quinta-feira, 5 de junho de 2008

POETAS AFRICANOS – 3

Com este título – “Poetas Africanos” - apresentei dois poetas moçambicanos, pouco conhecidos do público em geral – Juvenal Bucuane e Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr).

Hoje cabe a vez a um escritor cuja poesia é também pouco divulgada. Publicou apenas um livro de poemas, em 1983. A sua notoriedade deve –se à sua escrita em prosa, tendo publicado vários livros de contos e romances.

Trata-se de Mia Couto, natural de Moçambique, filho de emigrante português, também ele poeta e jornalista. Cursou medicina, acabando por formar-se em biologia. É como biólogo que, actualmente, exerce a profissão de professor universitário.



Oportunamente publicarei aqui alguns dos seus poemas. Hoje prefiro apresentar um excerto de um conto que faz parte do livro «Cada homem é uma raça».

“Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu” - conto

A barbearia do Firipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O tecto era a sombra da maçaniqueira
(árvore da maçanica, conhecida por maçã-da-índia).
Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: «cada cabeça 7$50». Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: «cada cabeça 20$00».
E para os clientes que adormeciam na cadeira, acrescentou «Cabeçada com dormida – mais 5 escudos»
… O barbeiro distribuía boas disposições, dákámaus( apertos de mão) . Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço. Firipe não demorava:

- Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.

Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
- Boa propaganda, mesire(tratamento de respeito) Firipe.
- Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
- O quê? Não diga que um branco já chegou nessa barbearia…
- Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
- Explique lá, ó Firipe, Se o branco não chegou até aqui, como é que lhe cortou?
- É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nessa cadeira. Só mais nada.
- Desculpa, mesire.Mas esse não era branco-mezungo(branco, senhor). Era um xikaka(colono, português de categoria social dita inferior).

Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira
- Uáá! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade. Espera aí, onde é que…? Ah!, está aqui.

Com mil cuidados desembrulhava um postal colorido de Sidney Poitier.

- Olhem essa foto. Estão a ver esse gajo? Apreciam o cabelo dele: foi cortado aqui, com essas mãos. Tesourei-lhe sem saber qual era a importância do tipo. Só vi que falava inglês.

Os fregueses faziam crescer as suas dúvidas. Firipe respondia:
- Estou-vos a dizer : esse gajo trouxe a cabeça dele desde lááá, da América até aqui na minha barbearia…

… Mas um homem rico como aquele, estrangeiro ainda mais, havia de ir no salão dos brancos. Não sentava aqui, mesire. Nunca!

O barbeiro fingia-se ofendido. A sua palavra não podia ser posta em dúvida. Ele então usava o seu derradeiro recurso:
- Tem dúvida? Então vou apresentar testemunha. Vocês vão ver, esperem lá.

…O barbeiro não tinha ido longe. Afastara-se apenas uns tantos passos para conferenciar com um velho vendedor de folha de tabaco. Regressavam os dois, o Firipe e o velho.
- Está aqui o velho Jaimão.
E virando-se para o vendedor, Firipe ordenava:
- Fala lá você, ó Jaimão.
O velho tossia toda a rouquidão antes de confirmar.
- Sim. Na realmente, vi o homem da foto. Foi cortado o cabelo dele aqui. Sou custumunha.
E choviam as perguntas dos clientes…

…Uááá, não é mentira. Até me lembro: foi um sábudu.

… Foi num dia. A barbearia continuava seu sonolento serviço, e essa manhã, como todas as outras, se sucediam as doces conversas.
…Foi então que apareceram dois estranhos. Só um entrou na sombra. Era um mulato, quase branco. As conversas desmaiaram ao peso do medo. O mulato se dirigiu ao barbeiro e ordenou que mostrasse os documentos:
- Porquê, os documentos? Eu, Firipe Beruberu, sou duvidado?
Um dos clientes aproximou-se de Firipe e segredou-lhe:
- Firipe, é melhor você obedecer. Esse homem é o Pide.
O barbeiro baixou-se sobre o caixote e retirou os documentos:
- Estão aqui os meus plásticos.
O homem passou em revista a carteira. Depois amarrotou-a e atirou-a para o chão.
- falta uma coisa nesta carteira, ó barbeiro.
- Falta alguma coisa, como? Se todos os documentos já entreguei.
- Onde está a fotografia do estrangeiro?
- Estrangeiro?
- Sim, desse estrangeiro que você recebeu aqui na barbearia.

O Firipe duvida primeiro, depois sorri. Entendera a confusão e prontificava-se a explicar:
- Mas senhor agente, isso do estrangeiro é história que inventei, brincadeira…

O mulato empurra-o, fazendo-lhe calar.
- Brincadeira, vamos ver. Nós sabemos muito bem que vêm subversivos da Tanzânia, da Zâmbia, de onde. Turras! Deve ser um desses que recebeste aqui.
- Mas receber, como? Eu não recebo ninguém, não mexo com política.
O agente vai inspeccionando o lugar, desouvindo. Pára em frente da tabuleta e soletra em surdina:
- Não recebes? Então explica lá o que é isto aqui: «Cabeçada com dormida: mais 5 escudos». Explica lá o que é essa dormida.
- Isso é por causa de alguns clientes que dormecem na cadeira.

O polícia já cresce na sua fúria.
- Dá-me a foto.
O barbeiro retira o postal do bolso. O polícia interrompe o gesto, arrancando-lhe a fotografia com tal força que a rasga.
- Este aqui também adormeceu na cadeira, hein?
- Mas esse nunca esteve aqui, juro. Fé – de - Cristo, senhor agente. Essa foto é do artista do cinema. Nunca viu nos filmes, desses dos americanos?
- Americanos, então? Está visto. Deve ser companheiro do outro, o tal Mondlane que veio da América. Então este também veio de lá?
- Mas esse não veio de nenhuma parte. Isso tudo é mentira, propaganda.
- Propaganda? Então deves ser tu o responsável da propaganda da organização…

O agente sacode o barbeiro pela bata, os botões caem. Vivito (1) tenta apanhá-los, mas o mulato dá-lhe um pontapé.
- Para trás, sacana. Ainda vai é tudo preso.

O mulato chama o outro agente e fala-lhe ao ouvido. O outro parte pelo atalho e regressa, minutos depois, trazendo o velho Jaimão.
- Já interrogámos este velho. Ele confirma que recebeste aqui o tal americano da fotografia.
Firipe, de sorriso frouxo, quase nem tem força para se explicar.
- Vê, senhor agente, outra confusão. Eu que paguei ao Jaimão para ele servir de testemunha da minha mentira. Jaimão está combinado comigo.
- Está combinado, está.
- Ó jaimão diz lá: não foi uma maneira que combinámos?

O pobre velho, desentendido, rodava dentro do seu casaco esfarrapado.
- Sim. Na realmente eu vi o cujo homem. Estava aqui, nessa cadeira.

O agente empurrou o velho, amarrando os seus braços aos do barbeiro, Olhou em volta, com vistas de abutre magro. Enfrentava a pequena multidão que assistia a tudo silenciosamente. Deu um pontapé na cadeira, partiu o espelho, rasgou o cartaz. Foi então que Vivito se meteu, gritando. O aleijado segurou o braço do mulato mas cedo se desequilibrou, caindo de joelhos.
- E este quem é? Que língua é que ele fala? Também é estrangeiro?
- Esse rapaz é meu ajudante.
- Ajudante? Então também vai dentro. Pronto, vamos embora! Tu, o velho e este macaco dançarino, tudo a andar à minha frente.
- Mas o Vivito…
- Cala-te barbeiro, já acabou o tempo das conversas. Vais ver que, lá na prisão, há um barbeiro especial para te cortar o cabelo a ti e aos teus amiguinhos.

E, perante o espanto do bazar inteiro, Firipe Beruberu, vestido de sua imaculada bata, tesoura e pente no bolso esquerdo, seguiu o último caminho na areia do Maquinino. Atrás, com sua antiga dignidade, o velho Jaimão. Seguia-se-lhe o Vivito de passo bêbado. Fechando o cortejo, vinham os dois agentes, vaidosos da sua caçada. Calaram-se então os pequenos milandos (brigas, discussões) do quanto custa, o mercado rendeu-se à mais funda melancolia.
Na semana seguinte vieram dois cipaios. Arrancaram a tabuleta da barbearia. Mas, olhando o lugar, eles muito se admiraram: ninguém tinha tocado em nenhuma coisa. Ferramentas, toalhas, o rádio e até a caixa de trocos continuavam como foram deixados, à espera do regresso do Firipe Beruberu, mestre dos barbeiros de Maquinino.

(1) – Vivito , o ajudante do barbeiro era aleijado, as pernas bambas, a cabeça pequenita coxeava sobre os ombros. Babava-se nas palavras, salivando nas vogais, cuspindo nas consoantes…

Mia Couto in «Cada homem é uma Raça»

13 comentários:

A. João Soares disse...

Cara Mariazita,
Apesar da saúde, não deixa de cumprir o calendário que a si própria impôs, o que é heróico!
Esta sua casa está maravilhosa, quer tecnicamente quer no conteúdo. Só uma pessoa com vasta cultura e conhecimentos consegue tal façanha.
Foi de toda a justiça ter colocado na resposta ao seu comentário no Do Miradouro, o link para a sua casa.
Beijos e bom fim-de-semana
João

xistosa disse...

Os poetas africanos pouco são divulgados.
Mia Couto é um dos proferidos, gosto das suas poesias e deixo-lhe ficar esta, (não é a que mais gosto, mas estou cheio de trabalho e não consegui encontrar o livro de poesias.
Talvez na Net, esvoacem ... mas este poema, tenho-o na memória.

Trajecto

Na vertigem do oceano

vagueio

sou ave que com o seu voo

se embriaga

Atravesso o reverso do céu

e num instante

eleva-se o meu coração sem peso.

Como a desamparada pluma

subo ao reino da inconstância

para alojar a palavra inquieta.

Na distância que percorro

eu mudo de ser

permuto de existência

surpreendo os homens

na sua secreta obscuridade

transito por quartos

de cortinados desbotados

e nas calcinadas mãos

que esculpiram o mundo

estremeço como quem desabotoa

a primeira nudez de uma mulher.

Carlos Rafael disse...

Mariazita,

Grato pela visita e comentário generoso lá meu blog. Gostei muito desta Casa, com literatura de primeira qualidade. Vou postar um interblog lusitano em outro blog que participo (cariricult.com), para estreitarmos mais ainda nossos laços culturais. Minha pátria é minha língua, já dizia Caetano Veloso.

Grande abraço

Carlos Rafael

a casa da mariquinhas disse...

Querido amigo João
Muito obrigada! Por TUDO!
As suas palavras, o seu gesto na resposta ao comentário(que ainda não vi), enfim, não vou enumerar, que o espaço não chegava...
A saúde há-de melhorar. Não tenho tempo para estar doente -:)))
Bom fim de semana.
Beijinhoos
Mariazita

a casa da mariquinhas disse...

Amigo Xistosa
Maravilhoso, este poema de Mia Couto!
Obrigada por tê-lo recordado.
Gosto imenso de Mia Couto, tanto da poesia, que não é muita, como da prosa.
É um escritor justamente galardoado!
Bom fim de semana.
Um abraço
Mariazita

a casa da mariquinhas disse...

Carlos
Obrigada por ter vindo, e por suas palavras de apreço.
São de louvar todas as acções que se destinam a estreitar os laços de países irmãos.
Tenho muitas amigas e amigos brasileiros, e verificamos que, no fundo, são mais as afinidades do que as diferenças.
Voltarei a visitar o seu blog, que já tenho nos Favoritos.
Bom fim de semana.
Um abraço
Mariazita

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Gostei muito, Mariazinha! Se vc a biblioteca que eu tenho de autores lusófonos, e nas estantes dos africanos já não cabe mais nada! Mas adoro mesmo a poesia de Portugal! Principalmente do do séc. XIX para trás, com exceção de Alexandre O´Neill, António Botto, e outros contemporâneos que vou pondo ao lado da cma para ler na hora de dormir. O seu blog é muito importante. Mudando de assunto, estou um pouco melhor, já voltei a trabalhar e isso que faço no blog é trabalho, como vc perceberá. Desculpe-me, mas tive de fazer um novo post hj, tão perto do anterior, porque essas resenhas serão publicadas pela USP dentro em breve, então tenho que correr. Peço a sua compreensão e que vc ponha um comentário, caso contrário não haverá publicação.
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto depois de www
Um beijo,
RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO

Ana Maria disse...

Esta casa é maravilhosa, não tem como não visitá-la. Rica em informações. Muitos bons poetas não são divulgados.
Deixo aqui meu carinho.
Meus beijinhos.

a casa da mariquinhas disse...

Olá Renata
Ainda bem que a sua saúde melhorou.
Eu também vou melhorando...
O trabalho, às vezes, torna-se urgente, e tem que se fazer um esforço para o realizar.
Tenho fé que vai conseguir os seus objectivos.
Voltaremos a ver-nos em breve.
Beijinhos
Mariazita

a casa da mariquinhas disse...

Ana Maria
Agradeço a sua visita e suas palavras elogiosas.
Temos que dar a conhecre o que é, injustamente, esquecido.
Vou tentando fazer a minha parte, dentro do possível.
Voltaremos a ver-nos.
Beijo carinhoso
Mariazita

Rui Caetano disse...

Interessante. Bom fim de semana.

a casa da mariquinhas disse...

Rui
Muito obrigada pela sua visita.
Brevemente irei conhecer o seu blog.
Uma boa semana para si.
Um abraço
Mariazita

JSL disse...

Caros

Estamos a promover uma antologia de poesia lusofona de cariz de economia solidária.

Agradecemos nos facultem contactos de poetas dos palops, para podermos enviar aos poetas este desafio.

Informo que tudo faremos para promover vosso site no nosso Portal e respectivos sites.

www.blogtok.com

www.poesia.blogtok.com

www.7pecados.blogtok.com


Assim como podemos por a vossa entidade como promotora deste projecto
pela amabilidade em si.


Os nossos agradecimentos em conformidade

P´la equipa

José Lourenço