domingo, 27 de julho de 2008

CASA DE VÓ

CASA DE VÓ

Casa de Vó é o lugar mais doce do mundo!



É onde até o limão é doce, e qualquer doce fica muito mais doce.
Há sempre rocambole fofo, coberto de açúcar, em cima da geladeira.
E dentro? Nem se fala!...
Há sonhos de verdade, cobertos de canela.
Há biscoitos quentinhos acabados de sair.
Há suspiros dourados e beijinhos doces.
E a melhor, a mais limpinha, a mais gostosa cama do mundo.
Há esconderijos segredáveis e mapas de tesouro.
Há castelos, fadas, viagens espaciais, reis, princesas e super heróis.
Há risos, muitos risos de sobremesa nas mesas de domingo.



Na casa de Vó as coisas são da altura da gente e tudo está ao alcance das mãos.
Nada é cheio de não – me – toques.
Tudo é à prova de neto!
Até a guerra de travesseiros vem, mas significa paz e alegria.
Na casa da vovó dá vontade de correr e brincar o resto da vida sem parar nunca.
Pois trincos não tem, fechaduras também não.
Casa de Vó tem é muitos braços todos abertos a qualquer hora.
P’ra casa de Vó nunca precisa avisar que vai, é só chegar.
Mesa de casa de Vó vive pronta!
Com toalha bem lavável, sem enfeites caros e novos; resistentes, isso sim.
E tudo funciona melhor na casa de Vó.
As paredes amortecem os tombos.
O chão é menos duro.
O fogão tem mais que seis bocas, todas acesas!
A mesa, como tem pernas…
As cadeiras, mas que dois braços aconchegando…
E Vó, sempre, é toda ouvidos!
Caderno de receita de Vó, então, é livro cobiçado, já esgotado.
Todos querem os segredos dos cozidos e dos assados, mas ninguém consegue jamais fazer um igual.
Porque o jeito de escrever, as páginas amarelas e as gotinhas de gordura não se fizeram em um dia.
Foram precisos muitos dias de festa e vontade de agradar.
Lamber os dedos pode, mas só na casa de Vó.
Raspas de panela tem sempre, e, o pior, tem fila também.
Se escuta sempre: “Eu pedi primeiro!”.
Quase toda Vó tem cadeira de balanço, um chinelo jeitoso, uma caixinha com bilhetes, lencinhos e papéis amarelados.
Gaveta de Vó, então, é uma festa!
De vez em quando toda Vó dá um suspiro bem fundo, porque tem coisas demais para se lembrar, sentindo saudades.
Há coisas que só o amor de Vó faz.
Machucados, por exemplo, são curados com dengo e muitos, muitos beijos.



Dinheiro de Vó rende…
Pensando bem é o único dinheiro que rende.
E costura que Vó faz, então?
Chega a vestir três gerações, até.
As histórias de Vó, as brincadeiras e as cantigas de ninar, só ela conhece, mais ninguém.
E o sono vem cheio de sonhos bons, quando a Vó está por perto.
Porque só cheirinho de Vó é já uma delícia!
O colo é tão gostoso e a pele tão macia que ficam na lembrança da gente p’ro resto da vida.
O assunto não tem fim na casa de Vó.
Ninguém perde o fio da meada, pois é tecido com muito interesse em escutar cada graça, cada novidade, cada descoberta.
Há tanto caso engraçado, e histórias p’ra se ouvir, que ver televisão é perder tempo…
O relógio é sempre adiantado para ninguém perder a hora.
Existe na casa de Vó a mágica do tempo, ele obedece, vai e volta, é só querer.
E a gente é o que quer ser.
Cresce, se quiser crescer.
A casa de Vó tem o maior espaço do mundo, mesmo que não tenha espaço nenhum.
Porque o espaço maior ficou inventado pela liberdade de rir, de correr e de gritar.
Espaço infinito que é do tamanho do coração que toda Vó tem.



Autoria - Guiomar Paiva Brandão, no livro “Casa de Vó”

8 comentários:

xistosa - (josé torres) disse...

Bem, já aprendi que rocambole, não é aquele fruto que eu pensava que existia e que vejo com esse nome nos supermercados.
Nem deve ser o aventureiro criado por um escritor, suponho que francês.
Rocambole é tudo o que inferniza as vidas dos pais, quando os filhos ficam cáries sem explicação.
É uma doença que se apanha na casa da Vó.
(isto é pura ficção, até me apetece escrever fixão, em honra ao acordo ortográfico, que vai ser obrigatoriamente facultativo).
Mas não ...

As cáries também se apanham ou apanhavam, antigamente no arroz. Noutros locais, chamavam-lhe gorgulho ...

Os avós são os aliados naturais dos miúdos.
Por que será?

Gostei imenso do texto, é mesmo verdade ... o mundo dos avós, é mesmo especial.
(não sou avô, mas arranjo uns netos pela vizinhança ...)

maqira disse...

Esta texto maravilhoso deu-me uma ideia. Tenho deixado a escrita de lado, o que vai contra as ordens que tenho tanto de filhos como de netos.
Mãe, Vó, não pares de escrever. Tenho que obedecer e este tema é muito bom para isso. Vou falar um pouco da minha Casa de Vó. Partilhar convosco o que de bom me acontece neste patamar da minha vida. Milagres, momentos de graça, recompensas...Prometo.

Beijinhos
Adelaide

a casa da mariquinhas disse...

Olá, Xistosa
É certo que o rocambole deve contribuir para umas cariezitas...
mas como os miudos não estão na casa da Vó todos os dias, o mal não será muito grande.
Porque é que os avós são aliados naturais dos miudos? É fácil: os gostos e os centros de interesse aproximam-se...
Acho muito meritório que, não tendo netos, adopte os da vizinhança.
As crianças agradecem, com certeza.
Todo o carinho que possamos dedicar-lhes nunca é demais.
Um abraço
Mariazita

a casa da mariquinhas disse...

Querida Milai
Ainda que mal pergunte... estás à espera de quê para obedecer aos filhos e netos???
As ordens deles são soberanas!

Fico esperando que cumpras a promessa, e nos delicie com belos textos.
Beijinhos
Mariazita

zirita disse...

Pois é Mariazita... a Casa da vó é tudo isso mesmo e muito mais... eu que o diga... quando meus netos menores vem aqui em casa,eu me desdobro em atenção e agrados... chego ficar cansada... mas acredito que isso deve ser o nomal de tôdas as casa das vovós... SEU BLOG, ESTÁ MUITO BOM...assuntos bem variados, vídeos tb... Parabéns ... pois sucesso , acredito q vc já obteve... bjs... Zirit@

Vilma Tavares disse...

Os avós sáo as pessoas mais tolas que existem na face da Terra. E como gostam desta tolice essas açucaradas personas.
Vivem para bajular criaturinhas manhosas , mal- criadas e muito amadas.
Beijinhos

Mariazita disse...

Oie, Zirita
Tem toda a razão, querida amiga. Vó é para isso mesmo: mimar!
Obrigada por ter vindo, e por suas palavras tão carinhosas.
Fico feliz por ver que seguiu meu conselho…
Se precisar…nem preciso dizer que pode contar comigo para TUDO, como sempre.
Beijinhos
Mariazita

Mariazita disse...

Querida Vilma
A vovó babada falou! E disse grandes verdades.
O certo é que, depois de os termos, não podemos passar sem eles, por muito malcriados que sejam, né???
Até breve
Beijinhos
Mariazita