domingo, 10 de janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLIII

(Ficção baseada em factos reais)

Humberto fez uma ligeira pausa, olhando atentamente para Anita, tentando descobrir se ela se encontraria demasiado cansada.
A seguir continuou:

FIM DO EPISÓDIO XLII
EPISÓDIO XLIII

Depois desta conversa comecei a entender melhor a frieza com que o meu Pai sempre me tratara. Nunca foi violento comigo; aliás, ele não era dado a violência física. Mas quando eu sentia sobre mim o seu olhar de desprezo, era pior do que se me batesse.
Por essa altura eu passava em casa o mínimo tempo possível. Não faltava às aulas, era um aluno bastante razoável, penso que mesmo acima da média; logo que regressava da escola ia fazer os trabalhos de casa o mais rapidamente possível, para em seguida ir a correr para a rua.
Não gostava de estar em casa, com medo das discussões dos meus Pais.


Em parte por doença, mas especialmente devido a desgostos, a minha Mãe acabou por morrer bastante nova.
Senti uma mágoa profunda, e ao mesmo tempo um grande receio de que o meu Pai me pusesse fora de casa.

Mas tal não sucedeu. Verifiquei, com um certo espanto, que a morte da minha Mãe o tinha abalado mais do que eu esperaria.
Manteve uma grande distância de mim, mas nunca me faltou com o que era necessário; inclusivamente, depois que eu era já um rapaz espigadote, dava-me algum dinheiro “para ir ao cinema”, como ele dizia.
Não me recordo de termos comido juntos mais do que duas ou três vezes, e não pronunciamos uma única palavra durante toda a refeição.

Anita ouvia-o com a máxima atenção, fazendo uma ou outra expressão de desgosto em determinados pontos da narrativa, mas sem o interromper. Parecia querer interiorizar, para “levar consigo”, cada palavra que ele pronunciava.

- Esta história foi comprida demais… estou a cansar-te – balbuciou Humberto, visivelmente emocionado, ao recordar grande parte da sua vida.
- Não, não estás a cansar-me nada. Nem imaginas como estou a gostar de te ouvir. Consegui até esquecer que estou numa clínica médica… -respondeu Anita, com um leve sorriso, ligeiramente irónico.
- De qualquer modo, também pouco mais há para contar – disse Humberto.
Lembras-te de eu te ter dito que, um dia, te contaria por que o meu Pai não queria que eu assistisse aos jantares com convidados? Vou dizer-te o que penso, e pensava, nessa altura:
O meu Pai não me considerava seu filho; eu não era, para ele, membro da família. Por qualquer razão que só ele conhecia, sentia-se no dever de me sustentar e prover à minha educação, mas nada mais do que isso.
Quando começaste a oferecer jantares lá em casa, logo da primeira vez que isso aconteceu ele avisou-me que não queria ver-me à mesa, ao jantar, sempre que houvesse convidados. Estou convencido que era uma forma de me fazer lembrar que eu não pertencia à família.

E assim termina o meu “segredo”, minha querida mãezinha.

Anita manteve-se em silêncio por alguns minutos. Depois, apertando a mão que Humberto tinha sobre o seu braço, disse:
- Eu sempre soube que tu eras um ser aparte…uma pessoa com um coração fora do comum. Mas só agora percebo a alma maravilhosa que tu tens. Depois de passares por tudo por que passaste, conseguiste preservar o teu coração do rancor e da maldade, conservando-o cheio de amor para dar ao próximo!
Sinto-me uma privilegiada por te ter conhecido e, no fundo, ter-te amado. Sim, porque eu amei-te, e amo-te, como a um irmão mais velho, apesar de teres apenas dois anos mais do que eu…
Humberto sentiu um sobressalto, ao ouvir Anita dizer que o amava, mesmo sendo um amor de irmão. “Amor” era uma palavra que nunca haviam pronunciado referindo-se aos sentimentos que os uniam.
Anita continuou:

- Como te disse, encantou-me ouvir-te. Mas…tu falaste em mais do que um segredo… Quero saber mais.
Exaltado pelo sentimento que a declaração de amor de Anita, ainda que fraternal, lhe causara, Humberto prendeu as mãos de Anita entre as suas, confessando:
- Há, de facto, um segredo, que me acompanhou toda a vida, desde que te conheci, e que jurei levar comigo para a cova.
Ao pronunciar estas palavras Humberto lembrou-se, de repente, que Anita dispunha de pouco tempo de vida. Pensou que ela tinha todo o direito de saber a verdade, e resolveu falar antes que fosse tarde:
Agora vou quebrar o juramento que fiz, e abrir-te o meu coração.
A verdade, Anita, é que eu sempre te amei!
Não foi um amor fraternal, o que foi nascendo dentro de mim à medida que te ia conhecendo e verificando que tinhas uma alma pura.

Anita estremeceu, como se tivesse sentido um choque. Fechou os olhos por momentos, saboreando aquelas palavras que lhe provocavam um calor interior, um bem-estar, uma paz como há muito tempo não sentia.

FIM DO EPISÓDIO XLIII

33 comentários:

Vicktor disse...

Querida Mariazita

Que estória esta, hem?

Afecto, ternura, amor.... sentimentos a que nos transportas com a leitura deste sentir de vida vivida que tanto me emociona.

Sempre grato te ficarei por momentos de leitura tão bonitos...

Beijinho.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Momentos de revelações*
A pior violência contra o ser humano é a psicológica. Pode ocasionar danos imensos, individuais e coletivos. Este é o princípio das devastações.
Ainda bem que Humberto manteve a chama do Amor, ainda que não correspondido, acesa.
Lindo demais, amiga*
Você faz e acontece*
Beijos admirativos Mariazita,

Francisco Sobreira disse...

Querida Maria,
Se você não tiver mais coelhos, tudo indica que essa história está perto do fim. Anita no leito do hospital, com poucas esperanças de vida, e, finalmente, o enteado confessando o seu amor por ela. Uma história bem escrita, com a capacidade de prender o leitor com atrativos que apareciam a cada episódio. Mas algo me diz que o final ainda vai reservar uma surpresa, menida danada. Aguardemos. Um beijo.

Fernanda disse...

Querida amiga Mariazita,

Volto para ler mais este capítulo emocionante, seguramente, da história da Anita.

Venho só agradecer-lhe do coração tudo o que faz pelos amigos.
Beijinho
Até logo,

Tite disse...

De segredo em segredo até... ao segredo final.

Continuo com a expectativa em alta.

Mariazita já levei o selinho que agradeço


Beijossssss e um Bom Domingo

Vitor Chuva disse...

Olá Mariazita!

Esta história faz-me lembrar aqueles bons filmes dramáticos do período neo-clássico Italiano: O enredo é denso, recheado de personagens complexas, com muitos sentimentos cruzados, revelaçoes bombásticas. A Anita, definitivamente,é um emaranhado de emoções e e sentimentos, personagem difícil de ler ou classificar- ou mesmo entender.
E só me resta ficar á espera; se há mais para contar, é porque alguma outra surpresa nos aguarda ...
Beijinhos.
Vitor

Meg disse...

Mariazita,

Esta história está cada vez mais surpreendente.
Admiro a forma como escreves e o suspense que nos fazes sentir.
Estará perto do fim, ou como disse alguém antes, ainda tens alguns coelhos?
Mais uma vez em suspense, então.

Obrigada pelo selo... já estou a arranjar espaço para mais este.

Beijo

Multiolhares disse...

Muitas revelações, vidas difíceis,vou aguardando o desfecho
beijinhos

Paula Raposo disse...

Como me arrepio quando leio cada capítulo!
Muitos beijos.

Luis disse...

Querida Mariazita,
Antes de comentar este post venho agradecer-lhe o seu selinho que já está na Tulha e dizer-lhe quanto apreciei o seu poema dedicado ao João.
Posto isto quero dizer-lhe que não acredito que a Anita não sobreviva à intervenção cirúrgica que se adivinha. Espero é mais surpresas que estas revelações venham a produzir! Será assim?
Um beijinho amigo.

Ana Martins disse...

Vicktor tem razão Mariazita, também eu fico emocionada com esta história da vida real e a forma como tão bem a narras.

Beijinhos,
Ana Martins

Táxi Pluvioso disse...

De facto, preservar-se do rancor e maldade depois do contacto humano (normal) é obra. A mim bastou-me não conseguir alugar um quarto, em Lisboa, por usar cabelo comprido e não vestir com propriedade, para ver as pessoas de outra forma. Cortei o cabelo e perdi o respeito por elas.

Pelos caminhos da vida. disse...

Desejo nesta semana pra vc amiga:


Paciência para as dificuldades
Tolerância para as diferencias
Benevolência para os equívocos
Misericórdias para os erros
Perdão para as ofensas
Equilibrios para os desejos
Sensatez para as escolhas
Sensibilidades para os olhos
Delicadezas para as palavras
Coragem para as provas
Fé para as conquistas
E amor para todas as ocasiões

beijooo.

Luis F disse...

Regressei ao teu mundo para ler mais um pouco da Anita e como sempre... parabéns (adorei)

Deixo uma onda suave...

"Não sou nada
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Com amizade
Bj
Luis Ferreira

Vicktor disse...

Querida Mariazita

Somente hoje venho buscar o selinho que amavelmente me queres entregar, pois só hoje o mereço... tenho estado algo atrasado nas respostas aos comentários amigos que me têm feito...

Beijinhos.

Canduxa disse...

Minha Querida,

Já de regresso de um fim-de-semana em Lisboa, em trabalho e comemorações, vim logo ler o novo capítulo de Anita. Humberto lá teve coragem para confessar o seu amor....que pena ser tão tarde. No entanto esse segredo, tão bem guardado, vai trazer paz a Anita e ela certamente irá usufruir de momentos lindos, antes da sua partida.

Um abraço apertadinho e cheio de saudades da tua manita

com senso disse...

Amiga Mariazita

Lindíssimo este momento... De ficar sem palavras! Que previlégio poder apreciar um texto magnífico como este.
Um beijinho com muita amizade.

Fernanda disse...

Querida Mariazita,

Estamos perante revelações emocionantes, numa altura em que Anita pode estar a chegar ao fim da sua vida.

O que virá mais por aí???
Fico apreensiva e expectante!

Beijinhos

Laila Braga disse...

Muito tempo sem vim aqui... Acho que tenho leituras pra por em dia... ^^

Zé do Cão disse...

Mariazita.

Estamos todos na expectativa...
bj

poetaeusou . . . disse...

*
a saga da sensibilidade,
continua . . .
,
obrigado,
,
conchinhas,
,
*

Su disse...

Hummm... às vezes a violência psicológica é pior do que a física... se todos os pais pudessem perceber o quanto eles podem prejudicar seus filhos, seríamos adultos melhores...

bjos!

Maria João disse...

Mariazita...

Mais uma página... esta, a das revelações. Nada que não nos tivesses dado já a adivinhar. Fica a incerteza do que farão agora os dois com estas verdades, com a revelação dos sentimentos há muito velados. O tempo talvez escasseie, ou talvez não.. Mas algo importante aconteceu, é que quando as pessoas se revelam totalmente no que sentem, aproximam-se mais e neste caminho, também se libertam com a serenidade de quem aceita melhor tudo o que possa acontecer.

Beijinho minha amiga, mais um excelente capítulo

Angela Ladeiro disse...

Mais uma estória para pensar...um mundo tão difícil para muitos e que eu tenho dificuldade em entender... Por sorte, uma vida de poucas mágoas. Tenho de voltar a agradecer... Um beijo e parabéns à escritora.

Zé do Cão disse...

bj.

JADY*ALVES disse...

Vim te trazer meu beijinho e deixar minhas pegadas de carinhos na tua casinha quentinha e repleta de Místérios rss
Com Anita você e eu, a saga continua ... rss
Tenho q sair minha net ta dando pane ai ai ai.
Xau amiguita que eu amo.

Beijos ternos da Jady

Desnuda disse...

Mariazitaaaaaaaaaaaa! Anita esboçou, acho, os mesmos trejeitos que nós, leitores, em algumas passagens. Acho que ele quis compensar esta falha dedicando extrema afeição a filha de Anita e a compreendendo. Mas a revelação do amor de Humberto foi DEMAISSSSSSSSSS! Humberto e Anita são duas pessoas especiais. Diria que almas gêmeas. E fico aqui ansiosaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!


Um super beijo, bonitaaaaaaaaaa!

mundo azul disse...

_________________________________


Perdi um pouco da sua história, minha amiga...Ando um pouco afastada, estou em férias...


Beijos de luz e o meu especial carinho!!!

__________________________________

Zé do Cão disse...

O jinho, foi só para confirmar que ainda estou vivo.

Em baixo é certo, mas ainda "estrabucho".
Ando numa azáfama e passei a correr.

Jinho (corrido)ahahah...(mas com amizade, muita)

São disse...

Grande estória...
Bom fim de semana, com pouca chuva,nena.

Daniel Costa disse...

Marazita

Acompanhado a história notava-se a evidencia de Humberto amar a Anita. Como cavalheiro,sem deixar de dar entender nunca marcou o seu campo, mas ficou sempre amigo.
Segue no próximo capítulo!...
Postei VAMOS LIMPAR PORTUGAL no selinhos e no muitalaia, ainda não consegui postar na faixa do milagre.
Beijos
Daniel

Pena disse...

Doce Amiga:
Escreve brilhante e perfeitamente.
De maravilhar.
Uma narrativa que se segue com apurado interesse pelo requinte e talento seus postos à prova a cada instante que passa na sua fabulosa História.
A Palavra mágica que tudo preenche é: AMOR! Com ela abrem-se horizontes, do mais secreto e misterioso sabor, que as pessoas podem possuir e não concebem esconder mais.
Extraordinária. Adorei.
Beijinhos amigos de parabéns sinceros, pela linda e fantástica escritora que é.
Sempre a respeitá-la e a admirá-la

pena


Excelente, amiga de sonho!
Bem-Haja, pelo especial encanto que possui e transmite numa partilha deliciosa e envolvente.

Sandra disse...

Amigos, não são esquecidos. Por isso vim até aqui lhe oferecer um lindo selinho
Retribuindo o seu carinho e deixando um selinho para vc.
Amada!
Venho lhe oferecer um lindo selinho.
Mulheres poderosas somos. Por isso vamos comemorar.
Espero que goste...
http://sandraandrade7.blogspot.com/
Com muito carinho te espero lá.
Sandra