quinta-feira, 29 de maio de 2008

OLHA O OLHO DA MENINA

Com o aproximar do Dia Mundial da Criança, a 01 de Junho, proponho um aperitivo.
Com um texto leve, até jovial, mas de grande profundidade, Marisa Prado aponta-nos algumas dificuldades, não só do cescimento, mas também do “ser adulto”.

OLHA O OLHO DA MENINA
Menina crescia escutando que não adiantava mentir porque mãe sempre sabia



Mãe dizia que lia na testa da Menina, e que só Mãe sabia ler testa.




Menina tentava tapar a testa com a mão na hora de mentir.

Mãe achava graça. Muita graça. E continuava lendo assim mesmo.

Menina precisava entender como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro, mentia muito, em silêncio.
E na testa, nada escrito!





Aí, Menina descobriu que Mãe também mentia.
E que então não era testa - era o olho, com um brilho diferente - que entregava a mentira.

Menina então tentava fechar o olho com força, para esconder a Mentira.



Mas nem isso resolvia, pois Mãe sempre adivinhava.

Menina tinha era que aprender a fingir, de olho aberto, que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou... e aprendeu.
Era essa a solução.

Mas de noite Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada, não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto, não conseguia dormir.



Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica quase sem respirar, rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.

Menina - sem querer - tinha descoberto a Consciência, uma coisa que toma conta da gente mesmo quando Mãe não está lendo testa,
nem adivinhando olho.



Menina tinha aprendido que ter que fingir doía.
E que, desse jeito, ia ficar muito sem graça ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.

Mas não adiantava.
Menina via que agora já estava quase da altura do móvel da sala da vovó.



E ficava muito triste, o aperto apertando mais.

E de tanto que o aperto apertava, Menina achou que fingir só podia doer tanto porque era dor sozinha.

Menina teve uma idéia, e ainda não sabia se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim - que precisava testar, pra conseguir descobrir.



A idéia da Menina foi dizer para Mãe que era difícil fingir.
Menina achava ruim aprender montes de coisas sem dividir com ninguém.

Menina falou pra Mãe que era muito complicado, e que não era nada bom, ter que crescer sozinha.

Mãe abraçou muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado Menina estava sendo mãe da Mãe.




Menina sentiu que Mãe estava chorando.
E que Mãe ainda não tinha aprendido tudo.

Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam naquele abraço apertado que em Mãe também doía ser gente grande sozinha.



Nessa hora Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida, fica dor menos doída.

E que aí, dá até vontade de continuar a crescer pra descobrir
o resto das coisas.




Autores:
Texto – Marisa Prado
Imagens - Ziraldo

domingo, 25 de maio de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – FALAR PORTUGUÊS


(No meu jardim)


FALAR PORTUGUÊS - Nós é que os ensinámos

Uns dias melhor, outros pior, o tempo vai-se passando, nesta cidade que poderia ser o paraíso.
Há até um simpático impala que diversas vezes vem visitar o meu jardim. Caminha calmamente. Através da janela aberta olha para dentro da sala. Em seguida examina o jardim. Terminada a inspecção retira-se tão tranquilamente como chegou.
Contudo, temos sempre presente o que se passa lá para o norte, na chamada «zona de intervenção».
Mas, entre um e outro sobressalto, a vida continua, e todos temos deveres a cumprir.
Lá mais para o sul há empregadas domésticas, mulheres que vão trabalhar às casas dos “brancos”
Aqui, não. São homens que fazem esses serviços. A troco de um salário estabelecido e comida, às vezes também dormida, executam as tarefas domésticas que normalmente são atribuídas às mulheres: cozinham, lavam e engomam a roupa, limpam a casa.
São homens adultos, muitas vezes casados, ou jovens que rondam os vinte anos.
Há casos em que se tem um adulto para cozinhar e tratar das roupas, e um mais jovem para limpar a casa.
Há ainda uns garotos, (normalmente rapazes, embora por vezes apareçam meninas), que muitas vezes nos batem à porta perguntando:
Senhora precisa miúdo?
São meninos pobres que não têm o que comer em suas casas, e bem cedo começam a lutar pela subsistência.
Dá-se-lhes comida, dormida e roupas (geralmente só têm a que trazem no corpo, e em muito mau estado), e, em troca, eles brincam com as nossas crianças, vigiando para que nada de mal lhes aconteça. São crianças sombras de crianças. Só se vão deitar depois que os meninos vão para a cama, o que, aqui, acontece bastante cedo.
Todos falam português. Os “miúdos”, por vezes não sabem muito, mas é o bastante para se fazerem entender. E como a linguagem das crianças é universal, conseguem estabelecer longas conversas com as nossas crianças, nas suas brincadeiras.
Na minha casa, para além do miúdo, há um cozinheiro e um rapaz, o Albino, que trata da limpeza da casa.
Não sei bem a idade de um e de outro. Não é nada fácil calcular. (Tratando-se de pessoas bem avançadas na idade, já de carapinha branca, torna-se ainda mais difícil. E se perguntamos a uma dessas pessoas quantos anos tem, a resposta é sempre:
Não sei, senhora. Tenho muitos!)
O Albino aparenta dezoito a vinte anos. É um rapaz já com prática de trabalho, que me foi recomendado por uma amiga.
Cumpridor dos seus deveres, pouco falador, vai desempenhando bem as suas funções.
Embora fale o indispensável de português para se fazer entender, por vezes não compreende muito bem o que se lhe diz.
Há dias estávamos a almoçar e eu pedi-lhe que fosse buscar água ao frigorífico, pois tinha-se esquecido de a pôr mesa. Dirigiu-se à cozinha, ouvi-o abrir a porta do frigorífico, mas não aparecia com a água. Depois de esperar uns minutos, chamei-o. Apresentou-se sem nada nas mãos. Perguntei-lhe:
Então???
Respondeu-me: não encontro, senhora.
Não encontras o quê???
Não sabe, senhora…
Calculo que fosse bastante difícil encontrar uma coisa que ele próprio não sabia o que era !...

Cenas como esta acontecem de vez em quando. Nós ensinámos-lhes a nossa língua, mas não todas as palavras, com certeza. No entanto há certos vocábulos que toda a gente aprende muito facilmente.
Todos os dias, a meio da manhã, o Albino me pede para ir tratar das suas necessidades fisiológicas.
Senhora, pode ir no mato?
Podes sim, vai lá no mato.
E ele vai. E volta.
Um dia o Albino “foi no mato” mas, contra o costume, demorou-se muito tempo. Eu já pensava: encontrou algum conhecido e ficou à conversa. Quando finalmente apareceu, achei que deveria fazer-lhe um reparo:
Meu Deus, Albino, demoraste tanto tempo para ir no mato!
Resposta pronta:
Senhora, não pode ir ca**r aqui no pé de casa !
Engoli em seco, e dei a conversa por terminada.

Quando o Albino veio para minha casa eu não sabia praticamente nada a seu respeito, a não ser que era de confiança. E tanto me bastava. Cerca de um mês depois de estar ao meu serviço, um dia resolvi meter conversa com ele, e perguntei-lhe:
Albino, tu és casado?
Não, senhora, ainda sou menino.
E porque não te casas?
Porque as mulheres da cidade são todas p****.

Também desta vez engoli em seco, e encerrei o assunto.
E jurei a mim mesma não voltar a fazer perguntas indiscretas!

Eles apenas repetem as palavras que lhes ensinámos.

Este é mais um dos apontamentos que temos vindo e continuaremos a apresentar, subordinados ao mesmo tema – África
Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo nem no espaço.
O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

POETAS AFRICANOS – 2

No post com este mesmo título, em 24 de Fevereiro, apresentei o poeta Juvenal Bucuane, natural de Moçambique.

Para assinalar o “Dia de África”, que hoje se comemora, dou-vos a conhecer Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr)


Nascido em Inhambane, Moçambique, a 14 de Março de 1964, publicou os seus primeiros poemas em 1987, na sua terra natal, onde exerce a profissão de professor de português.

De sua autoria, estes dois poemas:



NO JARDIM DA NOITE COM ESTRELAS DE VERÃO

(página 26)

Agora órfão ou castrado
perdoadas estão as naus de da Gama
e contemplo só estrelas e flores onde tragava
a humilhação e o chicote do patrão.

Vasculho as ruas da cidade
na procura do subterfúgio a nu.
É inevitável o retorno,
haverá fantasmas em meu redor.
Há micaias em meu corpo
que deflagram como minas
cansadas dos silêncios

Quando sonho alegrias
acendo uma vela no peito
sobre o castiçal do coração
e volto a desaguar na escuridão
e apalpo e amarfanho a agonia
no dorso da noite.
Porém não tenho armas
para falar de amor.

É esta a loucura da minha intenção




POR UMA SEREIA DE TREVA

(página 16)

Sem segredos, melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois.
E como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos

Empresta-me a tua máscara, quero saborear
esta melodia, ter nos olhos a cor.
E antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco;
talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas

Sem segredos, melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte.


Do livro “O agora e o depois das coisas” (1990-1992), publicado em 1997 – edição da AEMO

quinta-feira, 22 de maio de 2008

DIA DA ASCENSÃO

Dia da Ascensão, do Corpo de Deus ou Quinta feira da Espiga, três nomes diferentes para o mesmo dia, que se celebra na quinta feira a seguir ao Domingo de Pentecostes.
Segundo a religião católica o Dia da Ascensão comemora a ascensão de Jesus ao céu, depois de ter sido crucificado e ter ressuscitado, o que se celebra na Páscoa. Encerra-se assim um ciclo de quarenta dias.
Também para os católicos, a festa mundial do Corpo de Deus, para celebrar a Ressurreição, foi decretada em 1264, pelo papa Urbano IV.
A procissão do Corpo de Deus teve início em Colónia, Alemanha, em 1270, e mantém-se até aos dias de hoje.



(Procissão do Corpo de Deus, Alemanha, 2005)

Sendo Portugal um país tradicionalmente católico, nos dias de hoje não é dado grande relevo a esta procissão, excepção feita a uma freguesia de Póvoa de Varzim, Rates, em que assumem particular importância os tapetes de flores que ornamentam as ruas e atraiem a curiosidade de turistas.



(Tapete de flores em Rates, Póvoa de Varzim)

Neste dia celebra-se igualmente o Dia da Espiga ou Quinta feira da Espiga.
Acredita-se que esta celebração terá tido origem num antigo ritual cristão, que consistia na bênção dos primeiros frutos. Há, porém, quem defenda que remonta a tempos ainda mais antigos, em que se realizavam festas pagãs em honra da deusa Flora, os quais ocorriam no início da Primavera.
Em Portugal cada dia se torna mais raro o bonito ritual em que os rapazes e as raparigas iam para o campo apanhar a espiga e flores campestres, com as quais formavam ramos que depois eram oferecidos e conservados em casa até ao ano seguinte.
Esses ramos, obrigatoriamente, deveriam conter:
- A espiga – para que haja pão, o que significa comida em abundância
- Oliveira – símbolo de paz
- Flores – pelas suas cores simbolizando alegria e também:
Malmequer, que traz ouro e prata,
Papoila, amor e vida,
Alecrim, saúde e força.

Hoje em dia, principalmente nas grandes cidades, as pessoas já não vão colher o Ramo da Espiga, optando por comprá-lo.
Deste modo o negócio vai ajudando a manter e preservar a tradição.




Na Ilha Terceira, Açores, decorrem, durante o mês de Maio, as festas do Senhor Santo Cristo, nas quais está também incluída a celebração do Corpo de Deus.
Uma nota marcante destes festejos são as célebres «largadas de toiros à corda», um dos maiores atractivos para a população local e turistas, que a elas acorrem em grande número.
O ambiente é festivo, e as cenas que frequentemente se verificam , bastante cómicas, não se revestem de grande perigo, dada a mansidão dos toiros.
Não há notícia de que alguma vez tenha ocorrido algum acidente grave; apenas uma ou outra cornada.
Divirta-se com estas pequenas amostras.







domingo, 18 de maio de 2008

GENERALIZAR A AVALIAÇÃO

Ontem os professores foram de novo para a rua. O número de pessoas a manifestar-se não foi significativo, se comparado com a última manifestação, que envolveu cerca de 100 mil.
Serviu, no entanto, para chamar a atenção do público em geral para o facto de os seus problemas continuarem sem solução.
Os próprios sindicatos reconhecem que o Acordo assinada entre eles e o ministério foi apenas uma pequenina gota de água no oceano.
Os menos atentos ou “menos bem” informados poderão pensar que o que está em causa é apenas a questão da Avaliação.
Após a “grande manifestação” ouvi várias opiniões de que a mesma se deveria ter realizado quando saiu o novo Estatuto da Carreira Docente.
E aí é que está, de facto, a razão das verdadeiras reivindicações.
Mas por agora vamos deixar de parte estes considerandos, e limitar-nos a apreciar o que, a respeito da Avaliação, pensa alguém que quis manter o anonimato.
Recebi por email, com pedido de publicação.

GENERALIZAR A AVALIAÇÃO

Segundo notícias que ontem mesmo ouvi na TV, esperam-se novas acções dos profissionais da Educação. Convém analisar o assunto sob todas as vertentes.

Já que muitos jornalistas e comentadores defendem e compreendem o modelo proposto para a avaliação dos docentes, estranho que, por analogia, não tenham pensado aplicá-lo também a outras profissões (médicos, enfermeiros, juízes, etc.).
Se é suposto compreenderem o que está em causa e as outras virtualidades deste modelo, vamos imaginar a sua aplicação a uma outra profissão: os médicos.
A carreira seria dividida em duas: médico titular (a que apenas um terço dos profissionais poderia aspirar) e médico.
A avaliação seria feita pelos pares e pelo director de serviços. Assim, o médico titular teria de assistir a três sessões de consultas, por ano, dos seus subordinados, verificar o diagnóstico, tratamento e prescrição de todos os pacientes observados. Avaliaria também um portefólio com o registo de todos os doentes a cargo do médico a avaliar, com todos os planos de acção, tratamentos e respectiva análise relativa aos pacientes.
O médico teria de estabelecer, anualmente, os seus objectivos: doentes a tratar, a curar, etc. A morte de qualquer paciente, ainda que por razões alheias à acção médica, seria penalizadora para o clínico, bem como todos os casos de insucesso na cura, ainda que grande parte dos doentes sofresse de doença incurável ou terminal. Seriam avaliados da mesma forma todos os clínicos, quer a sua especialidade fosse oncologia, nefrologia ou cirurgia estética.
Poder-se-ia estabelecer a analogia completa, mas penso que os nossos “especialistas” na área da educação não terão dificuldade em levar o exercício até ao fim.
A questão é saber se consideram aceitável o modelo.
Caso a resposta seja afirmativa, então porque não aplicar o mesmo, tão virtuoso, a todas as profissões?

Sem autoria atribuída

Veja, a seguir, a opinião de Fernanda Velez


E porque é Domingo, terminemos com uma bela canção




quinta-feira, 15 de maio de 2008

A NUDEZ

Num dia chuvoso como o de hoje, que não favorece a imaginação de quem, como eu, ama o sol e dias luminosos, resolvi provocar a musa inspiradora, remexendo em velhos arquivos.
Foi assim que me deparei com um apontamento sobre o fotógrafo Spencer Tunic, americano, natural de Nova Iorque.
Depois de se formar em Belas Artes especializou-se em fotografar grandes grupos de pessoas nuas, a que dá o nome de «paisagens de corpos».
Realizou trabalhos em várias partes do mundo; mas foi em Barcelona que reuniu o maior número de pessoas que se despiram para o artista – 7.000 pessoas.
Em 18 de Agosto de 2007, no seu último trabalho, fotografou 600 pessoas nos Alpes suíços, a pedido do grupo ambientalista internacional Greenpeace, para uma campanha de consciencialização sobre o aquecimento global



Achei extraordinária esta ideia do Greenpeace de associar um grupo de pessoas nuas ao grave problema do aquecimento global, que exige tomada de medidas urgentes.

A utilização da nudez como forma de atingir um determinado objectivo não é inédita.
Já no século XI uma mulher usou a sua nudez com um intuito altruísta - ajudar o seu povo a livrar-se de insuportáveis impostos.
É o caso de Lady Godiva.

Mas…será verdade que existiu uma Lady Godiva?
E será verdade que cavalgou nua pelas ruas de Coventry?


Lady Godiva de John Collier, ca 1897

Existiu, sem margem para dúvidas, uma Lady Godiva, casada com Leofric, um barão que viveu durante os reinados de Canuto e Eduardo, o Confessor, no século XI.
Os corpos de Lady Godiva e de Leofric encontram-se sepultados na Igreja da Abadia de Coventry, na Grã-Bretanha.

Segundo dados históricos, Leofric lançou um pesado imposto à cidade, que até a própria esposa considerou elevado.
Resolvendo interceder pelo povo, ela pediu-lhe para o retirar.
Considerando a ideia absurda, Leofric gracejou, respondendo que o faria quando ela cavalgasse nua pelas ruas da cidade.
Lady Godiva aceitou o desafio.
Tendo tomado disto conhecimento, todos os habitantes da cidade se recolheram a suas casas, em sinal de respeito. Desse modo ninguém viu Lady Godiva no seu passeio.
Houve, contudo, uma excepção: um homem chamado Peeping Tom aguardou a p assagem de Lady Godiva.
Como consequência desse acto irreflectido, por intervenção celestial, ficou cego para o resto da vida.

Embora não existam fundamentos sólidos que confirmem esta história, também não h á bases que permitam negá-la.
A lenda foi contada, pela primeira vez, pelo Prior de Wendover, célebre cronista inglês, falecido em 1236.
Alguns historiadores defendem que o prior interpretou mal a história, e que a alusão à nudez de Lady Godiva se referia a ela ter-se despojado dos seus bens.
Outros, interpretam essa nudez como a falta de adereços e jóias preciosas, marca d a nobreza à qual pertencia.
Outros ainda pensam que quem estava nu era o cavalo que ela montava, que se teria apresentado desprovido de todos os panejamentos, atributos da classe a que ela pertencia, que assim se humilhava, levando-a a ganhar a aposta que Leofric lhe lançara.

Na história inicial não existe qualquer referência ao personagem Peeping Tom. Este só foi introduzido vários séculos mais tarde .

O certo é que ainda hoje há uma celebração em honra de Lady Godiva, que foi instituída no dia 31 de Maio de 1678.
De 1980 em diante, Pru Poretta, uma habitante de Coventry City, figura como Lady Godiva, para atrair turistas às festas do Município.
Desde 2005 Poretta mantém o status de “embaixadora não oficial” de Coventry, liderando uma marcha a favor da paz mundial e da união dos povos.




Estátua de Lady Godiva no centro de Coventry


Celebração em honra de Lady Godiva, em Coventry City

Lady Godiva foi imortalizada num poema de Lord Tennyson, cuja poesia, na sua grande parte, se reporta a temas mitológicos.

terça-feira, 13 de maio de 2008

EDIÇÃO EXTRA – AS ROSAS E OS CARDOS DA MINISTRA DA EDUCAÇÃO

Contrariando a rotina das postagens apenas à Quinta Feira e ao Domingo, não resisto a publicar este texto que hoje recebi por email.
Não vou tecer comentários. Apenas vos convido a ler o que escreveu a Professora Cecília Honório, a propósito da entrevista dada na televisão pela Ministra da Educação.

As rosas e os cardos da Ministra da Educação

07-Mai-2008
A Ministra da Educação foi à televisão ajudar a lavar o negócio das políticas sociais de Sócrates. Bordou o autoritarismo, abriu o seu peito de esquerda, mas a realidade não deixa de ser o que é só porque as eleições espreitam.
1. Chumbos. Andamos há muito a dizê-lo e a ministra tem razão: o chumbo é arma de uma escola elitista, custa caro aos contribuintes e, ainda por cima, reproduz o insucesso escolar (ao contrário das línguas aziagas do rigor, os dados mostram que as crianças e os jovens não aprendem mais por ficarem retidos).
Mas os chumbos vão acabar? Não, disse a ministra. E à pergunta: então, a saída para os jovens que chumbam é a formação profissional? Não, disse a ministra. E não podia, porque a realidade é o que é. O que se oferece hoje aos jovens com longa história de insucesso (rapazes, sobretudo) são os famosos cursos de formação para conclusão da escolaridade obrigatória, nichos de enjeitados anos a fio a fazerem de conta, eles e os professores, que vão ser, um dia, jardineiros. Às perguntas que interessam (o que foi e o que vai ser feito para combater os custos sociais dos chumbos?) seguiu-se retórica para três anos perdidos, porque as respostas são caras.
Não há equipas multidisciplinares nas escolas, não há mediadores, não há psicólogos, não há horas para programas de tutorias, não há horas para apoios específicos, não há turmas mais pequenas onde é necessário, não há responsabilização das escolas que fazem turmas de "bons" e de "maus", não há salas de aula dignas e equipadas. Não há nada a não ser a boa vontade e o empenho de professores, e de poucos profissionais que resistem à sangria da poupança, para os meninos e meninas que não correspondem ao formato médio, que não têm livros em casa, que não têm mãe escolarizada e pai bem sucedido profissionalmente, que não têm, muitas vezes, dinheiro para comer, e que até vivem desse monstro irresistível que é o da caridade das escolas.
Diz ainda a ministra que o problema não está nos programas, "acessíveis" aliás, e é mentira. Os programas e a disciplinarização nos 2º e 3º ciclos são esmagadores para os jovens que passam os dias amestrados em aulas, sem tempo para viver. É a realidade diária deles.
2. Professores. Acenar com o bife da equiparação no topo entre professores e carreira técnica é esquecer os muitos milhares que nunca lá chegarão, é cuspir para o lado aos preços da formação e a uma avaliação punitiva e infernal (que ainda terá um director para jogar com afilhados e afilhadas com as quotas da excelência, que, aliás, exigiam uma avaliação externa de todas as escolas, e a ministra diz que a coisa vai pelas 400...).
A realidade do próximo ano nas escolas portuguesas será a do inferno sem purgatório. Na instabilidade para os alunos, no perigo do sucesso administrativo não pensa a Ministra. E cada professor e professora só desejará, nos melhores dias, ver a ministra e os seus secretários avaliados com as suas fichas. Uma qualquer ficha de sete páginas para observação de aulas e portefólio, cada item desmembrado em vinte, cada um deles classificado de 1 a 5, mais a ficha feita pelo conselho executivo, onde o "excelente" corresponde ao sobre-humano, e eles não passam.
E, ao menos, aqueles cotados conselheiros científicos que a Ministra arranjou não são capazes de operacionalizar as fichinhas e de lhes dar uniformidade para minimizar a selva que aí vem?
Esta equipa ministerial foi chumbada no dia 8 de Março. Vai custar muito caro ao país retê-los mais um ano (e eles nem vão aprender mais por isso). Entretanto, as escolas vão rebentar com a avaliação, novos capatazes surgirão para tornar inquestionável a cadeia de comando, e o desafio será maior do que nunca: mostrar que este modelo de avaliação não serve, que a avaliação é das escolas e para preservar e aprofundar o trabalho cooperativo; será ano de não deixar passar esta espécie de "luta de classes" dentro da classe, de combater a autofagia, mantendo relações de cooperação e solidariedade, senão eles passam administrativamente...
Cecília Honório

domingo, 11 de maio de 2008

UM BOM EXEMPLO - IRENA SINDLER

Há dois dias, a 9 de Maio, comemorou-se o Dia Europeu, ou Dia da Europa.
Na Cimeira de Milão de 1985 os chefes de Estado decidiram celebrar o dia 9 de Maio como Dia da Europa, baseados na declaração feita em Paris, 35 anos antes.



foi precisamente no dia 9 de Maio de 1950 que, em Paris, Robert Schuman, ministro dos Negócios Estrangeiros de França, fez uma declaração à imprensa realçando a necessidade da criação duma federação europeia, indispensável à preservação da paz.

Pairava no ar a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial, quando ainda estavam bem presentes na memória de todos os horrores da Segunda Guerra Mundial, opondo países que se destruíram mutuamente, causando inúmeros prejuízos, não só materiais mas sobretudo morais: ódios, rancores e preconceitos.

Na sua longa história o «Velho Continente» conta, sem dúvida, momentos de glória, mas também episódios trágicos, de uma desumanidade total. É o caso do HOLOCAUSTO, um dos acontecimentos mais negros da história da humanidade.
É precisamente nas maiores adversidades que se revelam os verdadeiros heróis.
Eis a história duma HEROÍNA.

Irena Sendler

A mãe das crianças do Holocausto

Enquanto a figura de Óscar Schindler era aclamada pelo mundo graças a Steven Spielberg, que se inspirou nele para rodar a película que conseguiria sete Óscares em 1993, narrando a vida deste industrial alemão que evitou a morte de 1.000 judeus nos campos de concentração, Irena Sendler continuava a ser uma heroína desconhecida fora da Polónia e apenas reconhecida no seu país por alguns historiadores, já que nos anos de obscurantismo comunista, tinham apagado a sua façanha dos livros oficiais de história.
Além disso, ela nunca contou a ninguém nada da sua vida durante aqueles anos. Contudo, em 1999 a sua história começou a ser conhecida, curiosamente, graças a um grupo de alunos de um instituto do Kansas e ao seu trabalho de final de curso sobre os heróis do Holocausto.
Na sua investigação conseguiram muito poucas referências sobre Irena. Só tinham um dado surpreendente: tinha salvo a vida de 2.500 crianças.

Como era possível que houvesse tão escassa informação sobre uma pessoa a assim? A grande surpresa chegou quando, depois de procurar o lugar do túmulo de Irena, descobriram que a mesma não existia porque ela ainda vivia…e de facto ainda vive…
Hoje é uma anciã de 98 anos (nascida em 15 de Fevereiro de 1910), que reside num asilo do centro de Varsóvia, num quarto onde nunca faltam ramos de flores e cartas de agradecimento procedentes do mundo inteiro.
Quando a Alemanha invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem estar Social de Varsóvia, o qual administrava as cozinhas sociais comunitárias da cidade.
Em 1942 os nazis criaram um ghetto em Varsóvia. Irena, horrorizada pelas condições em que se vivia ali, uniu-se ao Conselho para Ajuda de Judeus. Conseguiu identificação da repartição de saúde, de cujas tarefas consistia a luta contra as doenças contagiosas.
Como os alemães invasores tinham medo de uma possível epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto.
De imediato se pôs em contacto com as famílias, às quais ofereceu levar os filhos para fora do ghetto. Mas não lhes podia dar garantias de êxito. Era um momento horroroso - devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos, e eles perguntavam-lhe: “Podes prometer-me que o meu filho viverá…?”
Mas como podia alguém prometer, quando nem sequer se sabia se conseguiriam sair do ghetto? A única certeza era que as crianças morreriam se permanecessem nele.
As mães e as avós não queriam separar-se dos filhos e netos.
Irena entendia-as muito bem, pois ela mesma era mãe, e sabia perfeitamente que, de todo o processo que ela levava a cabo com as crianças, o momento mais duro era o da separação.
Algumas vezes, quando Irena ou as suas ajudantes voltavam para visitar as famílias e tentar fazê-las mudar de opinião, descobriam que todos tinham sido levados de comboio para os campos de morte.
Cada vez que lhe acontecia algo deste género, lutava com mais força para salvar mais crianças.
Começou a tirá-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas de imediato se valeu de tudo o que estava ao seu alcance para escondê-las e tirá-las dali: caixotes de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacos de batatas, ataúdes…Nas suas mãos qualquer elemento se transformava numa via de escape.
Conseguiu recrutar pelo menos uma pessoa de cada um dos dez centros do Departamento de Bem estar Social. Com essa ajuda elaborou centenas de documentos falsos com assinaturas falsificadas, dando identidades temporárias às crianças judias.
Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz. Por isso não lhe bastava somente manter essas crianças com vida. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais, as suas famílias.
Então idealizou um arquivo que registava os nomes das crianças e das suas novas identidades. Anotava os dados em pequenos pedaços de papel e guardava-os dentro de frascos de conserva, que depois enterrava debaixo de uma macieira, no jardim da sua vizinha.
Ali guardou, sem que ninguém o suspeitasse, o passado de 2.500 crianças, até que os nazis se foram embora.
Mas um dia os nazis souberam das suas actividades. Em 20 de Outubro de 1943, Irena Sendler foi detida pela Gestapo, e levada para a prisão de Pawiak, onde foi brutalmente torturada.
Num colchão de palha da sua cela encontrou uma estampa de Jesus Cristo. Conservou-a como o resultado de um acaso milagroso naqueles duros momentos da sua vida, até ao ano de 1979, em que se desfez dela e a ofereceu a João Paulo II.
Irena era a única que sabia os nomes e as direcções das famílias que albergavam as crianças judias. Suportou a tortura e recusou-se a atraiçoar os seus colaboradores ou qualquer das crianças ocultas. Quebraram-lhe os pés e as pernas, além de lhe imporem inumeráveis torturas. No entanto ninguém pôde quebrar a sua vontade.
Assim, foi sentenciada à morte. Uma sentença que nunca se cumpriu porque, a caminho do lugar da execução, o soldado que a levava deixou-a escapar. A Resistência tinha-o subornado porque não queriam que Irena morresse com o segredo da localização das crianças. Oficialmente figurava nas listas dos executados, daí que, a partir de então, Irena continuou a trabalhar, mas com uma identidade falsa.
Ao findar a guerra, ela mesma desenterrou os frascos e utilizou as notas para encontrar as 2.500 crianças que colocara em famílias adoptivas.
Reuniu-as aos seus parentes disseminados por toda a Europa, mas a maioria tinha perdido os seus familiares nos campos de concentração nazis.
As crianças só a conheciam pelo seu nome de código: Jolanta.
Anos mais tarde, a sua história apareceu num jornal, acompanhada de fotos suas da época. Várias pessoas começaram a telefonar para dizer-lhe: “Recordo a tua cara…sou uma dessas crianças, devo-te a minha vida, o meu futuro, e gostaria de ver-te…”
Irena tem no seu quarto centenas de fotos com algumas daquelas crianças sobreviventes ou com filhos delas.
O seu pai, um médico que faleceu de tifo, quando ela era ainda pequena, inculcou-lhe o seguinte: “Ajuda sempre o que se está a afogar, sem levar em conta a sua religião ou nacionalidade. Ajudar cada dia alguém, tem que ser uma necessidade que saia do coração”.
Há muitos anos que Irena Sendler está presa a uma cadeira de rodas, devido às lesões provocadas pelas torturas sofridas às mãos da Gestapo.
Não se considera uma heroína.
Nunca se atribuiu crédito algum pelas suas acções.
Sempre que a interrogam sobre o assunto, Irena diz: “Poderia ter feito mais, e este lamento continuará comigo até ao dia em que eu morrer”

“Não se plantam sementes de comida. Plantam-se sementes de bondades.
Tratem de fazer um círculo de bondades, estas vos rodearão e vos farão crescer mais e mais”.

Irena Sendler


Em Novembro de 2003 o Presidente da República, Aleksander Kwasniewski, outorgou-lhe a mais alta distinção civil da Polónia – a Ordem da Águia Branca.
Irena foi acompanhada por familiares a por uma das meninas salvas.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

UM GRANDE DESGOSTO

Dum modo geral os adultos têm tendência a menosprezar os “desgostos”dos mais jovens:

– o menino que chora porque partiu o seu carrinho preferido…
- a menina lavada em lágrimas porque um amiguinho lhe
chamou feia…
- o adolescente desiludido porque a garota da sua vida não
lhe dá bola…
- a jovem adolescente porque teve uma zanga feia com o
namorado…

Com ar protector, como de quem já viveu a vida e sabe que isso não tem a mínima importância, passamos a mão pela cabeça, tentamos consolar, e com um quase indiferente - “não ligues, isso passa!” – voltamos a atenção para assuntos «realmente importantes».
Erro grave, dos adultos! Os sentimentos, de alegria ou tristeza, são vividos por cada um de nós com igual intensidade, quer tenhamos cinco anos ou oitenta.
E é assim que:
O “dia mais feliz da minha vida” a breve trecho origina “O maior desgosto da minha vida”.

A BONECA




Nos meus tempos de menina não havia a quantidade e qualidade de brinquedos que vemos hoje em dia.

Agora as crianças vivem atulhadas dos mais diversos
brinquedos a que, na maioria das vezes, só prestam atenção nos primeiros cinco minutos. Depois, põem-nos de parte, e já estão a desejar coisas novas.
Nós, os adultos, temos a maior parte da culpa por este estado de coisas.
Queremos dar-lhes tudo o que nós próprios não tivemos. Para reforçar a nossa vontade, já de si exagerada, em épocas festivas – por exemplo no Natal – a televisão entra-nos pela casa publicitando tudo o que de mais moderno existe. As crianças fazem listas enormes, e lá estão os pais e os avós, correndo de loja em loja, para satisfazer os caprichos dos meninos.
Mas deixemos este tema por agora. Voltemos aos tempos antigos.

Nesse tempo a variedade escasseava, e, muitas vezes,
também o dinheiro. A mentalidade era outra – havia que poupar – quem sabe o que é o dia de amanhã?
Um brinquedo em dias especiais era mais que suficiente!
Assim as crianças eram obrigadas a puxar pela imaginação. Na verdade divertiam-se mais, por mais tempo.
Ainda me lembro dos telefones que fabricávamos com as tampas das latas de graxa e um fio preso a cada uma delas…ouvia-se lindamente. Não sei bem se o som era propagado através do fio ou do ar, dada a curta distância a que estávamos uns dos outros…mas que funcionava, lá isso funcionava!
E as bolas, feitas de meias velhas cheias de trapos…as camas das bonecas, armadas com caixas de sapatos!
Um sem fim de pequenos objectos que faziam as nossas delícias, e com que ocupávamos as nossas brincadeiras.

Eu tinha um tio, também padrinho, que era oficial da Marinha Mercante. Nessa qualidade corria meio mundo. Numa das suas viagens aos Estados Unidos, trouxe para a afilhada uma boneca, daquelas que ainda não se vendiam cá.
As que conhecíamos eram de pano. Na melhor das hipóteses, tinham a cara e as mãos em porcelana. Mas com essas só se podia brincar sob o olhar atento das mães, não fossem partir-se. As outras, as de todos os dias, eram todas elas em pano, até as carinhas e as mãos.
A boneca que o meu padrinho me ofereceu era a coisa mais linda do mundo! Toda, todinha, num material que parecia carne verdadeira - o cabelo também do mesmo material, que ignoro o que fosse - celulóide, talvez.
Muito rosada, lábios encarnados, cabelo castanho…uma verdadeira beleza! E sapatinhos com meias brancas.
Quando a recebi, tinha eu oito anos, senti-me a pessoa mais feliz do mundo. Aquele era, sem dúvida, o dia mais feliz da minha vida!

Na nossa casa havia um grande pátio, com algumas árvores, onde brincávamos. Daí partia uma larga escadaria, ao cimo da qual existia a porta de acesso à casa.
Uma tarde, depois de ter desfrutado ao máximo da companhia da minha boneca, e apetecendo-me fazer umas correrias, fui colocar, cuidadosamente, a boneca junto à porta, para não se estragar.
Rapidamente a noite desceu, chegou a hora do jantar, e fui a correr para casa. E a pobre boneca ficou esquecida lá fora.
Só no dia seguinte, ao acordar, notei a sua falta. Num pulo estava junto dela, que não se encontrava onde a deixara, mas num dos degraus da escada.
Apertando-a com força, chorei convulsivamente. De noite, o nosso cão tinha-lhe roído o nariz e ainda um pouco da cara. Estava desfigurada!
Continuei a amá-la do mesmo modo. Mas aquele foi, decididamente, o maior desgosto da minha vida!
Assim o senti, quando tinha oito anos.

Talvez venha daí a minha paixão por bonecas, que sempre me tem acompanhado.

domingo, 4 de maio de 2008

DIA DA MÃE - 1

Na Europa, as celebrações associadas à Mãe remontam a Roma e
Grécia Antiga, cerca de 250 anos A.C.
À medida que o Cristianismo ia alastrando pela Europa, começou a homenagear-se a “Igreja Mãe”, como força espiritual que dava vida e protegia os cristãos.
Com o decorrer dos tempos as pessoas passaram a associar essa celebração às próprias mães.

Em Portugal, até há bastantes anos atrás, o Dia da Mãe era comemorado no dia 8 de Dezembro, em homenagem a Maria, Mãe de Jesus.
Actualmente comemora-se no 1º.Domingo de Maio.

Alguns países europeus e africanos celebram-no neste mesmo dia, mas a grande maioria festeja o Dia das Mães no 2º.Domingo de Maio.

No início do Século XX uma jovem americana, Annie Jarvis, entrou em forte depressão depois da morte da sua mãe.
Algumas amigas, preocupadas com a sua saúde, resolveram perpetuar a memória da mãe da jovem, organizando uma festa.
Annie quis que essa homenagem fosse extensiva a todas as Mães, vivas ou mortas.
Rapidamente a ideia se propagou a todas os Estados Unidos. Em 1914 Thomas Wilson , 28º.presidente dos Estados Unidos da América, oficializou a comemoração do Dia das Mães – 2º.Domingo de Maio.

No Brasil, em 1932, o Presidente Getúlio Vargas assinou um decreto instituindo oficialmente o Dia das Mães no 2º.Domingo de Maio.

Para assinalar esta data festiva, tão importante para as mães, vou transcrever um texto que considero particularmente bonito




RETRATO DE MÃE

"Uma simples mulher que existe que, pela imensidão de seu amor tem um pouco de Deus, e pela constância de sua dedicação tem muito de anjo.
Que, sendo moça, pensa como uma anciã e, sendo velha, age com as forças da juventude.
Quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida, e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças.
Pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama; e, rica, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos.
Forte, entretanto, estremece ao choro de uma criancinha; e fraca, se alteia com a bravura dos leões.
Viva, não lhe sabemos dar o valor porque à sua sombra todas as dores se apagam; e morta, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.
Não exijam de mim que diga o nome dessa mulher, se não quiserem que molhe de lágrimas este álbum, porque eu a vi passar no meu caminho.
Quando crescerem seus filhos, leiam para eles esta página: eles lhes cobrirão de beijos a fronte, e dirão que um pobre viandante, em troca de suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria MÃE..."

Don Ramon Angel Jara
Bispo de La Serena - Chile
(Escrito num album)

DIA DA MÃE - 2

O meu amigo Humberto Rodrigues Neto, gentilmente, contribuiu para assinalar esta data festiva, enviando-me este belíssimo poema.


Para ele o meu beijo de agradecimento.
Obrigada, meu querido Poeta.



Mãe!

Humberto Rodrigues Neto
(Humberto - Poeta)


Tu foste, mãe, na treva a claridade,
na dor meu riso e na tormenta o norte,
a doce companheira e a consorte
das minhas horas de infelicidade!

Que anjo não foste, toda vez que a sorte
não me sorriu! E com que imensidade
de amor, desvelo e angelical bondade
tu me ensinaste a ser paciente e forte!

E hoje a alegria anda a sorrir nos ares...
é o “Dia das Mães” numa porção de lares
e eu vou fingindo que inda o comemoro!

Mas teu espírito, a me amar afeito,
vem doer tão docemente no meu peito,
que eu cerro os olhos... pendo a fronte... e choro!


E porque conheço o apurado senso de humor do Poeta, sei que, depois de nos brindar com versos tão comoventes, vai apreciar que eu termine este tema com uma “gracinha” para nos fazer sorrir.

Toca o telefone:
- Estou? Mãe? Posso deixar os meninos consigo hoje à noite?
- Vais sair?
- Vou.
- Com quem?
- Com um amigo.
- Não entendo porque é que te separaste do teu marido, um homem tão bom...
- Mãe! Eu não me separei dele! ELE é que se separou de mim!
- Pois ... ficas sem marido e agora sais com qualquer um...
- Eu não saio com qualquer um. Posso deixar aí os meninos?
- Eu nunca te deixei com a minha mãe, para sair com um homem que não fosse o teu pai!
- Eu sei, mãe. Há muita coisa que a mãe fez e que eu não faço!
- O que é que queres dizer com isso?
- Nada, mãe ! Só quero saber se posso deixar aí os meninos.
- Vais passar a noite com o outro? E se o teu marido vier a saber?
- Meu EX-marido! Não acho que se importe, ele não deve ter dormido uma única noite sozinho desde a separação!
- Então sempre vais dormir com o vagabundo!
- Não é um vagabundo!!!
- Um homem que sai com uma divorciada com filhos, só pode ser um
vagabundo, um oportunista!
- Não vou discutir, mãe. Posso deixar aí os meninos ou não?
- Coitaditos dos miúdos…com uma mãe assim...
- Assim como?
- Irresponsável! Inconsequente! Por isso é que o teu marido te deixou!
- Chega, mãe!
- Ainda por cima gritas comigo! Aposto que com o vagabundo com quem vais sair, tu não gritas.
- Agora está preocupada com o vagabundo?
- Eu não disse que era um vagabundo!? Eu percebi logo!
- Tchau, mãe!

Desconheço a autoria

sexta-feira, 2 de maio de 2008

DEPOIS DO DIA DO TRABALHADOR - DIREITOS HUMANOS

No post de ontem apresentei uma panorâmica geral do que foram as lutas dos trabalhadores por melhores condições laborais, referindo que

“na longa história da humanidade, o maior drama do trabalho parece ter sido a tentação em que o ser humano tem caído demasiadas vezes, de explorar o seu semelhante, como forma de adquirir riqueza à custa do esforço alheio…

Não só como forma de adquirir riqueza, mas também a ganância do exercício do PODER leva alguns seres humanos a submeterem às maiores violências homens e mulheres que caiem sob as suas garras, num completo desrespeito pelos mais elementares Direitos Humanos.

Hoje apresento-vos um relato feito pela minha amiga Maria Lúcia Vítor Barbosa, que nos mostra claramente o que acabo de referir.



NÓS E AS FARC
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA
18/04/2008

A patética foto de Ingrid Betancourt, prisioneira das Farc, possivelmente correu o mundo. É o retrato da dor, da profunda solidão, do sofrimento infindo que essa mulher padece há seis anos nas mãos dos impiedosos e sanguinários terroristas e narcotraficantes das Forças Revolucionárias da Colômbia – Farc. E aquela face transfigurada pelo padecimento tornou-se emblemática de tantos que, como ela, foram arrancados do convívio familiar e amargam no cárcere asfixiante e insalubre da selva a desumanidade dos que, a principio se investindo de guardiões do paraíso na terra se tornaram os carrascos do inferno.
Betancourt não sofre sozinha as inenarráveis humilhações que um ser humano é capaz de suportar antes de enlouquecer. Aproximadamente 700 pessoas dormem acorrentadas em árvores, não recebem tratamento médico necessário, são obrigadas a caminhar pela selva mesmo sem condições físicas. No cativeiro das Farc onde a misericórdia não existe prolifera a mesma essência maléfica dos campos de concentração, pois em tal miserável sobrevivência homens e mulheres, além dos agravos físicos, são despidos de sua dignidade.
As Farc seqüestram, torturam, matam os pobres que não têm dinheiro para pagar resgate, mantêm entre centenas de prisioneiros alguns que, tendo relevância política podem funcionar como moeda de barganha para libertar os companheiros capturados pelo Estado Colombiano que tem à frente o presidente Álvaro Uribe, um estadista, algo raro na América Latina.
Há pouco tempo uma missão médica francesa, apoiada pela Espanha é pela Suíça esteve na Colômbia na tentativa de socorrer e resgatar Ingrid Betancourt e outros três reféns cuja saúde precária inspira cuidados. Em vão o presidente Álvaro Uribe anunciou a suspensão das atividades militares no sudeste do país para possibilitar a ação da missão médica. Em vão o presidente francês, Nicolas Sarkozy dirigiu apelo ao chefe das Farc, Manoel Marulanda, para que libertasse a senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, em plena campanha para a presidência de República.
Todavia é necessário, é urgente, é imprescindível que a França retome seu objetivo, insista nele, persista no afã de salvar Ingrid e quantas vítimas puder das garras de seus algozes.
Aliás, não só a França, a Espanha e a Suíça devem se empenhar nessa meta. A questão é humanitária e não pertence a esse ou aquele país. Estranhamente os países sul-americanos permanecem indiferentes diante do horror perpetrado em sua vizinhança. Parece que o entendimento das Farc como sendo de esquerda dá glamour ao terrorismo. Exemplo disso é o presidente Lula da Silva, companheiro das Farc no Foro de São Paulo, que se negou a classificar os bestiais guerrilheiros e narcotraficantes como terroristas, conforme apelo feito pelo presidente Uribe. Talvez Lula prefira para as Farc o falso rótulo de “forças insurgentes”. Assim estaria mais uma vez de acordo com a vontade de outro de seus maiores companheiros, Hugo Chávez.
Silenciaram os “bons revolucionários” latino-americanos enquanto Chávez, o ditador de fato da Venezuela, simulou gestos humanitários ao negociar a soltura de algumas vítimas das Farc, enquanto as financia e lhes dá respaldo político. Aos demais governantes da América Latina, incluindo o brasileiro, é mais cômodo culpar o presidente Uribe pela situação, em que pese ele estar fazendo há tempos todos os esforços para combater aqueles celerados. Condenar Uribe, tática comum dos esquerdistas que são exímios em alterar, distorcer, manipular fatos, na verdade equivale a condenar a vítima e absolver os criminosos. Tudo indica que a esquerda latino-americana aprendeu direitinho a lição com o mestre Stalin.
Em trecho da carta, exigida pelos facínoras para provar que estava viva Ingrid escreveu:
“A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre de tempo. Tudo está sempre pronto para partirmos às pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante. A cada dia resta menos um pouco de mim mesma”.
No Brasil, o embrião das Farc, o MST, está exacerbando sua violência. O chamado movimento social agora invade não só terras produtivas, mas propriedades da Vale do Rio Doce (maior mineradora do mundo), hidroelétricas, Assembléias Legislativas, agências de Banco, praças de pedágio, além de bloquear estradas. O flagrante desrespeito ao Estado de Direito, o esbulho da propriedade particular, o prejuízo causado ao País avançam impunemente sob o olhar complacente das autoridades constituídas, que até financiam as ricas e vistosas manifestações do MST.
Como afirmou Edmund Burke: “Tudo que é necessário para que o mal triunfe, é que os homens de bem nada façam”.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora e professora universitária.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

DIA DO TRABALHADOR - PRIMEIRO DE MAIO

O Dia do Trabalhador terá tido origem em Chicago, Estados Unidos da América, em 1886, na sequência de uma manifestação de trabalhadores, que reivindicavam a redução, para oito horas diárias, do horário de trabalho.
Outras manifestações se lhe seguiram, algumas com intervenção policial, resultando daí vários mortos e feridos.
Esses trabalhadores acabaram por conseguir os seus objectivos, vendo reduzido de 16 para 8 o horário laborar.

Três anos mais tarde, em 1889, em Paris, a Internacional Socialista decidiu convocar anualmente uma manifestação com o mesmo objectivo – a redução do horário de trabalho para oito horas diárias. Em homenagem às lutas de Chicago foi escolhida a data de 1 de Maio.
Por toda a França, também as manifestações seguintes tiveram a intervenção da polícia, o que originou a morte de alguns manifestantes.
Estes graves acontecimentos levaram a que, dois anos mais tarde, a Internacional Socialista de Bruxelas proclamasse esse dia como “Dia internacional de reivindicações laborais”.
Só em 1919 o senado francês ratificou o dia de 8 horas de trabalho, proclamando o dia 1 de Maio feriado nacional.

Um ano mais tarde, em 1920, a Rússia adoptou o 1º.de Maio como feriado nacional, no que foi seguida por outros países.

No Brasil, por volta de 1930, começaram a surgiu agremiações de trabalhadores fabris, pouco expressivas, que, com a chegada ao poder de Getúlio Vargas, foram sendo dissolvidas.
Presentemente designado como “Dia do Trabalho”, aponta-se este dia como sendo o escolhido pelos governantes para anunciar o aumento do salário mínimo nacional.

Em Portugal só em 1974, depois da Revolução de 25 de Abril,
se começou a comemorar livremente o 1º. De Maio, que passou a ser feriado nacional.

Nalguns países o Dia do Trabalhador celebra-se em datas diferentes.
Os Estados Unidos celebram o “Labor Day” na primeira segunda-feira de Setembro.

Depois deste breve apontamento sobre o Dia do Trabalhador, que surgiu apenas porque existe o Trabalho, vejamos como este apareceu.

Sob a óptica religiosa, e a partir da interpretação do texto bíblico, depois da desobediência de Adão, Deus condenou-o a “ganhar o pão com o suor do seu rosto”.
A partir daí passou-se a considerar o trabalho, necessário para prover as necessidades básicas, como uma consequência da queda original, um castigo, uma tortura.

Com o decorrer dos tempos, o homem descobriu que, com o acto de trabalhar, o ser humano podia criar beleza, cultura, bens materiais, conforto. Podia, até, transformar a Natureza.

Na longa história da humanidade, o maior drama do trabalho parece ter sido a tentação em que o ser humano tem caído demasiadas vezes, de explorar o seu semelhante, como forma de adquirir riqueza à custa do esforço alheio.
Deste modo, os explorados encontram no trabalho apenas um meio de sobrevivência, já que dependem dele para viver.
Com o evoluir da tecnologia, passando muito do trabalho humano a ser feito por máquinas, grande parte da mão-de-obra revelou-se desnecessária, vindo a aumentar o caudal de desempregados.
Grande parte da população trabalhadora, vendo o fantasma do desemprego pender sobre a sua cabeça, submete-se a quaisquer condições para poder subsistir. Acaba, assim, encontrando no trabalho um meio de sobrevivência, e não um modo de vida.
À globalização económica se deve, em grande parte, este aviltamento do trabalho, assim como o recrudescimento do “trabalho escravo”que se verifica em todo o mundo.
É de todos conhecido, e denunciado internacionalmente, o trabalho infantil a que estão sujeitos milhares de crianças,
condenadas a não viverem a infância a que têm direito.

Sabe o que são “Os Meninos de Açúcar”?

Apesar de os seus governantes o não admitirem, existe um país na América Central, em cujas plantações de cana-de-açúcar trabalham inúmeras crianças, que são sujeitas a trabalho árduo, difícil até para adultos, e a viverem em condições miseráveis, às quais, por vezes, não conseguem sobreviver.
Esta situação foi relatada a uma cadeia de televisão norte americana por uma repórter hispânica que vive nos Estados Unidos.

Tendo ouvido falar no assunto decidiu investigar, deslocando-se como turista a esse país. Servindo-se de vários contactos, conseguiu infiltrar-se nas plantações, que fotografou e filmou em vídeo. Todos estes documentos foram mostrados perante as câmaras da televisão.
Estas crianças são chamadas “Meninos de açúcar”, nome que advém do seu trabalho nessas plantações.
A referida entrevista na televisão ocorreu o ano passado, e eu mesma tive dela conhecimento quando lá estive de visita, em 2007.

Exercido desta forma o trabalho pode ser considerado, de facto, uma forma de castigo, de tortura, como se cria há milhares de anos.

Aproveitemos este “Dia do Trabalhador” para reflectir, tomar a decisão de denunciar casos de injustiça, esforçando-nos por tornar o mundo melhor.

DIA DA TRABALHADORA

O Dia do Trabalhador assinala e comemora as lutas dos trabalhadores por melhores condições laborais.
Nenhum texto a esse respeito refere as lutas das trabalhadoras (para isso existe o Dia Internacional da Mulher), mas todos sabemos que as mulheres sempre estiveram ao lado dos homens, apoiando as suas lutas, ajudando-os a vencer.
Sabemos também que muitos homens deram o seu apoio às mulheres quando elas reivindicaram os seus direitos.
Veja como algumas mulheres encaram agora o resultado desses direitos adquiridos.

Desabafo de uma mulher moderna – Crónica

São 6Hs. O despertador canta de galo e eu não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede.
Estou tão cansada! Não queria ter que trabalhar hoje.

Quero ficar em casa, cozinhando, ouvindo música, cantarolando, até.

Se tivesse cachorro, passeando pelas redondezas.

Aquário? Olhando os peixinhos nadarem.

Espaço? Fazendo alongamento.

Leite condensado? Brigadeiro…

Tudo menos sair da cama, engatar uma primeira e colocar o cérebro para funcionar.

Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a matriz das feministas que teve a infeliz ideia de reivindicar direitos à mulher e por quê ela fez isso conosco, que nascemos depois dela.

Estava tudo tão bom no tempo das nossas avós! Elas passavam o dia a bordar, trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas, dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando as crianças, frequentando saraus...a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.

Aí, vem uma fulaninha qualquer, que não gostava de sutiã nem tão pouco de espartilho, e contamina as várias outras rebeldes inconsequentes com ideias mirabolantes sobre “vamos conquistar o nosso espaço”.
Que espaço, minha filha???!!! Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo a seus pés.
Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir, e se exibir para os amigos…que raio de direitos requerer?

Agora eles estão aí, todos confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós como diabo da cruz.

Essa brincadeira de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim. E nos lançando no calabouço da solteirice aguda.

Antigamente, os casamentos duravam para sempre; tripla jornada era coisa do Bernard de vòlei – e olhe lá, porque naquela época não existia Bernard do vólei.

Por quê, me digam por quê, um sexo que tinha tudo do bom e do melhor, que só precisava ser frágil, foi se meter a competir com o macharedo?

Olha o tamanho dos bíceps deles, e olha o tamanho dos nossos.

Tava na cara que não ia dar certo!!!

Não aguento mais ser obrigada ao ritual diário de fazer escova, maquiar, passar hidratantes, escolher que roupa vestir, e que sapatos, acessórios a usar, que perfume combina com meu humor, nem ter que sair correndo.

Ficar engarrafada, correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, passar o dia inteiro na frente do computdor, resolvendo problemas.

Somos fiscalizadas e cobradas por nós mesmas a estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, cheirosas, unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, pós-doutorados e especializações (ufffffff !!!!!!!!!!!!!)…

Viramos super mulheres, continuamos a ganhar menos do que eles, lavar, passar a ferro, cozinhar e cuidar dos filhos da mesma forma. E ainda temos que dividir as despesas da casa.
Não era melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço?

Chega! Eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela (ai, meu Deus, já são 6,30h, tenho que levantar!), e tem mais, que chegue do trabalho, sente no meu sofá, e diga “meu bem, me traz uma dose de café, por favor?”.

Descobri que nasci para servir. Vocês pensam que eu tô ironizando???

Tô falando sério!!!

Estou abdicando do meu posto de mulher moderna…

Alguém se habilita?


Autora desconhecida