quinta-feira, 2 de julho de 2009

PROVOCAÇÕES

PROVOCAÇÕES

Luís Fernando Veríssimo

A primeira provocação ele aguentou calado.
Na verdade gritou e esperneou.
Mas todos os bebés fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.
A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria! Não reclamou porque não era disso.
Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento.
Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.
Foram lhe provocando por toda a vida.
Não pôde ir à escola porque tinha de ajudar na roça.
Tudo bem. Gostava da roça.
Mas aí lhe tiraram a roça.
Na cidade, para onde teve de ir com a família, era provocação de tudo que era lado.
Resistiu a todas.
Morar em barraco.
Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar.
Ir para um barraco pior. Ficou firme.
Queria um emprego, só conseguiu um subemprego.
Queria casar, conseguiu uma submulher.
Tiveram subfilhos. Subnutridos.
Para conseguir ajuda, só entrando em fila.
E a ajuda não ajudava.
Estavam lhe provocando.
Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar p’ra roça.
Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.
Terra era o que não faltava. Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera.
Amanhã. No próximo ano. No próximo governo.
Concluiu que era provocação. Mais uma.
Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida.
Animou-se. Mobilizou-se. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir.
Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim.
Talvez amanhã. Talvez no próximo ano…
Então protestou.
Na décima milésima provocação, reagiu.
E ouviu, espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
- Violência, não!

15 comentários:

elvira carvalho disse...

Que texto forte amiga. Não conhecia, mas foi assim como levar um murro no estômago.
Um abraço e obrigada pela partilha

Alvaro Oliveira disse...

Olá MARIAZITA

NÃO HÁ DUVIDA ESTA POSTAGEM É SÓ
PROVOCAÇÕES SEM REACÇÕES.
E QUANDO REAGE!... OUVE FALAR,
VIOLENCIA NÃO...
NORMALMENTE É ASSIM, SE VÃO ACOMODANDO E ENQUANTO ISSO AS
PROVOCAÇÕES VÃO SURGINDO.

fAZ SENTIDO ESTA POSTAGEM.
O MEU APLAUSO!

UM BEIJO

ALVARO

Paula Raposo disse...

Um excelente texto!! Beijos.

Maria João disse...

Querida amiguinha

Pois devemos de tirar uma grande lição deste texto...
Nunca, por nunca devemos aceitar que nos provoquem. Ou respondemos, ou somos suficiêntemente fortes para que ela não nos chegue a fazer qualquer estrago.
"Amarfanhar" as provocações, é como esconder o lixo debaixo do tapete... mais tarde ou mais cedo será insuportável, mais cedo ou mais tarde a revolta terá um rosto e uma expressão... e nessa altura ninguém entenderá porquê!

Excelente a pertinência deste texto.

Um beijinho do tamanho do mundo com toda a amizade

Deusa Odoyá disse...

Olá minha linda amiga mariquinha.
Um texto de contextos verdadeiros.
Existindo as provoçações sem reações, como disse nosso ilustre amigo Alvaro.
Uma semana de muitas glórias e paz.
Beijinhos doces, amiga.
Regina Coeli.
Fique na paz...

Regina Coeli.

Carlos Rebola disse...

Mariazita

As coisas vão acontecendo devagarinho e porque parecem sem importância e não reagimos, condicionados pela "boa educação", quando a coisa se torna insuportável pelas pequenas coisas acumuladas, roubam-nos o grito que não demos quando ainda havia remédio, cortando-nos a garganta.
Este post remeteu-me para este poema de Vladimir Maiakovski

"Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada."

Beijinhos
Carlos Rebola

rouxinol de Bernardim disse...

Há que dar réplica sob pena d e ficarmos sempre na mó de baixo1...

elvira carvalho disse...

Dores na coluna são um grande problema. Desejo rápidas melhoras.
Quanto ao conto, é assim como a vida real. Muitas vezes os finais não são felizes, mas não deixam de acontecer.
Espero que não perca o interesse pelo que falta.
Um abraço e bom fim de semana

Ana Martins disse...

O texto é excelente sim Mariazita,
mas mais do que isso, o que me tocou verdadeiramente, é o facto de ele ser o retrato fiel da vida de muita gente.

Beijinhos,
Ana Martins

Desnuda disse...

Querida amiga, uma lamentável realidade, em especial neste Brasilzão com um território tão extenso... Os simples passam por isso. Mas há os que são levados a anarquia pela politica...De qualquer forma, lamentável. Um texto digno de ser lido por muitos para uma séria reflexão. Obrigada, mais uma vez, Mariazita!


Enorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrme beijo!

Sonia Schmorantz disse...

Um crescendo da violência, o outro lado de cada história...uma lição!
beijo e bom final de semana

Susana disse...

Cara Mariazita:
Obrigada por ter respondido ao meu convite. Tenho muita pena não poder participar, mas compreendo. Quem sabe numa próxima oportunidade!

Bjs Susana

Daniel Costa disse...

Mariazita

Estive na praia e abstive-me de PC's. Agora estou a retomar a actividade de que abuso (nada menos) de 12 sobre 12 horas.
Espero ver-te em forma e vim ver hoje o pos das "PROVOCAÇÕES".
de facto, pelo que se sabe, Luis Fernando Veríssimo, escreveu bem e parece que não se engana.
No Brasil não há classe média, essa será substituida por provocações, as mesmas que nos vem impondo, à força.
Beijinhos,
Daniel

Canduxa disse...

Querida manita

Sabes como sou...a uma provocação, antes de responder, eu tento sempre sentir porque ela surgiu. Depois de meditar vou com amor responder...
Talvez o meu desapego pelas coisas (está quase tudo incluído...) me ajude a compreender porque existem.
Como todos os dias peço para que a minha fé aumente, o Universo testa-me muitas vezes.

Mil beijinhos de luz

Táxi Pluvioso disse...

... e ainda vai aguentar o Sócrates ou a Ferreira Leite...