quinta-feira, 28 de maio de 2009

OS JUMENTINHOS

No corrente ano de 2009 comemora-se o centenário do nascimento de Dom Hélder Câmara, bispo católico e arcebispo de Olinda e Recife – BRASIL

Por se tratar de uma pessoa que merece ser recordada, irei publicando, de vez em quando, crónicas ou apontamentos que foram por ele escritas.

É de sua autoria o texto que hoje vos apresento.


OS JUMENTINHOS

Os jumentinhos, os jegues eram, são e serão imagem viva dos nordestinos...

Eles passavam — e nas cidades pequenas ainda passam — carregando lenha



para as casas sem fogão elétrico e sem fogão a gás.

Eles passavam — e nas cidades pequenascontinuam passando — carregando água




onde não há água encanada e onde falta, por vezes, até um poço, com motor e com torneira comunitária.

Eles passavam — e nas cidades pequenas sempre passarão — carregando carvão, carregando estrume, carregando tudo o que for preciso carregar.

Quando a seca aperta e falta capim, e falta milho, até com papel ele se alimenta.

Quando a família tem de partir, ele carrega a mãe de família e a criança de peito como fez com Nossa Senhora e o Menino Deus na fuga para o Egito. (São José caminhava a pé.)



Pensam que ele reclama quando inventaram agora que carne de jumento
dá dinheiro no estrangeiro?
De modo algum — ele não se julga melhor do que boi, nem vaca, nem bode, nem carneiro, nem ovelha, nem porco...

Ele só não quer ficar vivo longe do Ceará.
Fica doido quando chega a notícia de chuva e ele está longe.

Perguntei a um jumentinho se ele trocava o Ceará pelo Céu, caso Nossa Senhora, em agradecimento pela fuga para o Egito, obtivesse de seu filho e filho de Deus que um jumentinho tivesse entrada no Céu.
Ele me matou de vergonha, perguntando:
“Mas só gente e jumento no céu? E os outros animais, que todos, todos
foram criados por Deus?”
Foi mais longe e disse:
“Depois, mesmo com a seca, O Ceará parece um pedaço do céu”.


O destaque desta meditação, é a resposta do jumentinho, que não aceita injustiça de ele ter o privilégio de ser o único animal no céu...

Cuidado em não pensar só em si, esquecendo os outros.


Dom Héder Câmara
Do livro Um olhar sobre a cidade
JF, 19/08/1976


Dom Héder Câmara



Dom Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza a 7 de Fevereiro de 1909, e faleceu em Recife, a 27 de Agosto de 1999.

Foi um grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro; defendia uma igreja simples voltada para os pobres, e a não-violência.

Recebeu vários prémios nacionais e internacionais, e foi o único brasileiro a ser indicado quatro vezes para o Prémio Nobel da Paz

18 comentários:

Bertonie disse...

HAHA'
Achei phopho o texto com as imagens, afinal, sou do Nordeste, interior da Bahia amada. De fato, a tradição de manter os burros como transporte e amigos nunca morrerá - assim esperamos.
Pena que eu não me simpatize muito com a Igreja Católica. Há muita coisa que distorce a Palavra Cristã e seus dogmas nem sempre condizem com ela também. Rs...



beigos mil

Ana Martins disse...

Excelente este post Mariazita, e termina com uma profunda reflexão e lição de vida!

Beijinhos,
Ana Martins

Pelos caminhos da vida. disse...

Tem selinho nota 10 pra vc la no blog.

beijooo.

Moacy Cirne disse...

Hélder Câmara foi um humanista, antes de mais nada. Sua crônica dos jumentinhos, em boa bora lembrada por você, com sua singeleza, parece-me fiel à personalidade de um homem que dedicou parte de sua vida à causa dos pobres e dos humildes.

Um abraço.

Desnuda disse...

Mariazita voce é uma mulher com um enorme saber e sensibilidade....Como fiquei feliz em ver aqui um post sobre D. Helder Câmara! Só voce mesmo amiga! A minha admiração por este homem de Deus é enorme. E quando digo homem de Deus não é só pelos títulos religiosos, mas sobretudo, por ser realmente um homem a serviço de Deus por seu humanismo, saber , bondade e inumeras qualidades e benefícios voltados desde sempre para os mais necesitados. Os brasileirinhos carentes de tudo! Mas jamais esquecidos por este grande humanista em toda a sua vida.

Seus pensamentos, textos e poemas são lindos e com nobres reflexões.

"As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Levo-as no coração."

Dom Hélder Câmara

Esta frase define quem foi este grande humanista.


Obrigada e um enoemeeeeeeeeeeeeee beijo, amiga! Obrigada.

Zé do Cão disse...

Mariazita. O meu proximo poste e a sair na Segunda-feira, chamar-se-á
O Burro do Peixeiro.

Afinal o Peixeiro é que foi burro.

Beijocas

Ricardo Calmon disse...

Belo post esse,tributando o inesquecível Don Helder Câmara,convivi com seu falecido irmão aquiem Ipanema Rio de Janeiro,e muito com ele aprendi,na TV Tupu canal 6 do Rio de Janeiro e na Arquidiocese do Rio de Janeiro,MEU MESTRE!

Viva a Vida!

paz e bem!

Maria João disse...

Amiguinha

Passei por aqui, para te dar um beijinho de boa noite...
Virei depois para escrever sobre este teu post. Hoje, até os dedos estão cansados :-)

Beijinhos

Alvaro Oliveira disse...

Mariazita

achei muito engraçado este texto.
No entanto maior surpresa é sem
qualquer dúvida a pergunta do
jumentinho.
E dizem que jumento não é inteligente?

Um beijo

Alvaro

JADY*ALVES disse...

Boa noite meu anjo!
Perdoe a demora em visitá-la, a vida as vezes parece que caminha tão rápida, que não sobra tempo pra distribuir carinhos.
Demoro mas, venho sim viu?
Agora quanto a postagem...
Que texto mais gracioso minha amiga.
E que alma pura a desse apóstolo de Cristo.
Embora minha religião seja outra, minha simpatia por Don Elder.
E meu carinhoso abraço por você minha amiguinha linda de alma e coração.
Boa noite com os sonhos mais lindos pra você!
Abraços e carinhos da jady

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

É uma parábola cujo desfecho diz a que veio: o respeito ao outro. Dom Hélder escrevia textos muitos interessantes, em nada desprezíveis. Faz falta.
Querida Mariazita:
Postei no GALERIA sobre uma comédia com final surpreendente. Você também se surpreenderá com o tamanho do post, bem menor do que os anteriores, e só com algo mais a ler: um poema meu.
Conto com você.
Um abraço,
Renata

Francisco Sobreira disse...

Querida Maria,
Oportuna homenagem você presta a Hélder Câmara, que é do mesmo estado em que nasci, o Ceará. Não conheço nenhum texto desse grande homem, perseguido pela Ditadura Militar. Um texto de uma simplicidade comovedora, bem à forma de viver do seu autor. Beijinhos.

Moacy Cirne disse...

Um pequeno "convite", minha cara: o Balaio de hoje - sexta, dia 29 - pode levá-la a uma jóia da música brasileira, caso for do seu interesse. Aliás, a minha ideia, é aproveitar as sextas para divulgar a música brasileira de boa qualidade. Desculpe-me pelo "comercial", mas...

Um beijo.

Táxi Pluvioso disse...

Pior foi que os jumentos têm servido para enriquecer igrejas e dar boa vida aos bispos. Eu, pela minha parte, só tenho pena de não ter lábia para enganar os outros e fundar uma igreja. bfds

Meg disse...

Mariazita,

Já cá passei, mas só hoje vim ler com toda a atenção o teu post.
Dom Helder Câmara é um exemplo que devia ser seguido por muitos dos que se dizem membros do clero.
Como ele, só conheci, em África, os padres franciscanos.
E a história dos "jeques" revela a simplicidade e o humanismo a que se refere o Moacy.
Por isso, acho muito oportuna a homenagem que prestas a um grande Homem, a um grande Ser Humano.

E seguirei com todo o interesse tudo o que sobre Dom Helder Câmara publicares.

Um bom fim de semana para ti, Mariazita!

Um beijo

elvira carvalho disse...

Gostei do texto. Para reflectir. Meu avô tinha um jumento, que carregava o ferro velho que ele vendia. Tinha um nome curioso. Chamava-se "Tem Dias"
Um abraço e desejos de um óptimo fim de semana.

Sonia Schmorantz disse...

Decore sua alma ,
da forma mais linda que souber,
com uma poesia que lhe toque o coração,
para que na sua mudez, seja feliz,
pois alma que é, será sempre sua,
sem que ninguém no mundo a tire de você.
(Eda Carneiro da Rocha)

Desejo a você um maravilhoso final de semana,
Com muita paz e carinho.

Sônia

Nadir Maria disse...

Não sei se é a sensibilidade de D. Helder da Câmara, se a sensibilidade de quem o recordou e pelo que li aqui, um grande humanista que as palavras demonstram.
Sim que recordar é fazer que alguém que não conheceu, aprenda ou conheça ou então reviva o passado.
Está ternurento o texto e deve reflectir a personalidade de quem o escreveu.
Não tenho aparecido, mas quando entro nesta casa, há algo que nos toca e quando saio vou mais rico.
Obrigada Mariazita.