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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE REIS


Hoje, dia 6 de Janeiro, é DIA DE REIS, o dia em que se comemora a chegada dos Reis Magos ao Presépio, que ali foram para adorar o Menino, levando-Lhe, como oferendas, ouro, incenso e mirra – assim reza a História. 
 É neste dia que, “oficialmente” se encerram os festejos natalícios. 
À laia de despedida… (das Festas Natalícias) partilho convosco este “presente” que me foi enviado por um querido amigo brasileiro. 
Espero que gostem tanto como eu apreciei. 
 Um feliz 2017 para todos.

EU NÃO GOSTO DE VOCÊ PAPAI NOEL
 Não gosto de você Papai Noel! 
 Também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia. Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humildade jogavam pedras nessa fantasia. 
Você talvez nem se recorde mais! 
Cresci depressa e me tornei rapaz, sem esquecer no entanto o que passou... 
 Fiz um bilhete pedindo um presente, e a noite inteira eu esperei contente... 
 Chegou o sol, e você não chegou. 
 Dias depois meu pobre pai, cansado, trouxe um trenzinho velho, enferrujado, que me entregou com certa hesitação. Fechou os olhos e balbuciou: 
- É pra você. Papai Noel mandou! - E se esquivou, contendo a emoção. 
 Alegre e inocente nesse caso, eu pensei que meu bilhete, com atraso, chegara em suas mãos no fim do mês. 
 Limpei o trem, dei corda, ele partiu, deu muitas voltas... E meu pai sorriu e me abraçou pela última vez.  
O resto só eu pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a medo: 
- Onde é que está aquele seu brinquedo? Eu vou trocar por outro na cidade. 
 Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar. E como quem não quer abandonar um mimo, que lhe deu quem me quer bem, eu disse medroso: 
 -Ah, eu só queria ele! Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele, e por favor não vá levar meu trem. 
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que, eu ainda creio, tão puro e santo só Jesus chorou. 
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou, ele não deu ouvidos, saiu correndo e nunca mais voltou... 
Você! Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos. Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre para riqueza do menino pobre, que sonha o ano inteiro com o Natal! 
 Meu pobre pai, doente, mal vestido, pra não me ver assim desiludido, comprou por qualquer preço uma ilusão... 
 Num gesto nobre, humano, decisivo, foi longe pra trazer-me lenitivo, roubando o trem do filho do patrão! 
 Pensei que viajara. No entanto, depois de grande, minha mãe, em pranto, contou que fora preso. 
 E, como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia. 
 Foi definhando até que Deus, um dia, entrou na cela e o libertou pro céu. 
(ALDEMAR PAIVA) 

 Aldemar Buarque de Paiva (Maceió, 20 de Julho de 1925- Recife, 04 de Novembro de 2014) foi um poeta, cordelista, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário brasileiro.
Foi o fundador da Rádio Difusora de Alagoas.
 Oficial do Exército, foi transferido para o Recife, actuando inicialmente na Rádio Clube de Pernambuco, em substituição a Chico Anísio como produtor, apresentador e director artístico.

Informação: Wiquipédia

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

DIA DE NATAL

PARA OUVIR CLIC SOBRE A IMAGEM



Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
De falar e de ouvir com mavioso tom,
De abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
De lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
De perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
De meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
Como se de anjos fosse,
Numa toada doce,
De violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
A voz do locutor
Anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
E as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta - em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziantes,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
E fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
Com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
Cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
As belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
Ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
Como se o Céu olhasse para nós… e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
E compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
A sua comoção é tanta, tanta, tanta,
Que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
Na noite incerta
Para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
Salta da cama,
Corre à cozinha em pijama.
Ah!!!!!!

Na branda macieza
Da matutina luz
Aguarda-o a surpresa
Do Menino Jesus.

Jesus,
O doce Jesus,
O mesmo que nasceu na manjedoura,
Veio pôr no sapatinho
Do Pedrinho
Uma metralhadora.

Que alegria
Reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
Fuzilava tudo com devastadoras rajadas
E obrigava as criadas
A caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
Fingiam
Que caíam
Crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,


Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
De Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, in 'Antologia Poética'

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

CONTO DE NATAL DO FUTURO


NATAL DE 2085
O calendário indica-nos que o ano de 2085 estás prestes a terminar.

Embora cada um deles pudesse, individualmente, ver o seu canal preferido, controlável por ondas cerebrais captadas nos auscultadores, bisavô e bisneto estavam, naquele momento, assistindo ao mesmo programa, no mesmo écran.
A sala é muito agradável, com todos os requisitos modernos, desde carpetes com auto-limpeza, o que lhes permite terem sempre os tapetes impecavelmente limpos, até à lareira que esfria ao toque, o que evita acidentes indesejáveis, como queimaduras.
Os sofás de módulos facilitam a sua arrumação e permitem-lhes estar lado a lado, como agora, ou afastados, se assim o desejarem, como, por exemplo, quando estão a ver programas diferentes.
Quando o programa terminou, Ícaro, o bisneto, disse para o bisavô, Marco:
- Então, Bi, este ano não vais ver os festejos da reserva? Olha que hoje é dia 24 de
  Dezembro…
- E e eu podia lá faltar, meu querido? É o único evento a que nunca dexei de assistir
  desde a sua   inauguração e ao qual tenciono não faltar enquanto tiver forças para me
  deslocar.
  E tu, Ícaro, queres acompanhar-me?
- Claro que sim, Bi. Eu também nunca deixei de ir desde que me levaste lá a primeira
  vez…
- Então vai-te preparar porque temos que nos pôr a caminho. Olha, e não te esqueças
  de avisar a tua prima, a Ísis, porque ela disse-me que também queria ir…
- Ok, Bi. Vou já dizer-lhe para preparar a mochila e, claro, “não esquecer os abafos
  porque à noite arrefece” – acrescentou, brincalhão, imitando a voz do bisavô.
Apesar dos seus cento e cinco anos a memória de Marco continua perfeita, embora de vez em quando vá tendo alguns esquecimentos – “onde terei posto os óculos? “, “o que vinha aqui fazer?”, “será que já tomei os medicamentos” e coisas deste género. Mas recorda muito bem o que se passou quando era jovem, e todas as transformações que a Natureza foi sofrendo ao longo dos anos.
Quando tinha 30/31 anos, recorda ele, o planeta começou a aquecer desmesuradamente. Lembra-se bem das notícias que ouvia de que, nos últimos 17 ou 18 meses, não podia precisar, tinham sido batidos, todos os meses, os recordes máximos de temperatura média global.
As alterações climatéricas continuaram a ocorrer a um ritmo assustador, mas não foram tomadas medidas eficazes para evitar uma catástrofe.
Cimeiras e acordos realizados resultaram em fracassos sucessivos, pois os países desrespeitavam todas as decisões aí tomadas, contribuindo para o aumento consecutivo da poluição atmosférica.
As guerras infindáveis tinham contribuído também, em grande parte, para a desertificação do Planeta.
A falta de políticas ambientais levou a que o Planeta Terra se tornasse no lugar inóspito e quase sem vida que Marco, com desgosto, descortinava para além das largas janelas da sua sala.
No jardim do condomínio onde vivem há relva artificial fazendo desenhos exóticos, perfeitamente simétricos.
Vêem-se alguns vasos com plantas naturais que, diariamente,  são mudados, trocados por outros mantidos em estufas, já que a poluição atmosférica é tão elevada que não permite que as delicadas plantas verdadeiras possam ficar expostas ao ar por mais de vinte e quatro horas.
É também em estufas que são criados os poucos alimentos naturais a que só os mais favorecidos têm acesso. A restante população alimenta-se de produtos sintéticos, produzidos  em laboratórios.
Enquanto espera pelos bisnetos Marco senta-se, pega no comando interactivo e dirije-o para as cortinas. Estas têm espessura dinâmica para permitir a alteração do nível de iluminação, assim como a exibição de imagens. Escurece a sala, e faz projectar nos cortimados fotos de tempos passados, de quando era jovem, de praias de areia branca e resplandecente, e do mar no seu constante movimento.
Com grande algazarra Ísis e Ícaro entram na sala interrompendo-lhe os nostálgicos pensamentos. Trazem às costas as suas mochilas e vêm radiantes.
- Lembraram-se de trazer os vossos cartões? Não estejam à espera de que eu pague
  as vossas despesas… - disse Marco, olhando para os bisnetos, enternecido.
- Claro que sim, Bi. Nós não somos como tu, que te esqueces de onde pões os óculos – 
  respondem alegremente.
Descem o supersónico elevador e vinte segundos depois encontram-se no rés do chão. Caminham rapidamente para o aeromobil que Marco já comandara para sair da garagem e os aguardava à porta de casa.
Chegados à reserva introduzem os cartões no local próprio para abrir o enorme portão.
Respiram fundo, felizes, preparados para viver os momentos mais emocionantes de que têm memória.
A reserva é uma vasta área, semelhante a uma vila dos anos passados. Ruas alcatroadas onde circulam veículos que, aos bisnetos, parecem pré-históricos, mas que não têm mais de cem anos. As ruas encontram-se todas iluminadas. Ouve-se no ar uma suave música natalícia.
Marco respira fundo, emocionado como sempre que aqui vem. Ísis e Ícaro olham para tudo com espanto – têm apenas nove anos, Ísis, e oito anos, Ícaro, e já não se lembram bem do que viram no ano anterior.
Vão caminhando lentamente, apreciando as luzinhas que, brilhando, envolvem as casas, donde se escapam os odores dos cozinhados que lá dentro se estão preparando para mais logo. De quando em quando deparam-se com pequenas árvores de Natal, artificiais, às portas de algumas casas, enfeitadas com bolas brilhantes e vários enfeites, como pequenos pais natais nos seus trenós, passarinhos em ninhos, laços e pingentes de vidro, e por cima flocos de neve artificial.
Pelas ruas veêm-se vários turistas, que se distinguem dos habitantes da reserva pelas suas vestes modernas e de mochilas às costas. Todos tencionam ali pernoitar.
A noite vai descendo e Marco, Ísis e Ícaro vão-se encaminhando para o grande largo onde se encontra a sala comunitária.
Passados alguns momentos abre-se a grande porta da sala, onde os turistas se apressam a entrar, depois de terem passado os cartões na máquina que lhes fornece o talão que lhes vai permitir tomar parte no repasto.
Ao centro da sala pode ver-se uma enorme árvores natural, profusamente iluminada com miríades de luzinhas de todas as cores, e todos os enfeites que os moradores da reserva foram acumulando ao longo dos anos.
Durante o ano esta árvore é mantida dentro duma enorme estufa, onde se cultivam também árvores de fruto. Além desta, há outras estufas para o cultivo de vegetais de que se alimentam os moradores da reserva. Estes são autosuficientes; vivem dos produtos que cultivam nas estufas, ovos das galinhas que criam nos quintais, e carne de animais domésticos. Peixe não é ali consumido há largos anos pois o rio, a que eles podem ter acesso, tem a água de tal modo poluída que nenhum ser vivo ali sobrevive.
Ao fundo da sala uma lareira com troncos ardentes confere-lhe um ambiente extremamente acolhedor.
Junto à árvore de Natal encontra-se uma mesa oval onde irão acomodar-se o pároco e os maiorais da reserva. Dos lados da sala há mesas redondas às quais se vão sentar os comensais que costumam ser cerca de quinhentos – quatrocentos habitantes da reserva e aproximadamente cem turistas.
Marco, Isis e Ícaro sentam-se à mesa cujo número está indicado no talão retirado à entrada. Em breve juntam-se-lhes mais sete pessoas, perfazendo um total de dez.
Enquanto esperam pelo grande momento do jantar de Natal entretêm-se petiscando pinhões e figos secos, nozes e passas, e apreciando a música natalícia que se escoa pelos altifalantes.
A dado momento entram na sala, que está praticamente cheia, o pároco e o chefe da reserva, seguidos das outras pessoas que vão ocupar a mesa oval. Depois de uma saudação dirigida aos presentes sentam-se à mesa.
Logo de seguida começa a ser servido o jantar.
Aparece em primeiro lugar o bacalhau fumegante, logo seguido de apetitosas batatas, grão de bico, ovos cozidos, feijão verde cortado bem fininho e com um aspecto delicioso, grelos e por fim as tão apetecidas couves. Em travessas mais pequenas é apresentado polvo cozido e ainda pasteis de bacalhau.
Aqui, na reserva, onde residem pessoas oriundas das mais diversas regiões, há sempre o cuidado de manter as tradições de cada um, cozinhando os alimentos que lhes recordam os saudosos tempos do passado.
Em cada mesa estão colocados o azeite, o vinagre, o sal e a pimenta; em jarros, o precioso vinho fabricado lá mesmo na reserva e sumos naturais para os mais pequenos.
Porque se trata de um jantar de família, da grande família que é a população da reserva, embora possam assistir convidados, todos aguardam o sinal para iniciar a refeição, sinal que é dado pelo pároco ao fazer uma breve oração de agradecimento pelos alimentos que têm à sua disposição.
É com grande prazer que o jantar começa, e aqui e ali ouvem-se rasgados elogios especialmente da parte dos convidados, pouco habituados a alimentos naturais.
Logo que todos terminam começam a ser servidos os doces, cujo aroma a canela e limão enche o recinto. São travessas a abarrotar de rabanadas, aletria, arroz doce, formigos e os indispensáveis bolinhos de jerimú. Tudo isto acompanhado por excelente vinho do Porto.
Comendo e conversando, a refeição arrasta-se em alegre convívio.
Cerca das onze horas aparece um grupo coral junto à lareira que começa a entoar canções natalicias, o que contribui ainda mais para dar àquele jantar o verdadeiro espírito de Natal.
Bem perto da meia noite o pároco retira-se e alguns minutos depois ouve-se o sino da igreja, chamando os fiéis para a missa do galo.
Os que desejam assistir à missa, que são a maioria, dirigem-se para a igreja. Marco, Ísis e Ícaro encontram-se entre eles.
No final, ao sair da igreja, Marco encontra um velho conhecido e amigo dos seus tempos de juventude, que vive na reserva. Cumprimentam-se com um forte abraço – já não se viam há um ano – e Marco comenta:
- É impressão minha ou a população não aumentou do ano passado para cá?...
- Não é impressão, é mesmo verdade. Como já te disse a população mantém-se sem
grandes oscilações numéricas porque a natalidade é perfeitamente controlada e respeitada por todos. Nem poderia ser doutra maneira, a reserva tem espaço limitado…
- Já me tinhas dito, sim. E a respeito do bacalhau e do polvo… pelos vistos continuam  
  a conseguir arranjá-lo…
- Conseguimos, mas cada ano que passa se torna mais difícil e mais caro. A reserva
que o conserva congelado há quase cem anos cada vez faz mais restrições porque
o stock está a diminuir, como é lógico, e eles valem-se disso para aumentar os pre-
ços que já são exorbitantes…
Lá chegará o tempo em que teremos que comer galinha no jantar de Natal…
- Que isso não aconteça enquanto eu for vivo, pelo menos – retorquiu Marco.
Baixando a voz para que os bisnetos não o ouçam, Marco pergunta:
- E aquele problema que me relataste o ano passado, acerca dos islâmicos que queriam
  infiltra-se… voltou a acontecer?
- Felizmente não, o que não admira, depois da recepção que demos aos anteriores…
- Ainda bem, não fazem cá falta nenhuma – respondeu Marco.
Continuando o seu caminho dirigem-se à sala comunitária, donde entretanto  foram retiradas as comidas. Com eles estão quase todos os turistas que assistiram ao jantar.
Das mochilas retiram colchões que se enchem automaticamente ao puxar de um cordão; enfiam-se nos sacos cama e deitam-se quase tão confortavelmente como se estivessem em casa, nos seus quartos. Ísis e Ícaro não adormecem facilmente, tal é o seu estado de excitação devido aos últimos acontecimentos.
Levantam-se cedo e depois de tomarem o pequeno almoço num café próximo da sala comunitária, voltam a percorrer as ruas enfeitadas, agora com as luzinhas apagadas, cruzando-se com uma ou outra pessoa, geralmente turistas que, como eles, aproveitam para passear. A felicidade que sentem por ali estarem é tão grande que até o ar lhes parece menos poluído do que fora da reserva. Nem têm necessidade de usar as máscaras que frequentemente utilizam no mundo onde vivem.
Não se apercebem da passagem das horas, mas em breve soa a sineta avisando que a sala comunitária vai abrir e quem quiser pode ali dirigir-se para participar do almoço de Natal.
Todos se dirigem para lá, repetindo o ritual da noite anterior.
Em breve a sala é invadida pelos odores das carnes assadas, galinha, perú e leitão, das batatinhas assadas e da fresca salada variada.
E como não poderia deixar de ser, findos os salgados segue-se a quantidade infindável de doces, como na noite anterior, acrescida de variados pudins.
Marco, Ísis e Ícaro terminam a refeição alegremente, e já a tarde vai avançada quando, com bastante pena, abandonam a reserva e regressam ao seu modermo apartamento, onde não encontram o mais leve vestígio de Natal.

No dia seguinte, ao acordarem, Ísis e Ícaro ficam a pensar se tudo não passou de um lindo sonho…

segunda-feira, 6 de junho de 2016

"IN MEMORIAM"

Esta postagem constitui uma espécie de “memorial” em homenagem a quem partiu, faz hoje, DIA 6 DE JUNHO, quatro anos, mas permanece vivo na minha memória e no meu coração – o meu Marido.


ENCONTRO MEDIÚNICO

Despidos de roupas e preconceitos, frente a frente, olhamo-nos em silêncio.
Vejo nos teus olhos, envolto numa enorme ternura, um desejo sem fim.
Lentamente dirijo-me para ti.
Colocando-me a teu lado, pressiono o meu corpo, seios e ventre, contra o teu lado esquerdo.
Não te moves. Apenas um ligeiro arrepio denuncia que notaste a minha presença, o meu contacto.
Avanço a mão esquerda em direcção ao teu peito. Suavemente acaricio-te, primeiro do lado esquerdo e de seguida do lado direito, lenta e demoradamente, como quem tem todo o tempo do mundo.
Ao mesmo tempo a minha mão direita, colocada na parte de trás do teu pescoço, faz uma ligeira pressão desde a base dos teus cabelos, deslizando pelas costas, ao longo da coluna.
Com as pontas dos dedos contorno, suavemente, cada uma das tuas vértebras.
Sem pressas, as minhas mãos vão descendo, divagando, ao longo do teu corpo.
Alcançado o baixo-ventre dirigem-se, lentamente, para a parte interna da tua coxa esquerda, desviando-se da tua fonte da vida, que tocam, muito ao de leve, com a sua parte exterior. Um frémito percorre todo o teu corpo.
Docemente coloco-me à tua frente, elevando as minhas mãos até aos teus quadris. Uno o meu corpo ao teu e deslizo para o lado direito.
Os meus movimentos são lentos, suaves, quase diáfanos, como se nos encontrássemos em "slow motion".

Não me deixas prosseguir.
Levantas o braço, passa-lo por cima do meu ombro, bem junto ao meu pescoço, e comprimes o meu corpo contra o teu flanco.
Inclinas-te para o meu lado e, profundamente conhecedor, beijas-me o pescoço.
Sinto o desejo irromper dentro de ti como um vulcão subitamente desperto do seu sono.
A lava incandescente do teu corpo invade-me; no meu ventre surgem labaredas, qual sarça-ardente.
Murmuro-te ao ouvido palavras meigas e sensuais:
- Não resistas, meu amor; deixa-te invadir por estas ondas de fogo que ateiam o nosso desejo.
Procurando, como só eu sei, os teus pontos mais sensíveis, levanto a minha mão direita e acaricio a tua orelha, continuando a murmurar palavras inflamadas, que te provocam arrepios:
- Quero fundir o meu corpo no teu, em comunhão total.
- Quero ser tua, para toda a eternidade…
Correspondes com ansiedade redobrada:
- Quero receber o teu corpo como num altar do Amor.
- Quero que os nossos corpos se unam para sempre.
Prosseguimos com frases que só os amantes conhecem e entendem.

Passou-se um minuto, um ano, um século… O tempo não conta. Pararam todos os relógios do Universo.
Agora sabemos que a dança da sedução está prestes a terminar. Lentamente, caminhamos para um final sem retorno.

Abraçamos o céu com as mãos. Somos únicos à face da Terra.
No clímax que nos atinge, inesperadamente violento, miríades de fogos-fátuos enfeitam os nossos corpos.


Exaustos, olhamo-nos ainda: tu, lá tão longe… eu aqui, tão longe! Separa-nos a distância de um profundo céu negro, polvilhado de estrelas brilhantes.
Ao meu lado, a cama vazia. No ar, o perfume da tua presença.

A morte não é um impedimento intransponível para a comunicação entre aqueles que se amam verdadeiramente.

Texto de Mariazita

sexta-feira, 29 de abril de 2016

DIA DA MÃE


Aproxima-se o dia em que, em Portugal, se comemora o dia dedicado à Mãe – o primeiro Domingo de Maio – DIA DA MÃE
É a todas as Mães - as que o são, as que o virão a ser e as que o foram… em Portugal e em todo o Mundo, que dedico este texto a que dei o nome de “Chamada para a vida”

CHAMADA PARA A VIDA

Depois de termos estado uns anos sem nos vermos, quando a minha amiga Márcia se aproximou, verifiquei, com prazer, que conservava aquele corpo escultural que sempre lhe conhecera.
Apesar de rondar os quarenta anos, o seu andar elegante no sapato de sato alto e no caro tailleur de executiva, atraía os olhares de quem com ela se cruzava.
Abraçamo-nos efusivamente, mitigando as saudades acumuladas ao longo de tanto tempo, e que os frequentes telefonemas não conseguiam atenuar.
Impaciente, logo que nos instalámos no restaurante onde iríamos almoçar, perguntei-lhe:
- Afinal que assunto é esse, assim tão urgente, que não podia ser adiado nem um minuto e nem tratado por telefone? – perguntei, com um sorriso.
Márcia assume um ar sério, compenetrado, e responde:
- Sabes? Já há um certo tempo eu e o José temos vindo a falar sobre a questão de formar uma família. A verdade é que nunca pensámos nisso muito a sério. Mas nos últimos dias… a ideia não me tem saído da cabeça. E, na qualidade de minha maior amiga, e com a tua experiência de mãe, gostava que me desses a tua opinião…
Imediatamente penso: o seu relógio biológico começou a contagem decrescente, e ela encara, pela primeira vez com seriedade, a perspectiva de ser mãe.
Márcia continua:
- O que é que tu achas? Ultimamente, eu e o José falamos muitas vezes sobre o assunto, mas estamos indecisos…Por isso pensei em falar contigo, trocar umas ideias, como sempre fazemos quando temos dúvidas. Achas que eu devia ter um bebé?
Com todo o cuidado, sem querer denunciar o que realmente penso, respondo-lhe:
- Bem… isso vai alterar completamente a tua vida…
- Sim, eu sei. Aquelas saborosas manhãs de sábado e domingo na cama, os fins-de-semana fora, sempre que nos apetece… tudo isso se acaba.

Mas não é bem isso que me preocupa – penso para mim mesma.
Gostaria de lhe dizer que as marcas físicas, próprias da gravidez, passam com o tempo, mas o acto de ser mãe deixa uma marca emocional tão grande, tão viva, que a tornará totalmente vulnerável.
Olho para as suas unhas bem tratadas e o fato elegante, e penso que, na qualidade de sua melhor amiga, tenho o dever de a alertar para certos factos. E penso:
- Não há elegância que resista a teres que mudar uma fralda. Se for apenas de chichi, até se suporta. Mas… se estiver suja? Vais ter uma certa dificuldade em te adaptar… 
Contudo… - continuo a pensar – a sensação de tocar aquela pele tão suave, acariciar aquele corpinho morno e macio, beijar aqueles pés pequeninos, de dedinhos minúsculos…

O meu pensamento continua a divagar:
- Nunca mais poderás ler uma má notícia no jornal, sem pensares, angustiada: “E se fosse o meu filho?”.
- Todo o tipo de acidentes, incêndios, naufrágios, irão fazer o teu coração apertar-se de ansiedade e pensar: haverá algo pior do que ver um filho morrer?
Porém… em contrapartida… haverá alguma coisa que se possa comparar à alegria de vê-lo chegar a casa são e salvo, depois da ansiedade da espera? Não, não existe maior  felicidade do que esta!

E penso ainda:
- Sempre que houver uma nota de urgência no apelo - Mamã! - largarás, sem pensar um segundo, a melhor peça de cristal que tenhas entre mãos.
- A tua carreira, na qual investiste os melhores anos da tua vida, será relegada para segundo plano – a maternidade assim o exige.
- Poderás até conseguir uma boa ama para o bebé, na qual confias cegamente; mas muitas serão as vezes em que terás que recorrer a toda a tua auto disciplina para não «dar um pulinho a casa» apenas para te certificares de que tudo está bem com o teu filho. E não raras vezes te questionarás se, afinal, o alto cargo que desempenhas na empresa será, mesmo, mais importante do que o teu papel de mãe.
São estes os pensamentos que me ocorrem enquanto observo a minha amiga, tão atraente.

Devo também dizer-lhe:
- Ainda que percas o peso acumulado durante a gravidez nunca mais te sentirás a mesma.
- A tua vida, tão importante para ti neste momento, terá muito menos valor quando houver um filho. Ele passará a ocupar o PRIMEIRO lugar.
- A relação com o teu marido também sofrerá alterações. É imprescindível que compreendas que se pode amar ainda mais um homem que está sempre pronto para mudar uma fralda, e que nunca hesita quando o filho reclama a sua atenção…
Para tudo isto e muito mais devo alertar a minha amiga. Mas… tenho também que lhe falar na alegria da mãe ao ver:
- O riso descontrolado do bebé ao tocar no pêlo de um cão pela primeira vez;
- Ao ver o bebé aprender a dar os primeiros passos;
- A observar o filho a aprender a jogar à bola…

Absorta nos meus pensamentos só o olhar irónico da minha amiga me faz perceber que tenho os olhos rasos de água.
- É a melhor decisão da tua vida. Nunca te arrependerás! digo-lhe, com a voz embargada. E não acrescento mais nada.

Depois seguro-lhe na mão e, juntas, erguemos uma prece por ela e por todas as mulheres que respondem ou algum dia responderam à «Chamada para a vida». 


PS - ESCLARECIMENTO,  PARA QUE NÃO SURJAM CONFUSÕES:
        ESTE TEXTO É FICCIONADO, FRUTO DA IMAGINAÇÃO DA AUTORA DO                   BLOG - MARIAZITA

domingo, 14 de fevereiro de 2016

MAIS UM ANO - O OITAVO

  
Isto de fazer anos cansa!... E então quando se chega ao oitavo… digo-vos:

Fazer anos é mesmo um desatino
Tudo me faz lembrar que já fui menino
Pequenino.
Mas, vai aí, o tempo passou,
E o menino transformou
Num velho tonto, sem tino.

Se não fora o carinho das amigas e dos amigos que me tem rodeado ao longo destes longos oito anos, eu já teria desistido.

Se não fossem os amigos
Que tanto me acarinham
Já tinha mesmo fugido…
Para o Brasil, talvez.
Ou para a Espanha, quem sabe?...
Para bem longe eu iria
Se pudesse, sem alarido,
Mesmo correndo grandes perigos.

Mas desistir é para os fracos. Eu mantenho-me firme no meu posto. Até quando é que não sei, porque…

Estou cansado, alquebrado,
Mas minha ama não me dá folga
E já me ameaçou:
Não penses que este ano
Vai ser como o que passou.
Vais trabalhar, e no duro,
Que a vida não está para graças.
Tu andas muito folgado!

Sendo assim… o que me resta, é celebrar!

Vamos soltar as amarras
Deixar o porto seguro
O vento as velas inchar
O barco em ondas vogar
Que o navegar é duro
E já cantam as cigarras.
(A Primavera está a chegar…)

Juntemo-nos então a elas
E cantemos nós também
Que a vida é muito bela
Novos, velhos, assim assim... cantemos todos!
Celebremos! 
VIVA A VIDA!


A minha querida amiga GRACITA ofereceu-me este mimo que partilho convosco.
Muito obrigada pelo carinho.

Querida Mariazita

Bom dia minha doce e querida amiga
É com grande alegria que hoje venho parabenizá-la pelos 08 anos do seu lindo blog.
Entre tantos amigos sinto-me privilegiada pela oportunidade de estar celebrando com você este belo momento do seu espaço. Que ele cresça cada dia mais e você, amada amiga continue nos agraciando com o teu soberbo talento poético.
Parabéns! E muitas... alegrias neste e nos próximos aniversários
Um beijo com meu especial carinho,
Gracita

Fiz este singelo mimo para marcar esta linda data