domingo, 9 de maio de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/02)

O INCONVENIENTE DE SE FALAR FRANCÊS

Quando cheguei tinha acontecido, poucos dias antes, a independência do Congo Belga. A cidade estava repleta de refugiados que tinham vindo acolher-se num sítio para eles seguro, dado que, após a independência, o vizinho Congo Belga viveu tempos muito conturbados.
Da varanda do apart-hotel onde eu me encontrava, e onde permaneci por cerca de um mês, podia vê-los, com enormes túnicas brancas contrastando com o negro da pele. Para quem, como eu, não estava habituada a vê-los em tão grande número e em tais roupagens, era um pouco assustador. Quase não me atrevia a sair à rua, a não ser acompanhada, o que só podia acontecer ao final do dia, quando o marido regressava dos seus afazeres.
A primeira semana foi um pouco complicada. O marido encontrava-se destacado numa povoação a alguns quilómetros de distância, e só regressou uma semana depois. Fez-me companhia no dia da chegada e no dia seguinte, mas logo a seguir voltou para o seu posto.
Acho que foi a semana mais comprida da minha vida, mas chegou ao seu termo, como tudo…
Decorrido cerca de um mês conseguimos alugar um apartamento num prédio que ainda estava em construção. O construtor deu prioridade aos dois apartamentos do rés-do-chão – esquerdo e direito – onde se instalaram duas famílias nossas conhecidas, e ao primeiro andar direito, para onde nós fomos viver.
Como o dia em África começa muito cedo, quando dei à luz, às nove horas da manhã, os trabalhos decorriam a ritmo acelerado nos andares de cima. As marteladas ouviam-se a distância e faziam estremecer o prédio. E foi no meio de toda esta algazarra que o meu bebé tomou contacto com o mundo pela primeira vez.
Os dias que se seguiram não foram mais silenciosos; só quando as obras foram subindo de patamar é que o barulho se começou a ouvir mais ao longe.
Ainda hoje me espanta como é que o meu filho consegue ser uma pessoa tão calma e serena tendo nascido no meio de tanta barulheira.
A casa onde morávamos era bastante espaçosa. Para além duma sala grande que funcionava como sala de estar e de jantar, tinha dois quartos, e as restantes divisões normais numa casa.
Cerca de um mês depois de lá estarmos a minha cunhada foi juntar-se a nós,

e aí permaneceu até que o marido, colocado mais ao norte, conseguiu reunir condições para ter a família junto de si. Vinha à cidade apenas aos fins-de-semana gozar a companhia da mulher e dos dois filhitos pequenos.
Tínhamos um criado que passava a ferro e cozinhava divinalmente. Lembro-me que lhe lia receitas do meu livro de cozinha que me tinha acompanhado – inexperiente como eu era não sabia cozinhar e tinha que me valer do livro de receitas, gentil oferta do marido no primeiro Natal que passamos casados !!!
O Francisco, assim se chamava o criado – pelo menos dava por esse nome – ouvia a receita uma vez apenas e reproduzia os cozinhados quantas vezes quiséssemos, com mão de mestre.
Era um homem alto, bonito, de pele excepcionalmente escura, quase azulada, com um semblante impenetrável.
Naturalmente educado, cortês, de poucas falas mas atencioso, levava-nos a pensar que teria ascendência de elite.
Um dia em que eu e minha cunhada nos encontrávamos na sala, cuidando dos bebés, o Francisco encontrava-se lá também, a passar a ferro.
A minha cunhada dirigiu-se-me:
- Mariazita, já reparaste como “ele” passa tão bem a ferro?
Para que ele não percebesse, ela tinha falado em francês, e dito “ele” em vez de “Francisco”.
Já anteriormente tínhamos usado este estratagema quando queríamos dizer alguma coisa que preferíamos que ele não percebesse.
Antes que eu respondesse à minha cunhada, o Francisco disse, em português:
- Aprendi com a minha mãe, senhora. Era ela que cuidava pessoalmente dos fatos do meu pai.
Apanhadas de surpresa, a nossa reacção imediata foi de estranheza, que lhe fizemos sentir:
- Ah! Então o Francisco sabe falar francês?
- Sim, senhora, melhor do que português, porque eu sou do Congo Francês.
Àquela data, depois da independência do Congo Belga e consequentes distúrbios, havia uma atenção especial à fronteira, a norte, com o Congo Francês – Ponta Negra – que viria a tornar-se independente pouco tempo depois.
Postos ao corrente deste “incidente” com o Francisco, devido ao clima instável que se vivia no Congo Francês, os maridos acharam mais prudente “dispensá-lo” do serviço.
Apanhámos um pequeno (…) susto, mas, no fundo, o que mais nos custou foi perdermos os belíssimos cozinhados do Francisco.
E tudo isto por nos termos lembrado de falar em francês!

26 comentários:

AFRICA EM POESIA disse...

Mariazita
Gostei de ler esta saudosa Africa.
mas venho tbm dizer...

Obrigada pelo carinho demonstrado no aniversário do meu marido.. Juntos caminhamos
juntos sofremos
juntos amamos.
A vida é assim...
Com amor vamos caminhando...

Obrigada pelo carinho demonstrado...

Luis disse...

Minha Querida Amiga Mariazita,
Em Angola e em Moçambique o pessoal sabia tratar bem da roupa e da comida. Lembro-me com saudade do Sabonete e do Joaquim Máquina, qualquer deles excepcionais na ajuda que davam. O Sabonete, uma bábá perfeita, era muito carinhoso e cuidadoso com as minhas filhas. Quiz vir connosco para Lisboa mas como tinha várias mulheres e muitos filhos acabou por lá ficar.
Se voltasse gostaria de os rever pois tenho a certeza que eles também ficariam felizes com esse reencontro. Coisas de quem por lá passou!
Beijinhos amigos.

direitinho disse...

Bom dia
Gosto de ler todos os teus textos pelo estilo simples e um raciocínio claro e objectivo.
Desculpa este reparo, mas o que me prende a um texto não é só a história mas a linguagem que se usa a escrevê-la e a Mariazita fá-lo com mão de Mestra.
O final da história é triste e vem roubar-lhe algum brilho.
O Francisco tinha tantas qualidades porque haveriam de o mandar embora...?
Eu sei, guerra é guerra e todos os cuidados são poucos.

Zé do Cão disse...

Como todos sabemos, os Brancos viram-se negros, até com os seus empregados mais fieis quando rebentou a revolta contra os portugueses.
Daí entender perfeitamente a resolução escolhida.
E sabermos nós agora que um dos grandes instigadores das chacinas de Angola, foram alvitrada por Rosa Coutinho.
jinhos, minha amiga

lis disse...

Mariazita
Gosto muito desses relatos seus vividos na Africa. Tão distantes pra mim , e deveras interessante.
Que bom ve-la voltando ao convívio.
abraços e uma excelente semana

JADY*ALVES disse...

Amiga querida,
Num dia como o de hoje em que comemoramos aqui no Brasil o dia das mães, lendo teu texto fiquei a pensar justamente em teu filhito...
Como bem dissestes aqui, como é que teu pequenito veio ao mundo em meio a tanto barulho e como disseste tão calmo cresceu...
Provavelmente porque tinha a seu lado uma mãe calma, paciente, e inspirou nele a confiança de crescer seguro e alegre podendo em meio a tantos percalços acreditar que estava bem, pois tinha a seu lado uma Fortaleza de Mulher que com tudo teve a Sapiência de transpor os obstáculos e provou que Mãe é o mais sublime presente que um ser vivente pode receber de Deus.
Deixo neste dia meu abraço e carinho por essa pessoa linda que admiro e gosto de estar perto, mesmo que virtualmente.
Ela se chama, Maria!
Como a mãe de Jesus.
Beijos ternos e FELIZ DIA amiga.
Tua amiga Jady

Canduxa disse...

Mariazita Querida,

relembrei aqui esta passagem que tantas vezes a minha mana contou.
Desconhecia a fotografia em que ambas estão lindas e os meus sobrinhos e priminho... lindos.

Adorei o teu texto... apesar de terem de dispensar o Francisco...tão bom cozinheiro.


Mil beijinhos de luz

Desnuda disse...

HAhahahahaaa essa foi ótima, Mariazita. Estou rindo até agora. Imaginando a cena...Aff, Maria! mas eu não dispensaria o Francisco, não hahahahaha.

Beijos e obrigada pela lembrança, querida amiga.

Irene Moreira disse...

Mariazita.
Que história de vida minha amiga e digo que és uma mulher de fibra e coragem por ir ter aos filhos em um lugar tão distante e com tantos problemas e culturas diferentes.

Beijos

Bergilde Croce disse...

Mariazita,bela imagem e sobretudo história desse inicio de vida nesse lugar tão distante e diferente do seu de origem.Posso imaginar o quanto foi difícil adaptar-se àquela cultura e realidade.Como estrangeira muitas vezes eu também estranho algumas usanças européias,mas vivendo aqui tenho que me acostumar não é?!Agregar novos costumes,novos valores e aprender uma nova língua é muito enriquecedor pra vida da gente.
Adoro ler e conhecer mais de ti,abraços,Bergilde

Francisco Sobreira disse...

Querida Maria,
Estou gostando um bocado dessas suas lembranças da África, que você revela com uma escrita que atrai o leitor. Quanto ao episódio, ainda bem que vocês não estavam falando mal do cozinheiro. Um beijo.

Aislin Nahimana disse...

Devem ser lugares lindos de se conhecer...
bjos!

aislinnahimana.blogger.com.br

Vitor Chuva disse...

Olá Mariazita!

A Mariazita foi verdadeiramente uma mulher de armas: numa altura em que até para muitos homens o Ultramar era um lugar extremamente difícil,duro, onde nunca faltava a apreensão - e em muitos casos, mesmo o medo - então para uma mulher com filhos pequenos e marido distante, era-o infinitamente mais.Era preciso coragem e muito espírito de sacrifício- para além de outras razões e motivações, certamente - atributos que à Maraizita não faltavam.
E agora, depois de ler esta narrativa, muito bem desfiada, também fiquei a saber donde surgiu a ideia de ao Vitor - que sou eu - chamar Francisco - que era aquele criado com "dedo" para passar a roupa a ferro, para além de falar Francês ...
Francisco,até é nome bem bonito!
Beijinhos.
Vitor

São disse...

Interessante ouvir estas tuas memórias africanas: é uma maneira de eu conhecer mais um pouco dessa África a que nunca fui, infelizmente.

Já te disse que era muito bonita? Aliás, ainda deves ser.


Muitos beijinhos, nena.

Jose Sousa disse...

Pronto... fui convidado a vir até aqui, cá estou. Gostei imenso deste teu espaço, mas tenho de ser sincéro, fiquei comovido. Se precorreres os meus blog's, vais encontrar várias histórias, identicas a estas, que se passaram comigo, em Angola. Volta sempre, é com muito prazer que te recebo em meus blog's
Um doce beijo.

Manuela Freitas disse...

Olá Mariazita,
Obrigada pela sua visita no meu blogue. Vim retribuir tão agradável visita e já estive a ler coisas muito interessantes nos blogues. São todos seus? Gostei e vou voltar.
Muito interessante a maneira como escreve, quem esteve em África fica marcada para toda a vida, não è?
Beijinhos,
Manuela

com senso disse...

Amiga Mariazita

Percebo muito bem e as sensações de um choque cultural tão forte, quando partimos da Europa e horas depois estamos num mundo completamente diferente do nosso, por vezes intrigante e incompreensivel, por vezes ainda assustador e repleto de mistérios!
Sente-se bem o carinho que guarda por esses momentos tão especiais... Ele aliás é já visivel na foto que teve a gentiliza de juntar aqui.
Sempre magnifica a forma como vai desfiando as suas memórias pessoais e as vai partilhando connosco, com uma indisfarçavel ponta de saudade!
Essa saudade que não se vê apenas no título do post, mas que se sente em toda a extensão do seu belo texto!
Um beijinho com amizado

Maria João disse...

Mariazita, minha amiga...

Li este teu relato de vida, no dia em que o publicáste. O comentário ficou suspenso, como tantas vezes acontece... perdoa!
Nas muitas histórias que conheço, similares à tua, vividas por terras de África, sinto sempre uma ternura imensa por esses homens e mulheres que servis, cuidavam dos patrões e seus filhos, numa entrega quase completa das suas vidas que ocultavam na e da sombra escurecida da sua pele.
Emociono-me sempre, quando imagino, o turbilhão de sentimentos que viveram.

Beijinhos

Barbara disse...

A África sempre me deu impressão de novidade, assombro, sentido e intensidade.
Lendo aqui , senti ainda não ter ido por lá.
Foi gostoso ter vindo ler aqui.

lis disse...

Passando pra deixar o abraço e saber noticias da gripe, já foi de vez? rsrs
beijinhos e boa quinta feira

Fernanda disse...

Querida Mariazita,

Só hoje dei conta que ainda não tinha passado pela sua casa mãe...
pelo menos eu penso que será.

Como não passei por estas tribulações, acho-a uma heroína, uma verdadeira mulher de armas.
Escusado será repetir-me, a forma como narra os factos é fantástica.

Adorei.
Nota 20!
Impeccable!

Na Casa do Rau

MARLA disse...

Creio que foi uma experiência e tanto, viver na África naqueles tempos de proclamações de independências. A história que narras é muito boa. Meu beijo.

Daniel Costa disse...

Mariazita

Depois de ler a exlente crónica de vida, pensei se não terás passado por Angola quando eu!
Como estive algum tempo na fronteira do Congo ex-Belga, com o pouco francês que sabia coversei tastante nessa língua. Era inexperiente, mas possívelmente falei com alguns espiões adversários, a viver no Congo-Brasavile. Tanto estavam do lado de lá, como do cá da fonteira. Havia os que tinham namoradas no Congo.
Ficava a sete quilómetros e meio, mas é de crer que a corta-mato fosse mais próximo.
Antes de chegar à posição, por causa da indendência, o aeroporto local foi catastrófico, segundo soube.
Beijos
Daniel

Chica disse...

Noooossa,que linda história essa...As dificuldades passadas que ficam pra sempre e valem a pena,não?um beijo e um lindo final de semana,chica

M. Lourdes disse...

Mariazita
Adorei a sua história de hoje pois também gosto de recordar. As boas recordações deixam-nos saudades e as más ajudam-nos a dar mais valor à vida.
Beijinhos
Lourdes

São disse...

Como deves ter entendido , falta um "s" no "era", rrss

E estás recuperando ? Espero bem que sim.

Um fraterno abraço, nena.