segunda-feira, 1 de outubro de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS IV

SEGREDOS – CAPÍTULO IV

"... - Estava a abrir a porta da rua quando o telemóvel tocou. Viu que era o Luís e resolveu não atender. Logo de seguida ouviu uma mensagem em alta voz:
- Mãe! Porque não atendes o telefone? Já te liguei hoje não sei quantas vezes! Preciso falar contigo com a máxima urgência! Liga-me, por favor!
A voz do filho denotava urgência e ansiedade..."

SEGREDOS – CAPÍTULO IV

Depois de ouvir a mensagem de Luis, Nanda ficou uns momentos indecisa, sem saber bem o que havia de fazer. Por um lado, Bela já devia estar no local de encontro; por outro lado o tom de voz do filho “dizia-lhe” que devia ligar-lhe sem demora. E coração de mãe não se engana.
Saindo de casa ao encontro de Bela foi ligando para o filho.
- Até que enfim, mãe! Estou farto de te ligar e tu não me respondes…
- Tens razão, filho, mas pensei que querias saber novidades da conversa com o teu pai, e só há muito pouco tempo é que consegui falar com ele… - desculpou-se Nanda. E acrescentou rapidamente:
- Mas tenho boas notícias para te dar…
- Já dás, mãe – interrompeu-a Luis. Deixa-me primeiro falar…
- Diz lá então o que se passa.
- Tenho uma notícia muito boa para te dar, que penso que te vai deixar muito feliz – informou Luis, alegremente.
- Diz, filho, diz! – Nanda agora estava ansiosa por ouvir.
- Pois então prepara-te: - já és avó!
- O quê? A voz de Nanda denotava enorme espanto. Mas não é ainda muito cedo?
- A isso não te sei responder, mãe. Sabes como é, com o pouco dinheiro que temos a Catarina não ia ao médico e deve ter feito mal as contas…
Ao mesmo tempo que ia falando com o filho Nanda ia caminhando e em breve estava junto de Bela. Fez-lhe sinal para aguardar e continuou conversando.
- Mas diz-me, como está o bebé? E a Catarina? Como correu o parto? Onde é que eles estão agora? – Nanda estava excitadíssima, fazendo perguntas uma atrás da outra, sem esperar resposta.
- Acalma-te, mãe, até pareces eu quando soube que o bebé estava a nascer – riu-se Luis. E respondeu:
- Sim, estão bem…
- Espera! Nem perguntei se é menino ou menina. Afinal, tenho um neto ou uma neta? – interrompeu Nanda, que continuava agitadíssima, querendo saber tudo ao mesmo tempo.
- E se eu te dissesse que eram dois? – Luis denotava na voz uma alegria fora do comum.
- O quê? Tu não me digas que sou bisavó – riu Nanda, com um leve acento de preocupação.
Luis deu uma forte gargalhada.
- Não, mãe, és só avó. E do menino mais lindo do mundo!
-Ah! Assim é melhor… - Nanda respirou aliviada - Dois ao mesmo tempo são mais difíceis de criar, não só pelo trabalho como também pela despesa… E acrescentou:
- Que seja o menino mais lindo do mundo não duvido… não nega as suas origens. Afinal, o pai é um bonito rapaz, e a avó, apesar de velhota, ainda não é de deitar fora – riu alegremente.
Continuaram conversando neste tom até que Nanda olhou para Bela e vendo-lhe um ar resignado, resolveu pôr termo à conversa.
- Olha, meu filho, vamos falar de coisas práticas. O melhor será eu ir para aí amanhã, para ajudar no que for preciso. Hoje já é um bocado tarde e não tenho nada preparado…
- Não penses nisso, mãe, não é preciso. A mãe da Catarina levou-a lá para casa, vai dormir no quarto de solteira dela. Eu fico a dormir no nosso palácio (deu uma curta risada) mas vou lá vê-la todos os dias, depois da jorna. Ao trabalho não posso faltar, sabes como é, quem não trabalha não recebe… e não estamos em condições de dispensar nem um cêntimo…
- Se sei, meu filho, se sei… Desempregada há tanto tempo preciso de contar os tostões… Mas não te dei uma notícia muito importante. Já falei com o teu pai…
- Ah sim? E o que foi que ele disse? – perguntou Luís, ansiosamente.
- Começou com as tretas do costume, mas quando lhe disse que ia ser avô mudou como da água para o vinho. Ficou todo excitado, a querer saber mais do que eu… e acabou dizendo que “para o neto nem que tivesse que ficar ele sem comer”.
- Muito me contas, minha mãe. Então o velhote ficou contente com a ideia de ter um neto? Antes assim; sabes que eu gosto do pai, embora não concorde com a maioria das cenas dele… Mas… concretamente, o que é que ele está disposto a fazer?
- Prometeu arranjar um sítio para vocês morarem, o que é óptimo, e depois ajudar em tudo o que puder, como seja arranjar-te trabalho e coisas assim… E ficou ansioso para vocês virem para cima.
Dando o assunto por terminado despediram-se com as recomendações habituais de “beijos para a Catarina e mil beijos para ti”, agora acrescentados dos carinhos para o netinho.
Desligado o telemóvel voltou-se finalmente para Bela, que aguardava pacientemente. Explicou-lhe tudo o que estava acontecendo, que Bela tinha mais ou menos depreendido pelo que ouvira.
Concordaram que já era um pouco tarde para a caminhada que tinham combinado, para além de que Nanda teria ainda que fazer alguns telefonemas para avisar que já era avó. Bela riu-se do ar “babado” com que ela pronunciava “avó”. Como boa amiga que era – aliás, as melhores amigas desde que eram quase crianças – congratulou-se com a alegria da recente vovó, dizendo-lhe que combinariam a caminhada para outro dia.
- Amanhã, talvez… - concordaram ambas. E despediram-se.
Encaminhando-se para casa Nanda resolveu parar no café para beber uma água e tentar acalmar-se antes de fazer os telefonemas a dar a boa nova.
Rememorando a conversa com o filho pôs-se a imaginar a felicidade que ele estaria a sentir por ser pai. Provavelmente a mesma que ela própria sentira quando nascera o seu primeiro filho, Miguel. O pensamento recuou quase trinta anos. E reviveu a cena…
***
“Caminhava distraidamente pela rua, com a descontracção própria dos seus 17 anos, muito próximo dos 18.
Ia encontrar-se com a sua melhor amiga, Bela, que fora à universidade colher informações acerca dos cursos que ambas pensavam ir frequentar no próximo ano, agora que estavam prestes a terminar o 12º. Ano. Depois iriam almoçar juntas para combinar os pormenores da festa de anos de Nanda, que completaria os 18 anos dentro de 3 meses.
Numa rua muito próxima da cidade universitária, ao dobrar a esquina, Nanda sentiu um forte encontrão que a fez voltar-se, furiosa, pronta a interpelar severamente a pessoa que assim a tinha “abalroado”.
À sua frente estava um jovem aparentando vinte e poucos anos que, com um ar compungido, murmurava numa voz doce e ao mesmo tempo lastimosa:
- “Scusa! Mi dispiace! …”
Nanda levantou a cabeça para ver o rosto de quem pronunciava tais palavras que, apesar de serem em italiano, ela percebeu perfeitamente.
O jovem era bastante mais alto do que ela e, logicamente, deveria ser italiano. A sua fúria inicial quase desaparecera ao ouvir aquela voz tão doce, desvanecendo-se por completo ao observar aqueles olhos de um azul tão profundo como ela nunca tinha visto.
O estranho parara no passeio observando-a atentamente.
- Poderásperdonarmi”? – perguntou.  E, continuando com um forte sotaque italiano:
- A culpa foi toda minha, eu sei, e a única justificação que tenho é a grande preocupação que ocupa ‘la mia mente’. Eu vinha completamente distraído com tantas dúvidas ‘nella mia testaque nem sabia por onde vinha…
Tudo isto foi dito com palavras portuguesas e italianas à mistura. Nanda estava emudecida. Ela, que habitualmente tinha a resposta na ponta da língua, não conseguia articular uma só palavra. Nada lhe ocorria…”
***
- Desculpe, senhora, mas deseja mais alguma coisa? Era a voz do empregado, trazendo-a à realidade.
- Não, muito obrigada, não preciso de mais nada. Quero apenas pagar.

E terminou o pensamento em que estivera embrenhada:
“Ai, Alessandro Adari!”

Ao chegar ao prédio onde morava Nanda meteu a chave à porta e, no patamar, encontrou o seu vizinho do andar de cima, Jorge, que a cumprimentou com aquele ar respeitoso que usa para com todas as pessoas, especialmente as senhoras.
- Boa tarde, Dona Nanda, como vai a senhora?
- Eu estou muito bem, obrigada, Jorge. E muito feliz, porque soube há pouco que já sou avó.
- Avó? Mas não é possível! A senhora tão jovem já tem netos? Foi mãe aos 10 anos… é isso? – Jorge adoptara um ar brincalhão mas ao mesmo tempo admirado.
- Não, não foi aos 10 anos – riu Nanda. Fui mãe aos 18 anos… uma criança, diga-se em abono da verdade.
- Seja como for, a senhora não tem aspecto de avó. Parece irmã dos seus filhos… - Jorge falava com sinceridade.
- São os seus lindos olhos, Jorge, sempre gentil…
Depois de mais uma pequena troca de piropos, despediram-se. Jorge ia passar pelo coro, onde cantava como tenor, para saber quando seria o próximo ensaio. De lá seguiria para o bar onde trabalhava.
Nanda subiu os degraus até ao primeiro andar onde morava, abriu a porta de casa e entrou. Lá dentro, sozinha, esboçou um sorriso e murmurou:
“Ai este Jorge, sempre tão gentil e simpático! E depois… aqueles olhos azuis… dão-me volta à cabeça! Como diz a Bela, parafraseando não sei quem… - Que pedaço de mau caminho!
Mas…para o que lhe havia de dar… Se não fosse aquele ‘pequeno defeito’ eu até era capaz de dar umas voltinhas com ele no carrocel! Noutras circunstâncias não me escapava – continuou o seu raciocínio, bem-humorada.
Que desperdício, santo Deus!” – e riu baixinho. 

Maria Caiano Azevedo