgou a escuridão.
Automaticamente recuei e corri a acender a luz.
Foi então que o vi. Um ser hediondo, um cordeiro negro, gémeo do primeiro, mas grotescamente deformado, que se agitava no solo, mal se aguentando nas pernas magras e tortas.
Pelo seu tamanho calculei que pesaria cerca de 5 quilos, quando o peso normal num cordeiro recém-nascido ronda os 4 quilos.
Vencendo o horror inicial invadiu-me uma grande piedade por aquele ser disforme. Baixando-me peguei-lhe ao colo e aconcheguei-o. Reparei então que o pequeno animal tinha apenas um olho, encimado por um pequeno cornicho, mesmo no meio da testa. Como a Natureza fora cruel ao permitir que fosse gerado um ser assim!
Ainda hoje me admiro de como não o abatemos à nascença, mas ainda bem que o não fizemos.
Os primeiros dias foram bastante difíceis. O gémeo cor de champanhe assustava-se sempre que o negro tentava aproximar-se. Lulubela rejeitava-o, não o deixando mamar. Se ele insistia dava-lhe cabeçadas e atirava-o ao chão.
Mas, mesmo a sangrar, o pequeno ser levantava-se e insistia. Era um vencedor nato! Até que, apanhando a mãe a dormitar, aproximava-se e começava a mamar. E assim conseguiu vencer a resistência de Lulubela.
Ao princípio os nossos filhos não gostavam do animal. Mas quando o viram lutar para se manter vivo, começaram a admirá-lo.
Um dia a nossa filha veio a correr da escola, e quase sem fôlego, contou que na aula tinham lido uma história de um gigante que tinha só um olho e se chamava Ciclope.
- É um nome muito bonito para o cordeirinho preto. Podemos chamar-lhe assim, mamã?
Claro que concordei, e Ciclope passou a ser tratado como um animal de estimação. Andava sempre atrás das crianças; parecia até que os desafiava para jogar às escondidas.
Os miúdos tapavam-lhe o olho com um pano e escondiam-se. Ciclope procurava-os, tropeçando e desequilibrando-se, mas não desistia até os encontrar. Quando isso acontecia era abraçado carinhosamente e recompensado com um torrão de açúcar, que ele agradecia lambendo a mão ou a face rosada de quem o premiava.
- Olha, mamã, o Ciclope gosta tanto de mim!
Depois de ter nascido com um peso muito superior ao normal, era agora um animal grande, bastante maior do que o gémeo.
Com o passar do tempo reparamos que ele se tornara favorito de alguns animais. No inverno o gato encostava-se a ele, todo enroscado, recebendo o calor do seu corpo; no verão as galinhas e os cães abrigavam-se à sua sombra. Mas o seu preferido era um pintainho que tínhamos criado na incubadora. Quando Ciclope se deitava, o pintainho saltava-lhe para cima da cabeça, e começava a debicá-lo para o catar; em seguida aninhava-se junto ao cornicho. Bastantes meses depois, o pintainho já transformado num belo galo, ainda mantinha este hábito. Foram amigos até ao fim.
Chegou o Natal e os pequenos andavam entusiasmados a preparar a árvore de Natal. Quando chegou a altura de colocar as luzinhas, a menina lembrou-se:
- Vamos por luzinhas na cabeça do Ciclope.
E saíram com um conjunto de lâmpadas. Uns minutos depois ouvi grandes risadas, e espreitei pela janela. Tinham prendido uma bateria e os fios ao cornicho de Ciclope, espalhando as luzinhas pelas costas do animal.
Lulubela e o gémeo que sempre o rejeitaram, aproximaram-se, provavelmente atraídos pelas luzinhas, e começaram a cheirá-lo. Ciclope parecia sorrir. Notando-o, os pequenos exclamaram:
- Agora já tem amigos, e está a sorrir porque sabe que gostam dele.
Quando Ciclope atingiu os três anos era um animal bastante grande, mas, ao contrário de todos os outros, não tinha qualquer utilidade para a quinta – era apenas um animal de estimação. Mas, devido ao seu tamanho anormal, a sua alimentação ficava bastante cara, pois só as ervas que comia aqui e ali não eram suficientes; tínhamos que lhe dar feno que comprávamos e era caro. Tratava-se, portanto, de um animal bastante dispendioso.
Esforçamo-nos por não pensar na despesa que ele representava, pois seríamos incapazes de o abater.
Um dia em que ele andava a brincar com as crianças, correndo atrás delas, notei que parava de vez em quando, respirando com dificuldade. Chamei o veterinário para o examinar, que declarou:
- O Ciclope tem um coração muito grande, demasiado grande para o espaço onde se encontra. Por isso é natural ele cansar-se. Mas não há nada que possamos fazer. É congénito, terá que viver assim.

O Ciclope tinha 4 anos e meio quando morreu. Descobrimo-lo debaixo da sua árvore preferida. Parecia dormir, mas o coração deixara de bater. Baixei-me para o acariciar e senti um nó na garganta. Olhando para cima vi os miúdos com os olhos rasos de lágrimas.
Apercebi-me então de como Ciclope fora importante nas nossas vidas: com a sua constante necessidade de carinho ensinara-nos a amar os menos afortunados, os “diferentes”, os enjeitados…
Ele amava-nos e nós retribuíamos-lhe.

domingo, 7 de agosto de 2011

GUARDADO NO BAÚ

PRAZERES DA VIDA CAMPESTRE

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O meu marido e eu sempre sonháramos produzir os nossos próprios alimentos. Antes de termos comprado a quinta, imaginávamo-nos a encher travessas de legumes frescos com a modesta mensagem: “Cultivados por nós”.
Mas hoje cambaleamos os dois, carregados com sacos de 25kg de comida para 45 animais gordos, que pouco mais fazem do que viver em transe digestivo.

Como pude eu, uma citadina,

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transformar-me em empregada de mesa destas criaturas horrorosas e inúteis?
Começamos com a «nossa horta», um desastre com o qual nada aprendemos.
Após uma estação a arar, adubar, colocar cercas até ficar com as costas partidas, produzimos apenas o «tomate especial». Era um bom tomate, e foi poupado pelas toupeiras, que deixaram as suas impressões dentais em todos os outros legumes.
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A seguir vieram as cabras. Sempre havíamos gostado de leite de cabra e imaginámos que umas quantas cabeças nos forneceriam o queijo enquanto cabriolavam, como adoráveis animais de estimação.
Assim, encomendamos duas irmãs completamente loucas: a Lulu e a Lulubela.

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Embora soubesse que as cabras não davam directamente bocados de queijo branco, não sabia que esses “bichinhos” implicavam plataformas leiteiras, problemas de tetas e, o pior de tudo, ligações sexuais. As cabras só produzem leite se acasalarem, e o único bode que existia lá na terra, era o Bucky, um ser cornudo e barbudo, com um odor corporal de cortar à faca!

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Na sua primeira visita conjugal ele e as “miúdas” fizeram uma tal bagunça que causaram avultados prejuízos no celeiro, antes de comerem os peitoris das janelas.
O namoro foi cancelado.
A Lulu e a Lulubela entretêm-nos agora, de vez em quando, com travessuras no relvado da frente, batendo com as cabeças e executando alguns passos de dança que recordam ritos dionisíacos. Mas a maior parte do tempo limitam-se a mascar (geralmente com ruído) e a aliviar-se.

A seguir veio o sonho dos ovos frescos, recolhidos de manhãzinha, ainda quentes – um sonho que deu lugar à realidade de 38 galinhas irritantes. Após um vultuoso investimento em ração para galinhas, uma manhã, quando fui tirar um ovo – amarelo, sedoso e quente – a galinha quase me arrancou a mão.
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Depressa descobri que as galinhas são seres esquisitos. Até o galo nos desapontou. Esperávamos que ele nos acordasse com o seu canto orgulhoso. Mas, na Quinta Dimensão (que é o nome da nossa propriedade) o galo tem de ser abanado para acordar, ao meio dia.

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Com as galinhas vieram os gansos, que não fazem o menor sentido. Encomendámo-los num impulso, ao ver o catálogo de aves de capoeira, e ao lermos a lista de nomes: gansinhos de Toulouse.
Gansinhos! A palavra fazia-nos lembrar qualquer coisa pequenina. Mas os meus cinco bebezinhos gansos, de penugem verde amarelada, depressa se transformaram em gansos gorduchos, com 9 kg.

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Durante algum tempo agarrei-me à ilusão de que eles voariam para o Sul quando o inverno chegasse. Vira o documentário «O Voo Incrível dos Gansos da Neve» e pensei gravá-lo em vídeo para o passar aos meus gansos. Mas eles voam praticamente tanto como eu – derrapando alguns metros até à piscina de plástico dos miúdos.
Resignei-me a dirigir um balneário de gansos, mas o meu marido tinha outras ideias.
- O Natal está a chegar e os gansos estão a engordar – rosnou ele, com uma expressão diabólica à Jack Nicholson no olhar.

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Fiquei aterrada. Como podia ele pensar em assar um animal que me considerava a Mãe Gansa?
Os gansos haviam-me seguido até um lago próximo, onde os vizinhos me tinham assegurado que os podia deixar.
- Mal toquem na água, nunca mais quererão de lá sair.
Mas, quando me vim embora, eles seguiram-me em fila indiana. Voltei-me e vi-os com as cabeças cinzentas acima da erva alta, procurando seguir-me as pisadas.
Fiquei comovida. Para toda a vida. Sem penugem, com as vozes estridentes, os gansos haviam se transformado numa espécie de animais repulsivos. O único macho, Arnold, chegou mesmo a picar-me o rabo quando lhe voltei as costas. O pior é que eles estão para durar pelo menos 30 anos.

Hoje em dia compro a minha «alimentação caseira». Escolho o ganso na secção da melhor carne do mercado, e encontro ovos «acabadinhos de pôr» e «queijo natural de cabra» nas boas lojas.
Os ovos são caros, mas saem, mesmo assim, mais baratos do que os meus, que eram muito mais caros, tendo em conta coisas como os galinheiros.
Mas o melhor é poder assar um ganso, regá-lo com molho, aspirar-lhe o aroma e saber que não é o Arnold. Esse está lá fora, ocupado em relações incestuosas com as irmãs, na piscina.

ESTA É A MINHA ÚLTIMA POSTAGEM ANTES DE FÉRIAS. VOLTAREI EM MEADOS DE SETEMBRO.
ATÉ LÁ DESEJO-VOS TUDO DE BOM, E BOAS FÉRIAS A QUEM AS GOZAR NESTE MESMO PERÍODO.
BEIJINHOS PARA TODOS.

domingo, 10 de julho de 2011

GUARDADO NO BAÚ

ACONTECEU HÁ 22 ANOS


Era sexta feira, 11 de Agosto de 1989, o terceiro dia de marcha de cinco dias, através dos 3.000 Km2 do Parque Florestal de Roosevelt.
Mary O’Leary tremia de frio enquanto retirava a última estaca da sua tenda redonda. Na pequena clareira da montanha o céu apresentava-se fechado, cinzento, e a temperatura não ultrapassava os 4º C.
Mary, de 23 anos, finalista universitária, sempre amara a Natureza, mas só recentemente começara a fazer estas marchas, de mochila às costas. Aquela seria a sua caminhada mais longa até àquela data.
Enquanto as nuvens, ameaçando trovoada, se acumulavam no céu, Mary prendeu as correias da grande mochila de aros de metal e começou a subir a trilha solitária.
Por volta das 11 H da manhã chegou a um prado verdejante, bem alto na montanha Middle Bald. Deixou escorregar a pesada mochila e encostou-se a um penedo, a descansar.
Vestira um fato de treino grosso por cima dos calções e da blusa, e tinha esperança de que o frio que se fazia sentir, passasse. No entanto, o ar estava cada vez mais frio e o vento mais agreste. Quando o primeiro trovão ribombou à distância, levantou-se.
- É melhor pôr-me a caminho – pensou. Não quero ser apanhada pela tempestade.
Escalou rapidamente a distância que a separava do pico da montanha, e ficou ali a admirar a paisagem. Reparou na crista que se estendia mais abaixo, correndo para sul, recortada pelas árvores. Pareceu-lhe que faria uma descida mais rápida se saísse da trilha principal, e cortasse através da crista em direcção a um pico próximo. Ia já a descer quando caíram as primeiras gotas geladas. Fez uma pausa e vestiu o impermeável vermelho. Quando chegou às árvores chuviscava regularmente.
Após o primeiro relâmpago contou 5 segundos antes do trovão: a tempestade estava ainda a uma milha de distância.
- O melhor é continuar a andar enquanto puder – pensou.
Em breve, contudo, a tempestade desabou, com o ribombar ensurdecedor do trovão. Correu a abrigar-se debaixo das árvores, mas a chuva e o granizo atingiam-na na mesma.
A chuva continuou durante uma hora, tendo parado por volta da 1H da tarde. Quando o sol voltou, Mary abandonou a protecção das árvores gotejantes.
Estava a olhar para baixo, para ajustar uma correia ao peito, quando um raio atravessou o céu como uma flecha, em direcção à estrutura metálica da mochila. No momento seguinte o mundo à sua volta explodiu numa luz forte e paralisante.
O sulco vibrante do raio penetrou no corpo de Mary com um ruído ensurdecedor, levantando-a do solo. Os músculos contraíram-se-lhe violentamente e a electricidade provocou-lhe espasmos nos vasos sanguíneos, cortando-lhe a circulação nas extremidades. O cabelo pôs-se-lhe em pé.
Quando a descarga lhe abanou as pernas, crestando-lhe os nervos e os músculos, o cheiro a carne queimada invadiu-lhe as narinas e ela ficou ofuscada pela incandescência.
Por fim, o choque parou, e Mary caiu por terra. Sentia um formigueiro na cabeça e no tronco, mas abaixo do peito não tinha qualquer sensação. Os seus lábios soltaram um suspiro rouco e quase imperceptível: Socorro!
Mary sabia o que devia ter acontecido. O raio fora uma surpresa total, que partira de uma nuvem invisível a diversos quilómetros de distância, antes de descrever um arco desde o céu aberto em direcção a ela. Convencida de que estava a morrer Mary começou a chorar.
- Oh; meu Deus, não me abandones, por favor!
As palavras tiveram um efeito tranquilizante. No espaço de minutos a zoada passou e ela levantou lentamente a cabeça.
- Ainda devo estar viva – pensou, aturdida e pouco convencida.
Rolou sobre o lado direito e conseguiu desembaraçar os braços da mochila. No entanto não conseguia mexer as pernas. Uma imagem terrível atravessou-lhe a mente: E se dentro das botas apenas estivessem pedaços queimados dos seus pés? Ou cinzas?
Arrepiada, reprimiu as lágrimas de medo: Que faço agora?
Gravemente ferida e fora da trilha normal, Mary sabia que morreria, a menos que conseguisse ajuda. As suas hipóteses de sobrevivência, nem que fosse a uma só noite gelada nas montanhas, eram mínimas. Chovia de novo e soprava um vento frio. Apesar do seu estado debilitado, precisava chegar a um caminho onde pudesse passar um guarda florestal ou um lenhador.
Primeiro que tudo, vou precisar de água – raciocinou. Encontrou o cantil e meteu-o no fundo do bolso do blusão. E comida? Decidiu não levar pois sabia que, sem poder usar as pernas, pouco podia transportar.
Mary lembrava-se de que, ladeira abaixo e para sul, havia uma trilha para jipes. Incapaz de se manter de pé, começou a rastejar lentamente sobre o peito, arrastando as pernas inertes e tentando evitar as rochas afiadas. Todavia, em breve teve uma alarmante sensação de frio, e, ao olhar para trás, reparou que raspara com a perna esquerda numa rocha aguçada. Não devia ter esta sensação de frio – pensou. Devia doer. Que me terá acontecido? Primeiro tocou suavemente na perna e em seguida com força. Estava completamente entorpecida.
Decidiu experimentar uma técnica diferente. Pôs as pernas para a frente e deslizou avançando primeiro os pés, de modo a tactear o terreno onde iam passar as pernas inertes. Não tardou a deparar-se com um obstáculo aparentemente intransponível – uma árvore derrubada, com 20 metros de comprimento. Contorná-la demoraria uma eternidade, e o tronco tinha 1 metro de diâmetro. Com as pernas neste estado nunca vou conseguir passar – pensou, desanimada.
Mas, embora hesitasse, parecia que no seu íntimo uma voz a incitava: Não pares, vais ver que consegues! Respirou fundo e ergueu e empurrou os pés em direcção à superfície lateral do tronco. Depois, com as palmas das mãos assentes no chão, tentou erguer-se sobre os pés, arqueando o dorso de modo a impulsionar as pernas e as ancas para a frente, passando por cima do tronco.
Vá lá – encorajou-se a si mesma. Estás quase a conseguir. Soergueu o dorso para diante, agarrando-se com força à casca rugosa. Os músculos do abdómen contraíram-se de dor, mas conseguiu ficar em cima do tronco. Depois deslizou para o lado oposto.
Eram agora 2H da tarde. Só mais um bocadinho – pensou, esforçando-se mais. Tinha as mãos esfoladas e feridas, e os arrepios haviam-se transformado num tremor constante. De súbito veio-lhe à ideia uma recordação da infância: “lá estava ela, com a hipersensibilidade dos seus 12 anos, desfeita em lágrimas, a dizer ao treinador de basquetebol que ia desistir por se ter sentido humilhada com os comentários sarcásticos de uma colega”. Tudo bem, Mary – respondeu-lhe ele, calmamente. Mas, se desistires agora, nunca mais deixarás de te considerar uma falhada.
Mary permaneceu na equipa e jamais esqueceu as palavras do treinador.
Vamos lá, mulher – quase gritou. Toca a andar!
Cem metros adiante avistou uma zona semeada de pedras. Quando se aproximou apercebeu-se de que se tratava de uma estrada de terra. Tentou rastejar mais depressa, receosa de que algum veículo pudesse passar sem a ver. Pareceu-lhe que os últimos 50 mts demoraram anos a percorrer. Não vou conseguir. É muito longe. Contudo, ignorando as dores, continuou a arrastar as pernas para a frente, uma de cada vez.
Quando atingiu a estrada, estava exausta e não conseguia controlar as tremuras. Deixou-se cair ao lado de uma rocha, fechou os olhos, e ergueu o rosto para a chuva fria. Fiz tudo o que podia – pensou. Agora só depende de Deus.
Um pouco mais à frente, Scott Anderson e Gary Long, ambos trabalhadores de uma serração, tinham feito uma batida ao terreno em busca de uma madeira invulgar. Quando a violenta tempestade se desencadeou refugiaram-se na camioneta de Scott, e aí esperaram que ela passasse. Por volta das 3H da tarde regressaram ao local de trabalho. Mas, como o céu voltou a escurecer, guardaram as ferramentas e meteram-se à estrada, de regresso a casa. Gary conduzia uma carrinha e Scott seguia-o ao volante da camioneta.
Ambos se aperceberam da silhueta enlameada e encolhida, debaixo de chuva, à beira da estrada. Gary saltou da carrinha e correu para ela, seguido de perto por Scott. Ajudem-me, por favor – soluçou Mary. Fui atingida por um raio!
Vamos levá-la até à estrada principal – disse Scott. Precisamos de uma ambulância.
Mary estava semiconsciente e gemeu quando eles a estenderam no banco da camioneta .
Enquanto percorriam a estrada esburacada Scott, preocupado, olhava de vez em quando para a rapariga, pálida e a tremer. Não está nada bem – pensou. Tenho de a manter consciente até encontrarmos auxílio. Perguntou-lhe então o nome, de onde era, tudo que a obrigasse a dar uma resposta. Quando ela não respondia Scott insistia, gentilmente: Mary, fale comigo! De cada vez que ela respondia sentia-se aliviado.
A meio do caminho cruzaram-se com um guarda florestal, que pediu ajuda pelo rádio. Poucos minutos depois conduzia-a rapidamente até ao helicóptero que a levaria ao hospital.
Quando, por volta das 5H da tarde Mary chegou ao hospital, a sua temperatura era inferior a 35,5º C, tremia convulsivamente, e tinha a tensão arterial demasiado baixa. Tinha queimaduras nas costas e na extremidade do pé esquerdo, e também queimaduras e contusões nos quadris. Quanto às pernas estavam violáceas e inchadas.
Na sala de traumatismos o Dr. Daniel Turner ficou surpreendido ao saber que Mary rastejara mais de 1,5 Km em terreno montanhoso, para procurar ajuda. Parecia-lhe impossível que ela ainda estivesse viva. Uma simples descarga de um raio pode ter para cima de 100 milhões de vóltios e alcançar uma temperatura de 28.000 º C.
O Dr. Turner deu-lhe uma injecção intravenosa e mandou que a cobrissem com cobertores aquecidos, após o que começou a tratar as queimaduras. O facto de ela permanecer consciente e lúcida era animador, mas quando Mary lhe perguntou se voltaria a andar, não lhe foi fácil responder: Vamos ter de esperar e ver.
Sensacionalmente, nos dias seguintes passados no hospital, a sua circulação sanguínea normalizou-se na parte inferior do corpo, e ela voltou a conseguir mover e sentir as pernas. Escassos cinco dias após a terrível experiência, Mary O’Leary conseguiu pôr-se de pé e caminhar.
É um milagre! – diz o seu médico assistente, o Dr. James Bush. Mas a Mary é uma lutadora.
Embora as cicatrizes das costas, dos quadris e do pé nunca vão permitir que Mary se esqueça da sua experiência penosa, ela não tenciona desistir das caminhadas, e está mais determinada do que nunca a fazer frente aos desafios da vida. Agora tenho muito medo dos raios – confessa ela – mas não posso permitir que o medo me domine. Aprendi que sou muito mais forte do que pensava. Não me dou facilmente por vencida.