domingo, 1 de novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXIII

(Ficção baseada em factos reais)

Tantas vezes a ameaça foi repetida que Vicente acabou por se convencer. Mas lembrou a Anita que, antes disso, era urgente arranjar uma escola para a sua menina, assim como tratar da ida de Tiago para Inglaterra..

FIM DO.EPISÓDIO XXXII
EPISÓDIO XXXIII

Anita tratou de tudo que era necessário, já que Vicente se cansava muito andando a pé dum lado para outro.
Os amigos foram incansáveis. Sabendo do seu precário estado de saúde, levaram-no a percorrer, de carro, a capital que ele já mal reconhecia, ao fim de tantos anos de ausência.
Sabendo que brevemente Vicente iria submeter-se a exames que poderiam, eventualmente, implicar o seu internamento, revezavam-se e, todos os dias, o levavam a dar grandes passeios, mostrando-lhe as novidades que havia na cidade.
O verão aproximava-se do fim, assim como as férias escolares. Era chegada a altura de Tiago viajar para Inglaterra, onde o esperava o irmão, Humberto.
Mais uma despedida na vida de Anita, esta talvez a mais dolorosa de todas.
Para Tiago também não foi nada fácil, pois nunca se separara da Mãe e da irmã, desde que nascera. Mais fácil foi despedir-se do Pai, com quem nunca tivera grande afinidade.
Mas como era já um homenzinho, teria que comportar-se como tal…Engoliu todas as lágrimas que conseguiu, mas muitas lhe correram pelo rosto.
Só a ideia de que viria passar as férias com a família aliviou um pouco a sua dor.

O, relativamente curto, tempo de viagem mal chegou para se recompor, e ao chegar junto do irmão ainda mantinha um aspecto profundamente triste.
A Natureza se encarregou de fazer o seu trabalho, e, à medida que os dias passavam e aumentavam os afazeres relacionados com os seus estudos, a tristeza foi desaparecendo, e Tiago acabou por adaptar-se à sua nova vida.

Entretanto, na capital, Anita descobrira um colégio óptimo para Eduarda, ao qual ela se adaptou facilmente, e onde permaneceu estudando até ao seu ingresso na Universidade.
Grande parte do primeiro ano após a chegada ao Continente foi passado entre médicos, análises, exames de todo o género. Os médicos tinham dificuldade em chegar a uma conclusão porque os resultados dos exames apontavam em várias direcções, levando-os a pôr a hipótese de Vicente sofrer de alguma doença rara desconhecida.

Finalmente, reunidas as equipas médicas, concluíram tratar-se de “Paralisia Supra nuclear Progressiva”, uma das mais raras formas de Parkinsonismo, em que não se verificam os habituais “tremores” dos doentes de Parkinson, mas em que todos os outros efeitos vêm a manifestar-se, à medida que a doença vai avançando. Trata-se de uma doença degenerativa rara, que envolve a deterioração progressiva e morte de áreas seleccionadas do cérebro, e que afecta cerca de 6 em cada 100.000 pessoas.

Eduarda reagia muito mal à doença do pai. O amor que por ele nutria quase raiava a idolatria; não se conformava que ele sofresse de uma doença incurável, que progressivamente o iria consumindo, até um fim inevitável, a médio ou curto prazo.

Anita dedicou-se por inteiro a cuidar do marido que, a cada dia que passava, se tornava mais dependente. Decorridos dois anos Vicente deixou de poder controlar os mais ligeiros movimentos; Anita tinha que dar-lhe a comida na boca, e ajudá-lo a segurar no copo, que ele teimava em querer agarrar com as suas próprias mãos.
Chegou o dia em que Anita não podia mais tratar do marido. A conselho médico internou-o na clínica onde lhe fora diagnosticada a doença.
Todos os dias ia visitá-lo e passava as tardes com ele.
Eduarda, logo que saía das aulas, corria para a clínica, passando junto do pai todo o tempo disponível.
A situação agravava-se a olhos vistos. Vicente já não conseguia falar, limitando-se a olhar, insistentemente, para Anita, e especialmente para Eduarda, que passava todo o tempo segurando a mão do pai.

Uns dias depois o médico informou Anita de que o marido tinha poucos dias de vida.
A partir desse momento Eduarda não mais deixou a clínica.
Faltou às aulas, dormia no quarto do pai, onde Anita também pernoitava, e não mais o abandonou até ao último suspiro.
Quando Vicente, finalmente, iniciou a grande viagem, Eduarda sentiu uma dor tão grande que lhe parecia que não conseguiria suportá-la.



FIM DO EPISÓDIO XXXIII

25 comentários:

Fenix disse...

Que descanse em paz.
Ao menos deixou de sofrer.
Os vivos... esses ainda sofrerão durante muito tempo. É essa a lei da vida...

Beijinhos
São

Paula Raposo disse...

A realidade é esta mesmo...beijos.

Zé do Cão disse...

Tudo tem um fim. Só que há quem sofra muito mais do que outros.

Beijokitas
Mariazinha. Que coisa é esta que o anónimo quis dizer?
Santa ignorância a minha...

Meg disse...

Mariazita,

Como sempre, apesar de anunciada, partida é sempre um momento didícil de superar.
É a lei da vida, aqui muito bem contada.

Beijinho

Fernanda disse...

Querida Mariazita,

É a primeira vez que leio uma história sua, escrita por si.
Mias vale tarde do que nunca, não é mesmo???

Adorei, apesar do fim triste, mas já digamos que anunciado.
Quero mais...

Beijinhos

Ana Martins disse...

Mariazita,
adivinhava-se este desfecho, mas o fim é sempre triste.
Aguardo o próximo episódio que não posso perder, pois esta história à muito que me apaixonou!

Beijinhos,
Ana Martins

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Bom Dia!
Apesar do triste desfecho, acho que a Mariazita não nos deixará muito tempo tristes :)
Não que eu fique, estou alegre e com energia :)
Beijos e abraços, amiga!
Boa Feriado,
Renata

Francisco Sobreira disse...

Pois é , querida Maria. Vicente se foi. Com Anita viúva, ela estará livre para casar com outro. Quem será? Ficamos na expectativa. Mas agora me ocorreu como reagirá a filha de Anita, que amava tanto o suposto pai, quando isso ocorrer. Um beijo.

Fernanda disse...

Querida Mariazita,

Muito obrigada pela visita à minha casa e pelos elogios tecidos.
Vá mesmo à Quinta da Aveleda, vale a pena, garanto-lhe.

Quanto ao facto de dizer que nunca tinha lido nenhuma história sua é a pura verdade, não que não as tenha escrito, mas porque eu não frequentava o seu Blogue, só isso.
Como lhe disse adorei a história da Anita e voltarei para ler mais.

elvira carvalho disse...

Por muito anunciado que seja, e ainda que para quem vai seja um alívio ao sofrimento, para quem fica a dor é sempre muito grande.
Um abraço

Desnuda disse...

Nossa...Foi comovente este capítulo do início ao fim, amiga. E interessante o fato do filho de Vicente não ter tanta afinidade com ele ao contrário da filha de Anita e do padre. Mais emoções fortes virão, certamente.


Grande beijo, querida amiga! E linda semana!

Maria João disse...

Querida amiga...

A dor e o luto que preenche os nossos dias quando alguém nos deixa é algo imensurável. A vida torna-se diferente, uma nova realidade tem de ser aceite, gradualmente, como se um novo dia estivesse para nascer sem que a fria noite queira ir embora.
Mas depois, tudo se recompõe, devagarinho... e a dor transforma-se em saudade e memória e tudo continuará.. porque o tempo não pára!

Um beijinho meu, com muito carinho

com senso disse...

Amiga Mariazita

A vida, na verdade, não é só feita de episódios de amores e desamores, de encontros e desencontros, também é feita de nascer e crescer, de envelhecer e de decadência, de todos e de cada um.
Aquele epíligo do "E viveram felizes para sempre" infelizmente tem um "sempre" muito relativo e temporário...
Esta é uma bela e completíssima história de vida.
Um beijinho com a

com senso disse...

a... de amizade!

Ana Martins disse...

Olá Mariazita,
hoje venho dizer-lhe que o seu blogue foi contemplado com o "Selo Blog Vip". Quando puder passe lá a levanta-lo.

Beijinhos,
Ana Martins

Luis disse...

A vida é assim! O Vicente deixou a Eduarda inconsolável com a sua morte e a Anita igualmente triste. Mas a vida continua e por isso fico aguardando a continuação do conto cuja narração me tem agarrado ainda que de certo modo com tristeza.
Lembrou-me a morte de meu Pai que muito me abalou.

Canduxa disse...

Querida Manita,

Partiu o Vicente, deixando Anita e Eduarda sozinhas... mas a dor vai passar e em breve vai aparecer uma nova oportunidade para Anita voltar a ser feliz.
A vida é assim mesmo!
Ficarei à espera dos próximos acontecimentos...

Meu abraço apertadinho, cheio de luz

Vicktor disse...

Querida Mariazita

Uma estória sentida a cada novo episódio no dramatismo da realidade da vida.

Comovente mas muito bem escrita.

Beijinhos.

Pena disse...

Admirável Amiga:
A sua narração é, numa só palavra: APAIXONANTE!
Uma escrita sublime num conteúdo delicado e sério que acaba em sofrimento e na morte do doente.
Aplaudo com uma vénia ao seu encanto pessoal e literário.
Extraordinários.
Sempre a estimá-la e a respeitá-la.
Com admiração num texto sublime.
Beijinhos puros de amizade.

pena

MUITO OBRIGADO pela simpática visita que adorei.
Seguirei o desenvolvimento do Conto atentamente.
Bem-Haja, fabulosa amiga.

Spectrum disse...

Olá Mariazinha! Eu li uma boa quantidade de texto; gostaria que entrasses em contacto comigo via e-mail para te responder às questões colocadas. O meu, está no perfil do blog. Fico a aguardar contacto. Beijinho, amiga!

Vitor Chuva disse...

Olá Mariazita!

Confesso que não me tinha dado conta de que esta história seria publicada neste seu segundo blog; esprerava por ela no "Histórias de Encantar".
Agora, após ter lido o que estava para trás,já posso comentar, para dizer que conseguiu "dar vida" a uma história triste, onde paradoxalmente, se relata o fim da mesma.

Um abraço!

Vitor chuva

São disse...

Há tanta forma de sofrer...


Minha linda, há uma hortense à espera que a tragas e a coloques na lapela deste teu espaço.

Obrigada, se me deres o gosto de a aceitares.

Uma noite pacífica.

Pelos caminhos da vida. disse...

Bom dia amiga.

Sabe aquele dia lindo,
cheio de coisas boas?

Poís é; este dia
que vim te desejar!

beijooo.

Daniel Costa disse...

Marizita

Avistei-te agora por acaso, devo ter perdido vários episódios da Anita, saga de que gosto, porque vejo ter perdido o fio à meada. Com a mente mais disponível virei ler para pôr o atrazado em dia.
Beijos
Daniel

Táxi Pluvioso disse...

Pois... a morte cura tudo.