Mostrar mensagens com a etiqueta FONTES DE REFLEXÃO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FONTES DE REFLEXÃO. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O ANJO NEGRO

O ANJO NEGRO









Não resisto a partilhar convosco um caso que se passou comigo na última Primavera.
Como gosto muito de andar a pé, e sempre que posso faço caminhadas, fui dar um longo passeio pelo parque que dista cerca de dois quilómetros da minha casa.
A determinada altura do percurso encontrei uns degraus, cerca de 18 ou 20, por onde eu já tinha subido há dois ou três anos. Tinha-me esquecido de que são altíssimos, ou seja, a distância entre um degrau e outro, não deve andar muito longe dos 40 cmts. Nada de muito grave, se houvesse um corrimão para apoio, que não existe, pois esta “escadaria” encontra-se numa zona de árvores e os degraus são de terra batida.
Depois da primeira tentativa vi logo que não conseguiria subir. Para agravar a situação – a minha falta de ar!
(Para quem não sabe… eu sofro de asma que, nos últimos dois anos teve um ENORME agravamento devido a algumas infecções pulmonares que me “atacaram”)
Quando eu olhava, desanimada, para os degraus que tinha à minha frente, pensando que não conseguiria vencer aquele obstáculo e a solução seria voltar para trás, surgiram dois rapazinhos pretos, um mais alto que o outro, que deveriam ter uns 15 a 16 anos.
Perguntaram-me se eu precisava de ajuda. Imediatamente aceitei, agradecendo. O mais baixo segurou a minha mão esquerda e, lentamente, fomos subindo. Vi que notava a minha dificuldade em respirar e por isso achei que devia falar-lhe no meu problema da asma. Parei no degrau em que nos encontrávamos e expliquei-lhe o porquê da minha falta de ar.
Ele ouviu atentamente e depois disse:
- Isso é muito aborrecido, não é?
Eu respondi:
- Sim, às vezes é mesmo muito incómodo. Dificulta a respiração e impede-me de fazer esforços. Como subir estas escadas, por exemplo – concluí, sorrindo.
Ele acrescentou:
- Vamos devagar. Temos muito tempo. Eu não tenho pressa nenhuma.
Eu agradeci com um sorriso.
Continuámos a subir. O conforto daquela pequena mão negra segurando firmemente a minha mão com mais do quádruplo da idade da sua, transmitia-me uma energia boa, aquecia-me o coração.
Chegados ao cimo da “escadaria” ficámos uns momentos em silêncio, especialmente para eu normalizar a respiração.
À despedida não trocámos emails, nem telefones, nem sequer os nomes… Nada!
Ele apenas me olhou com o seu maravilhoso sorriso, um ar ligeiramente interrogativo como que a querer saber se eu já estava bem, e não pronunciou uma palavra.
Eu sorri em agradecimento. Murmurei “Obrigada!”, aproximei-me e depositei um beijo naquela face negra de Anjo disfarçado de rapazinho.
Separámo-nos. Cada um seguiu o seu caminho.
Mas eu JÁ não ia sozinha…



*****
No Natal que se aproxima e em todos os dias do ano meditemos nas palavras do poeta João Coelho dos Santos, no seu poema ENTÃO E EU?


Um santo e feliz Natal para todos

domingo, 18 de setembro de 2011

O TEMPO E O RELÓGIO

Desde tempos imemoriais que o Homem tenta aprisionar o tempo, seja em relógios, seja em ampulhetas ou quaisquer outros engenhos. Contudo, o tempo sempre lhe escapa, e continua, impávido e sereno, o seu destino.
Imagine um encontro entre o Tempo e o Relógio…

Vera Regina Marçallo Gaetani descreve-o assim:

Certa vez o tempo e o relógio se encontraram (embora estejam todo o tempo juntos)
O tempo, revoltado há muito tempo, disse ao relógio tudo aquilo que, há tempos, vinha guardando.
Que ele, tempo, tinha saudades daqueles tempos em que não existiam relógios e todo o mundo tinha tempo.
Mas quando o homem, ingrato, fabricou o relógio que começou a marcar tempo, ninguém mais conseguiu ter tempo.
O homem ficou reduzido a horas, minutos e segundos.


- Antes, naqueles tempos – disse o tempo – todo o homem tinha tempo de curtir a Natureza. Vivia com o sol de dia, dormia com a lua à noite.
Quando a lua, caprichosa, não queria aparecer, era m bando de estrelas que piscavam, brincalhonas, dando tempo para o sol nascer.
Mas agora, nestes tempos, ninguém mais tem tempo de ver se a lua vem sorrindo para a direita ou para a esquerda, se está de cara cheia ou de mau humor, sem querer aparecer.
O tempo prosseguiu, com um sorriso de tristeza:
-Antigamente – que tempos! – os homens nasciam no tempo certo em que tinham que nascer. Não havia incubadora para os fora de tempo, nem cesariana para os que passavam do tempo.
A Natureza sabia, em tempo, quando era tempo.
Hoje, o homem já obedece a você, mesmo antes de nascer.
Os médicos estão apressados e sem tempo para perder.
O relógio só ouvia e, apressado, prosseguia no sei tic-tac, sem tempo de retrucar, com medo de se atrasar.
- Noutros tempos – disse o tempo – o homem crescia sem pressa, com tempo de amadurecer. Comia sem ter horário, dormia quando tinha sono.
Fazia amor ao relento, como flores que se beijam, como aves que se aninham.
Envelhecia aos pouquinhos, como um calmo entardecer. Depois, dormia o sono profundo e, no outro despertar, abraçava-me com carinho, no infinito, no infinito…
O tempo enxugou uma lágrima, talvez de orvalho. A voz, que estava embargada, tomou uma conotação de revolta:
- Hoje, vai logo para a escola, e traz para casa um horário. Quando aprende a ler as horas recebe do pai um relógio, e, assim, ensinam-lhe, bem cedo, a maneira mais correcta de nunca ter tempo na vida.
O tempo não se preocupava mais com o tic-tac do relógio que não retrucava para não se atrasar. Continuou a sofismar com voz mais branda:
- Come apressado, sem tempo. Dorme ainda sem sono, pois, de manhã bem cedinho, você começa a gritar, arrancando-o da cama, quando ainda queria dormir.
Amor? Nem sei se ainda faz… há gente que nem tem tempo. Quando faz é no zás-trás.
Quando vê já envelheceu, sem ver o tempo passar.
Na hora do sono profundo, enterram-no apressados, para a vida continuar. E, no outro despertar, chega tão apatetado que não consegue me achar.
Ao relógio, sem nunca poder parar, só restava se calar.
Além do sentimento de culpa, que passou a carregar, a partir desse tempo, quando bate as doze badaladas no silencia da meia noite, o canto é tão melancólico que até parece chorar.


Vera Regina Marçallo Gaetani nasceu em Curitiba, Paraná.
Em 1956 casou-se e foi morar em Ribeirão Preto, São Paulo, onde reside até hoje.
É membro da ALARP – Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, e pertence à Academia Ribeirãopretana de Letras, Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto e à Academia Feminina de Letras do Paraná e é membro do Centro Paranaense Feminino de Cultura, sendo ainda Conselheira da Sociedade Lítero Musical de Ribeirão Preto, e responsável pela Orquestra Sinfónica de Ribeirão Preto.
Em 1996 participou, pela primeira vez, de um concurso literário nacional, promovido pela Revista Brasília, do Grupo Brasília de Comunicações, obtendo dois prémios: um em conto e outro em poesia. Em 1997 conquistou seu terceiro prêmio, na modalidade "conto", no mesmo certame literário.
Tem diversas obras publicadas.

“Tudo o que fiz, em minha vida, foi por idealismo. Continuarei realizando meus trabalhos, despretensiosamente".
Vera Regina

domingo, 10 de outubro de 2010

SER CRIANÇA HOJE

Quem me conhece sabe que tudo que se relaciona com a criança constitui uma das minhas maiores preocupações.
Confrange-me e revolta-me pensar nos maus-tratos, injustiças e atropelos cometidos contra a criança.
Muito se tem falado e escrito acerca deste tema. Há instituições vocacionadas para a defesa da criança. Contudo, um aspecto que é pouco debatido, e não é menos importante, é o da criança vítima de problemas familiares. São inúmeras as crianças que sofrem na pele as consequências do mau entendimento entre os pais que, não raras vezes, conduz à separação.
Dentro deste contexto hoje vou partilhar convosco a opinião do Pediatra Dr. José Carlos Palha.


SER CRIANÇA HOJE

É impressionante o aumento, nos últimos anos, das crianças da minha consulta, vítimas de problemas familiares.
Na maioria dos casos os pais estão separados e vivem com a mãe; noutros são os avós que "aguentam" a situação. Chego a ter tardes de consulta de uma total monotonia pois as queixas são sobreponíveis e o pano de fundo também.
As mães, numa ansiedade crescente, sem quererem perceber as razões das queixas dos filhos, pedem desesperadamente análises, radiografias e, pasme-se! T.A.C. para as crianças, na esperança de encontrarem uma causa física para a doença do filho ou filha. É tal a insegurança destas mães que chegam a dizer-me que aquele filho não pode estar doente ou muito menos morrer um dia porque ele vai ser a sua única companhia pela vida fora; por isso é nele ou nela que investem tudo, em exclusividade, em termos afectivos!
As crianças, "afogadas" neste proteccionismo "selvagem" e contraditório, sofrendo já com a ausência do pai como figura de referência imprescindível, neste beco sem saída, somatizam toda a ansiedade em apelos constantes para que lhes dêem atenção... quando o que realmente lhes falta é tão simplesmente uma família normal!...

Às vezes, quando as mães me perguntam se não seria melhor pedir uma T.A.C. ao filho ou filha, eu, sinceramente, o que me apetecia responder-lhes, por ironia, era se elas não quereriam antes fazer um exame profundo e doloroso, uma T.A.C., quiçá, à sua própria família...
Ah! Que grande radiografia ou T.A.C. social não são estas minhas consultas diárias!...
Mas que remédios, meu Deus, posso eu ter para, ao menos, minimizar as dores desta terrível doença social?

Ainda hoje uma mulher foi-me trazida pela Assistência Social com um bebé de 5 meses que nunca tinha sido observado, desde o nascimento. Não tinha ainda vacinas, não tomava vitaminas, bebia leite de vaca inteiro, estava sujo e andrajoso...
A mãe, pelo seu lado, não tinha mãe, nem pai, nem família, vivia sozinha e foi "descoberta" assim pelos vizinhos.
Perguntei-lhe, a medo, quem era o pai da criança, respondeu-me que isso não interessava para nada.
Perguntei-lhe, ainda com menos convicção, como tinha contraído em plena gravidez a hepatite B; respondeu-me que toda a gente sabe que a hepatite B se pode apanhar com toda a facilidade quando se está grávida...
Não lhe perguntei mais nada...
Calado, observei a criança.
No meu pensamento milhares de imagens passaram em turbilhão - discursos em praças e em púlpitos, comícios revolucionários e outros menos, guerras reais e das estrelas, festas de pouca e muita caridade, sei lá eu que mais...
Qual destes eventos pôde tocar, alguma vez, esta mulher?
Quem lhe pode devolver a dignidade?...

Neste final de século ter pena das crianças e temer pelo seu futuro é muito pouco... Porque há várias misérias misturadas. Já nada é linear como outrora... Porque hoje é preciso ter sorte para ser criança a vários níveis, não só o da miséria material!... Talvez a miséria moral, a falta de valores na sociedade seja, para a formação das crianças, o mais importante.
Porque hoje em dia é preciso ter sorte, acima de tudo, para viver em amor!...

José Carlos Palha
V. N. Gaia, Portugal

Dr. José Carlos Palha é pediatra e exerce a sua profissão em Vila Nova de Gaia.

Image and video hosting by TinyPic

domingo, 19 de setembro de 2010

NORMOSE

Recebi por email, de um amigo, e como achei muito interessante, vou partilhar convosco.

Entrevista do Professor Hermógenes, 86 anos, sobre uma palavra inventada por ele, que me pareceu muito procedente.
Ele disse que o ser humano está sofrendo de “Normose”, a doença de ser normal.

"Todo o mundo quer se encaixar num padrão, só que o padrão propagado não é exactamente fácil de alcançar.
O sujeito “normal” é magro, belo, alegre, sociável e bem sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema.
Quem não se “normaliza”, quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo.
A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.
A pergunta a ser feita é:
- Quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem.
Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado.
Quem nos exige é uma colectividade abstrata que ganha “presença” através de modelos de comportamento amplamente divulgados.
Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos.
Melhor se preocupar em ser você mesmo.
A “Normose” não é brincadeira.
Ela estimula a inveja, a auto depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa.
- Você precisa de quantos pares de sapatos?
- Comparecer em quantas festas por mês?
- Pesar quantos quilos até o verão chegar?
- Frequentar terapeuta para bater papo?
Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias.
Um pouco de auto estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante.
O “normal” de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.
É fraude.
E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais, e para viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros “normais” porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações.
Se parecem sofrer é porque estão sofrendo.
E se estão sorrindo é porque a alma lhes é iluminada.
Por isso divulgo o alerta: a “Normose” está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
Ser feliz é ser você mesmo, sofrendo ou sorrindo, pois esta vida é passageira e o importante é ter emoções claras e definidas".

Professor Hermógenes

José Hermógenes de Andrade Filho, nascido em Natal, Brasil, a 9 de Março de 1921,mais conhecido como Prof. Hermógenes, é um escritor, professor e divulgador brasileiro de hatha ioga.*

*(O hata-ioga (Hatha Yoga) é uma forma de ioga pré-clássico).

O Professor Hermógenes , foi o pioneiro em Medicina Holística no Brasil. Dedica-se ao crescimento espiritual dos seres humanos.

É doutorado em Yogaterapia pelo World Development Parliament da Índia e é Doutor Honoris Causa pela Open University for Complementary Medicine.
Escolhido o Cidadão da Paz do Rio de Janeiro, em 1988, o Professor Hermógenes recebeu a Medalha Tiradente em 8 de maio de 2000.

domingo, 1 de agosto de 2010

QUATRO MESES

Outro dia foi o aniversário da partida de uma senhora por muitos conhecida e muito querida.
Algum tempo antes, chegando de uma das dezenas de consultas médicas que já fizera, ela disse aos familiares:
- Pedi franqueza à junta médica que me examinou, pedi-lhes que não me poupassem de saber a verdade sobre meu estado de saúde.
Eu sinto que me resta pouco tempo.

Diante dos olhares ansiosos, ela continuou:
- Eles me revelaram que sou portadora de uma moléstia incurável e que minha previsão de vida é de aproximadamente 4 meses.
- E a senhora nos conta isso com essa naturalidade ? - perguntou uma das filhas, em prantos.
Continuou a senhora, com muita serenidade:
- Ora, eu tenho um bom tempo para fazer tudo que já devia ter feito há muito:
- Arrumarei todos os meus armários, guardarei o que realmente uso e o resto jogarei fora ou doarei a quem precisa.
- Colocarei belas cortinas em todas as janelas e elas me impedirão de ficar olhando a vida alheia.
- Todos os dias tirarei o pó da casa e, durante esse trabalho, pensarei: - Estou me livrando das sujeiras que guardei do passado
- Evitarei ouvir e assistir a más notícias e alimentarei o meu espírito com leituras saudáveis, conversas amigáveis, dispensarei fofocas e não criticarei a mais ninguém.
- Pensarei naqueles que já me magoaram e, com sinceridade, os perdoarei.
- Todas as noites agradecerei a Deus por tudo que estarei conseguindo fazer nestes últimos 4 meses que me restam.
- Todas as manhãs, ao acordar, perguntarei a mim mesma: - O que posso fazer para tornar o dia de hoje um dia melhor?
- E farei de tudo para transmitir felicidade àqueles que de mim se aproximarem.
- E a cada dia que passar farei pelo menos uma boa ação.

Quatro meses são mais de 120 dias, portanto, quando eu fechar os olhos para nunca mais abri-los, eu terei feito no mínimo 120 boas ações.

Todos que a ouviam, pouco a pouco se retiraram dali, indo cada um para um canto, para chorar sozinho.
A mulher ali ficou e nos seus olhos havia um brilho de alegria.
Pensava consigo mesma:
- " não posso curar meu corpo, mas posso mudar a vida que me resta "
Ela tinha uma grande tarefa: transformar seu mundo interior, tornar-se uma pessoa totalmente diferente do que já fora. Em apenas 4 meses ela conseguiu cumpri-la plenamente.
O mais curioso dessa história é que, após a notícia dada aos familiares, ela viveu mais 23 anos.
Ela curou a sua própria alma e sua moléstia desapareceu; ela morreu de velhice.

Silvia Schmidt


Silvia Schmidt é conhecida na Internet pelo nickname "Humancat". Natural de São Paulo, Capital, é professora de Português, Inglês e Literatura. É formada pela Universidade de São Paulo.
Com centenas de mensagens em PPS e páginas na internet, Silvia é, sem dúvida, uma das poetisas brasileiras contemporâneas mais lidas do mundo virtual.

domingo, 21 de março de 2010

DESISTA VOCÊ TAMBÉM

Para tudo, na vida, há um tempo certo: nem antes, nem depois.

Do mesmo modo que há um tempo certo para lutar e outro para recuar, também existem coisas pelas quais é imperioso lutar e outras que mais vale ignorar e delas desistir.
Veja o que, a este respeito, pensa Thais Cadorim

EU DESISTO...
por Thais Cadorim

“É isso mesmo, entreguei os pontos, não dá mais, acabou.”
Essa frase soa com tanta força, não é?
Mas é verdade, eu desisti mesmo.
De um monte de coisas.

Desisti de reclamar de quem não quer aprender. Decidi me concentrar em quem quer...
E se você olhar bem direitinho, perto de você tem um monte de gente sedenta de conhecimento.


Desisti de tentar emagrecer para ser igual a todo mundo.
Resolvi ter o peso que eu devo ter, por uma questão de saúde, por uma questão de bem estar.
Só isso

Desisti de tentar fazer com que as pessoas pensem do jeito que eu gostaria que elas pensassem.
Achei melhor buscar respeitar o outro do jeito que ele é.
Imagina se o mundo fosse feito de milhões de pessoas iguais a mim...
Ah, isso ia ser um tormento.

Desisti de procurar um emprego perfeito e apaixonante.
Achei que estava na hora de me apaixonar pelo meu trabalho e fazer dele o acontecimento mais incrível da minha vida, enquanto ele durar.

Desisti de procurar defeito nas pessoas.
Achei que estava na hora de colocar um filtro e só ver o que as pessoas têm de melhor.
Defeito todo mundo acha, quero ver achar qualidades em quem parece não tê-las…

Desisti de ter o celular mais “psico-tecno-cibernético” do mercado. Agora eu só quero um telefone pra falar.
É muito frustrante comprar o mais novo modelo e dias depois ver que ele já foi superado. É pra isso que a indústria trabalha.
Aproveitei o gancho e apliquei o conceito também a outros produtos: relógio, computador, máquina fotográfica, carro.

Desisti de impor minha opinião sobre tudo.
Decidi que de agora em diante vou ouvir todas as opiniões, mesmo as contrárias, e vou tentar tirar proveito de cada uma delas.
É mais barato compartilhar as opiniões do que brigar pra manter só uma.

Desisti de ter tanta pressa. Tudo na vida tem seu tempo, e se não acontecer, não era pra acontecer.
Não quer dizer que eu vou “deixar a vida me levar” e parar de correr atrás do que eu acredito, mas não vou me desesperar se eu perder o vôo.
Sei lá o que vai acontecer com o avião...

Desisti de correr da chuva.
Tem coisa mais bacana que tomar banho de chuva?
Há quanto tempo você não sente aquele cheiro de terra molhada?
E se o resfriado chegar, qual o problema? Não vai ser o primeiro nem o último.

Image and video hosting by TinyPic

Desisti de estudar por obrigação. Agora eu faço da leitura um momento de prazer...
Cadeira confortável, pezão pra cima, um chocolate quente, minha gata ronronando do lado.
Os livros agora ficaram menores e mais fáceis, mesmo que seja a CLT ou a NBR 9004.

Desisti de buscar uma planilha de indicadores toda verdinha.
Os índices são assim mesmo, às vezes melhoram, às vezes pioram. Isso é o mundo real.
Eu não vou deixar de fazer a gestão sobre eles, mas decidi que não vou mais sofrer por isso.
Bons ou ruins eles devem gerar aprendizado e isso é o mais importante.

Desisti de trabalhar para fazer o meu sistema da qualidade ser perfeito.
Eu prefiro mantê-lo sob controle, funcionando, ajudando as pessoas, ajudando os processos, dando resultados, mesmo que aos poucos.
Com essa filosofia eu ganhei um monte de parceiros, ao invés de cultivar inimigos.
Se eu fosse você, desistia também...

Tem um monte de coisas que você faz, carrega e sente, que não precisa.

Pense nisso!!!

Thais Cadorim


quinta-feira, 9 de julho de 2009

PRECE SOLITÁRIA

Venho, através desta prece solitária, pedir, do fundo do coração, que o mundo, de forma humanitária, possa encontrar uma espécie de união.

Rogo aos ventos e aos mares, imploro às matas e às florestas…

Peço aos animais e aos ares que o mundo amanheça em festa.

Escuta esta prece de quem te venera, oh Natureza Divina!

Ensina aos homens o valor da vida, oh Natureza Rainha!

Usa a força de teus sagrados raios e chuvas…

Alegra os céus com teus pássaros e cores…

Perfuma o mundo com as tuas flores….oh Natureza infinita!

Mostra ao Homem que a vida é sublime, que cada dia é único, que para ser feliz basta estar vivo.
E que o tempo passa levando com ele sonhos, amores e desarmonias.

Oh Natureza em cores! renova nos Homens a esperança de novos sonhos e a fé de um novo amor.

Oh Natureza! ensina também que a certeza de uma nova vida se faz evidente, presente a cada início de um novo dia.

E que o mundo acorde em paz.


Ângela Bretas
Do livro “Conversando som as Estrelas”


Ângela Bretas



Natural de Santa Catarina, no Brasil, Ângela Bretas desde muito jovem gostou de escrever, especialmente poemas e contos.
Estudante num rigoroso colégio de freiras, recebeu inúmeros certificados por suas composições, estando sempre entre as primeiras alunas do colégio.
Mudou-se para os Estados Unidos em 1985, tendo cursado língua inglesa no Lynn Community College, em Massachussetts.
Actualmente reside na Florida, trabalhando como colunista e cronista em diversos jornais brasileiros e americanos, actuando como free-lance.
Tem vários livros publicados, sendo do livro em verso e em prosa “CONVERSANDO COM AS ESTRELAS” a ‘Prece’ que apresento acima.

domingo, 19 de abril de 2009

Faxina na Alma

Aproveitando os últimos perfumes da Páscoa que ainda se sentem no ar, convido-vos a apreciar este belo texto de Carlos Drummond de Andrade, que nos fala de Recomeço, Renovação, Reinício…

Faxina na Alma

Não importa onde você parou, em que momento da vida você cansou. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo, é renovar as esperanças na vida e o mais importante, acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período? Foi aprendizado.
Chorou muito? Foi limpeza da alma.
Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia.
Sentiu-se só por diversas vezes? É porque fechou a porta até para os anjos.
Acreditou que tudo estava perdido? Era o início de sua melhora.
Pois é... agora é hora de reiniciar, de pensar na luz, de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Um corte de cabelo arrojado, diferente?
Um novo curso, ou aquele velho desejo de aprender:
pintar, desenhar, dominar o computador, ou qualquer outra coisa.
Olha quanto desafio, quanta coisa nova, nesse mundão de meu Deus te esperando.

Está se sentindo sozinho? Besteira...
Tem tanta gente que você afastou com o seu "período de isolamento".
Tem tanta gente esperando, apenas um sorriso teu, para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza, nem nós mesmos nos suportamos; ficamos horríveis, o mal humor vai comendo nosso fígado, até a boca fica amarga.
Recomeçar...
Hoje é um bom dia para começar novos desafios. Onde você quer chegar? Ir alto, sonhe alto. Queira o melhor do melhor. Queira coisas boas para a vida.
Pensando assim trazemos para nós, aquilo que desejamos...

Se pensamos pequeno, coisas pequenas teremos.
Já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da faxina mental. Joga fora tudo que te prende ao assado, ao mundinho de coisas tristes: fotos, peças de roupa, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens, e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados... Jogue tudo fora.
Mas principalmente, esvazie seu coração, fique pronto para a vida, para um novo amor!
Lembre-se somos apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o "Amor"...

Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.

Carlos Drummond de Andrade

Itabira do Mato Dentro [Itabira] MG
1902/10/31 - 1987/08/17

domingo, 15 de março de 2009

UMA GRANDE MULHER

Há uma semana atrás festejou-se o Dia Internacional da Mulher.
Houve trocas de emails entre amigas e amigos, toda(o)s a(o)s bloguistas publicaram posts alusivos à efeméride, todos parabenizaram a Mulher.

Quem se debruçou ou apenas referiu as conquistas da Mulher que, ao longo de vários anos lutou pelos seus direitos, não esqueceu a preciosa ajuda e participação do Homem nessas mesmas lutas.

Estamos, assim, todos de acordo em que muitos homens foram e são a favor da igualdade Homem/Mulher.
Mas…ainda há muitos que o não são.
Não vou aqui, por agora, debruçar-me sobre este tema. Não faltarão oportunidades para o desenvolvermos.
Mas…não resisto a partilhar convosco este texto que recebi, sem indicação de autoria, e que considero como uma adenda à celebração do Dia Internacional da Mulher.



Thomas Weller, alto executivo de uma multinacional, viajava com sua mulher por uma estrada interestadual, quando notou que o carro estava com pouca gasolina.

Parou num posto muito simples, com apenas uma bomba de combustível.
Pediu ao único atendente que enchesse o tanque e verificasse o óleo, enquanto ele dava uma volta para esticar as pernas.

Voltando ao carro percebeu que sua mulher e o frentista estavam num papo animado.
A conversa parou enquanto Weller pagava a conta da gasolina.

Mas, ao retornar ao carro, ele viu o rapaz acenar e dizer:
- Foi óptimo falar com você!

Ao sair do posto o marido perguntou à mulher se ela conhecia o atendente.
Imediatamente ela admitiu que sim. Tinham frequentado a mesma escola e ela o namorara por cerca de um ano.

- Puxa! Você teve sorte em eu ter aparecido – vangloriou-se Weller.
Se tivesse casado com ele, seria agora a esposa de um frentista de posto de gasolina, em vez de ser esposa de um alto executivo.

- Meu querido – respondeu a mulher. Se eu tivesse me casado com ele, ele seria o alto executivo, e você o frentista do posto de gasolina.


“Atrás de todo o homem, existe uma grande mulher…exausta!”

domingo, 8 de fevereiro de 2009

MUSEU DA FAMÍLIA

Alexa Guerra

Alexa Guerra, escritora e palestrante, graduada em Pedagogia e Teologia, diz de si própria:
Sou esposa e mãe. Tenho-me dedicado, há mais de 10 anos, à compreensão da educação e das relações familiares.

É de sua autoria o texto que hoje vos apresento.

MUSEU DA FAMÍLIA

Bem vindo ao museu da família!

Aqui você irá ver e saber acerca deste grupo que está à beira da extinção.

Em meados do século XXI foram vistas as últimas famílias compostas por PAI, MAE E FILHOS.

Um pouco antes desse período, quase não se via uma mãe ou um pai em casa cuidando dos filhos, do lar e da família. Eles foram trabalhar fora.

Já no século XIX, era costume o pai ser recebido pelos filhos em casa, após um dia de trabalho. Ele era o provedor do LAR.

Naquela época as crianças tinham um pai que morava com elas.
Este pai convivia com os filhos e passeava com eles nos fins-de-semana.

Nas apresentações da escola os filhos procuravam o olhar de seus maiores fãs: seus pais. E o aplauso deles era a garantia da felicidade!

Quando os filhos precisavam de colo tinham um de seus pais por perto para carregá-los à hora que quisessem.

No dia das mães se reuniam na casa da avó e a cama se enchia de presentes dos filhos, dos netos…

Era difícil esperar até o segundo domingo de agosto para entregar ao papai o presente feito pelos próprios filhos: A camisa com sua mãozinha, o quadro pintado, o cartão com moldura de gravata...

A melhor comida era a da mamãe.
Era o papai quem ganhava no jogo de dama ou de bola.

Quantas brincadeiras correndo, soltas, com os irmãos e primos!
Esconde-esconde, casinha, queimada…

Os brinquedos espalhados pela casa...
Os risos, os choros.. Fartura de “vida”.
Casa cheia não só de gente, mas de amor e contentamento.


Nas famílias havia coisas que não cabem neste museu: abraços, beijos, alegrias, choros, risos, personalidades, cachorros, papagaios…

Os JARDINS!
Eles não poderiam faltar neste museu!

As casas tinham jardins.
Deles as avós retiravam plantas para enfeitar ou para fazer chazinhos caseiros para os filhos e netos.

Férias também se passavam em família.
Na roça, na praia ou na casa dos parentes: estavam todos num feliz ajuntamento.
Para eles estar em família era o que fazia a vida valer a pena!
Como foi o fim das famílias?
... Bem, é uma longa história…
Mas, lembre-se que, se você os deixar ir, talvez nunca mais os terá de volta.
Às vezes, nos ocupamos tanto com nossas próprias vidas, que não notamos que os deixamos ir …
Outras vezes nos preocupamos tanto com QUEM está certo ou errado, que nos esquecemos do que é CERTO e do que é ERRADO.
Foi assim que as famílias começaram a desaparecer…
Mas hoje temos este museu para visitá-las.

Certa vez alguém falou sobre um ciclo de morte que estava se instalando nas famílias. E leu na Bíblia como seria a cura:

 SALMOS 128.1-6:
"Feliz aquele que teme a Deus, o SENHOR, e vive de acordo com a sua vontade!”

Mas parece que não deram atenção suficiente... E as famílias foram se extinguindo...


Nossa visita ao museu termina aqui, com o livro que falou sobre estes acontecimentos.


domingo, 1 de fevereiro de 2009

OFICIALMENTE VELHO

Leonardo Boff



Em 09/11/2008 publiquei, RESSONÂNCIA ACHUMANN , de Leonardo Boff, um texto que considerei muito interessante.

Hoje vou partilhar convosco, do mesmo autor, “Oficialmente Velho”, que recebi por email, em forma de PPS.

Espero que seja do vosso agrado.

Oficialmente Velho

Neste mês de dezembro completo 70 anos.
Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho.
Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas.

De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.
Mas há um outro lado, mais instigante.
A velhice é a última etapa do crescimento humano.
Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese.

Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer.
Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: ”na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenece o homem interior”(2Cor 4,16).
A velhice é uma exigência do homem interior.
Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical.
Esta identidade devemos encará-la face a face.
Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis.
Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao “silêncio obsequioso” e outros papéis mais.
Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha.

Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos:
- Afinal, quem sou eu?
- Que sonhos me movem?
- Que anjos que habitam?
- Que demônios me atormentam?
- Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério?

Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações, vem a lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.
Este é o desafio para a etapa da velhice.
Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina.
Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida.
Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria.
É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.
Por fim, importa preparar o grande Encontro.
A vida não é estruturada para terminar na morte mas para se transfigurar através da morte.
Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia.
Ai saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.

Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: ”contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade”.
Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião:
- o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue;
- e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa:”eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver”.
Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo:
- mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.


Leonardo Boff
(Teólogo brasileiro)
14/12/1938, Concórdia (SC)

Neto de italianos que migraram para o sul do Brasil no final do século 19, Leonardo Boff, garoto ainda, com 11 anos, partiu de sua cidade natal, Concórdia, com destino ao seminário de Luzerna, no Vale do Rio do Peixe (SC), certo de que o seu futuro era o da fé. Fez estudos avançados em universidades de prestígio, como Wurzurburg, Lovaina e Oxford, doutorando-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique, Alemanha, em 1970. Ficou conhecido pelos seus trabalhos sobre a Teoria da Libertação
Seus textos serviram de base para novas gerações de teólogos latino-americanos. Mas ao combinar a Bíblia com a política, desagradou às autoridades eclesiásticas. Em 1984, como punição pelo livro Igreja, Carisma e Poder (1981), no qual chega a criticar a própria estrutura da Igreja, foi chamado a dar explicações ao Vaticano, sendo condenado a um "silêncio obsequioso" por um ano, sendo proibido de se manifestar publicamente
Em 1992, ao ser condenado novamente, o teólogo, resolveu pedir dispensa do sacerdócio.
Atualmente, além de um grande teórico da fé, destaca-se como um idealista: cria e assessora Comunidades Eclesiais de Base, para as quais prega a luta por uma sociedade mais justa e humana, na qual os pobres não devem simplesmente aceitar a condição de miséria como algo natural, mas agir em favor da justiça social. Professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, publicou mais de 70 livros.

domingo, 14 de dezembro de 2008

ORAÇÃO DO PAI

Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,

Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,

Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,

Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,

Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dissemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,

Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,

E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,

Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,

Amemos.

Frei Beto - JF 11/12/08


Filho de um jornalista e uma escritora, Carlos Alberto Libânio Christo nasceu em Belo Horizonte, a 25 de Agosto de 1944.
Conhecido por Frei Beto, é um religioso dominicano, teólogo e escritor.
Esteve preso por duas vezes durante a ditadura militar, entre 1964 e 1973.
A sua experiência na prisão está descrita no livro «Batismo de sangue», traduzido para francês e italiano
Professou na Ordem Dominicana, em 10 de Fevereiro de 1966, em São Paulo.
Adepto da Teologia da Libertação, é militante de movimentos pastorais e sociais

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

TOMAR DECISÕES DIFÍCEIS, PORÉM, CORRECTAS

Há poucos dias recebi um email com um texto deveras perturbador.
Na realidade trata-se dum desafio para um exercício que obriga a uma grande reflexão.
É esse mesmo desafio que vos lanço aqui. Reflictam, e respondam com toda a honestidade de que forem capazes.

Eu vinha procurando uma mensagem que envolvesse não somente a você, mas que ,com ela, você pudesse envolver as pessoas do seu relacionamento, num exercício ou num debate. E aqui está: é um exercício poderoso, que se você quiser poderá envolver todas as pessoas das suas organizações, familiar e profissional, para realizá-lo, ou apenas para debater.

O mundo em que estamos vivendo a cada dia nos coloca dia
nte de situações em que precisamos tomar decisões difíceis, porém, correctas, e não há outra maneira, não dá tempo de fugir delas, até mesmo porque, se fugirmos de tomar as decisões difíceis, já estamos tomando uma decisão errada, o que é muito pior.

E você é bom a tomar decisões?

Se a sua resposta for sim, óptimo. O mundo precisa de pessoas como você.

Então, faça esta mesma pergunta para as pessoas com q
uem você se relaciona:
- Você é bom em tomar decisões?
Certamente as respostas serão as mais variadas possíveis.


Então pode ser que você precise despertar nestas pessoas a mesma coragem e determinação que você tem para tomar as suas decisões, ou seja, talvez algumas pessoas de suas organizações familiar ou profissional precisem de coragem e determinação para tomar decisões difíceis, porém, correctas.
E se você
quer encorajar estas pessoas a se determinarem, aqui está uma óptima oportunidade que irá contribuir com a sua transformação e a das pessoas com quem você se relaciona.

O Exercício

Um grupo de adolescentes brinca próximo a duas vias-férreas. Uma das vias está desativada e a outra ainda em operação.

Apenas um adolescente brinca na via desativada, enquanto que os outros brincam na via em operação. O trem de passageiros está vindo, e você está em frente daquele aparelho que, quando accionado manualmente, muda o trem de uma linha para outra; e a decisão é só sua, a sua mente irá accionar as suas mãos ou não.

Você pode mudar o percurso do trem para a pista desativada e salvar a vida da maioria dos adolescentes; porém, com essa tomada de decisão, o adolescente que está brincando na via desativada irá morrer.
Então, o que você faria? Accionaria o aparelho, que muda o trem de uma linha para outra, desviando-o para a via desativada e, assim, apenas um adolescente morreria ou você deixaria o trem seguir pela via em operação e a maioria dos adolescentes morreria?

Certamente, neste momento, você deve estar se lembrando que, em muitas situações na sua vida, este exercício se encaixaria perfeitamente.
Mas agora entre em acção, e antes de continuar lendo, por um ou dois minutos... Pense... Reflicta... Anote a sua tomada de decisão e o porquê desta tomada de decisão.


Independentemente da sua tomada de decisão, vamos fazer uma profunda reflexão.

A maioria das pessoas iria escolher desviar o trem e sacrificar a vida de um só adolescente.

Acredito que você pode ter pensado da mesma forma: salvar a vida da maioria dos adolescentes à custa da vida de um só adolescente.
Esta é a decisão mais racional e que a maioria das pessoas, moralmente e emotivamente, tomaria.
Mas você pensou que o adolescente que escolheu brincar na via desativada foi o único que tomou a decisão correcta e foi brincar num lugar seguro?
Então, por que ele tem que morrer por causa de seus amigos irresponsáveis que escolheram brincar onde estava o perigo?


Este tipo de dilema, de situação, acontece ao nosso redor todos os dias, na empresa, na família e na nossa sociedade como um todo e, incrivelmente, a verdade é que a minoria, frequentemente, é sacrificada pelo interesse da maioria, não importa quão tola, ignorante ou irresponsável seja a maioria, e nem a visão positiva de futuro e o conhecimento da minoria.

Além do mais, se a via férrea havia sido desativada, provavelmente foi por não ser segura, e se você, na tentativa de salvar a vida de alguns adolescentes inconsequentes, sacrificando apenas a vida de um adolescente, desviou o trem do percurso que ele deveria fazer, colocou em risco ou sacrificou a vida de centenas de pessoas: os passageiros do trem!


Se você está passando por um momento em que necessita tomar decisões difíceis, porém, correctas, lembre-se de dois detalhes muito importantes: 1º O que é correcto nem sempre é popular e o que é popular nem sempre é correcto. 2º As tomadas de decisões apressadas, na grande maioria das vezes, não o levam ao lugar certo.

Obs. O autor do texto original é Rui Barbosa.
Carlos Pozzobon introduziu alterações.

Rui Barbosa, falecido em 1923, dispensa apresentações. Direi apenas que foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro.
Carlos Pozzobon é um estimulador de potencialidades das pessoas, um profissional experiente na arte de despertar e treinar o campeão e o líder que existe em cada um de nós.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CONSERTANDO O MUNDO

Há dias recebi, por email, uma frase digna de reflexão.
Dizia o seguinte:

“Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos, e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores (educados, compassivos, responsáveis) para o nosso planeta”
Autor desconhecido

Uma frase aparentemente muito simples, mas com um sentido muito profundo.
Na realidade por todo o mundo se vêm, constantemente, apelos à preservação da Natureza.
Do mesmo modo é frequente ler, após exposição de agressões (e são tantas!) que se fazem ao planeta, a título de comentário – “ que mundo deixaremos para os nossos filhos?”



Considero perfeitamente justa esta preocupação, que é, mais ou menos, generalizada.
No entanto, parece-me não menos justa a chamada de atenção contida na frase acima – “deixarmos filhos melhores para o nosso planeta”.

Se pensarmos, não na herança que deixaremos aos nossos filhos, mas na herança que deixaremos ao nosso planeta, concluiremos que as medidas a adoptar devem ser diferentes daquelas que sempre têm sido defendidas.

Para melhorar o planeta há que começar por melhorar o homem.

Isto é tão simples que até uma criança de sete anos o consegue entender. Ora veja:

Um cientista, muito preocupado com os problemas do mundo, passava os dias no seu laboratório, tentando encontrar meios para minorá-los.
Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário, decidido a ajudá-lo.
O cientista, nervoso com a interrupção, tentou fazer o filho brincar noutro lugar. Vendo que seria impossível removê-lo, procurou algo que pudesse distrair a criança.
De repente deparou-se com o mapa do mundo, feito em puzzle. Estava ali o que procurava. Desfez o mapa em várias peças e entregou-as ao filho, dizendo:

- Tu gostas de quebra-cabeças? Então vou te dar o mundo para consertar. Aqui está ele todo desarrumado. Vê se consegues consertá-lo bem direitinho. Mas faz tudo sozinho.

Pelos seus cálculos a criança demoraria alguns dias para recompor o mapa.
Passadas algumas horas ouviu o filho chamando-o calmamente.
A princípio o pai não deu grande crédito às palavras do filho. Seria impossível, na sua idade, conseguir recompor um mapa daquele tipo, em tão pouco tempo.
Relutante, o cientista levantou os olhos da
s suas anotações, certo de que iria ver um trabalho digno de uma criança.
Para sua surpresa o mapa estava completo. Todas as peças tinham sido colocadas nos devidos lugares.
Como era possível? Como é que o menino tinha sido capaz???

- Tu não sabias como era o mundo, meu filho. Como conseguiste?

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando tu pegaste o mapa para o desfazer, eu vi que, do outro lado, havia a figura de um homem.
Quando me deste o mundo para consertar, eu tentei, mas não consegui.
Foi aí que eu me lembrei do homem.
Virei as peças e comecei a consertar o homem, que eu sabia como era.

Quando consegui consertar o homem, virei o quadro e vi que tinha consertado o mundo.
AD