quinta-feira, 29 de maio de 2008

OLHA O OLHO DA MENINA

Com o aproximar do Dia Mundial da Criança, a 01 de Junho, proponho um aperitivo.
Com um texto leve, até jovial, mas de grande profundidade, Marisa Prado aponta-nos algumas dificuldades, não só do cescimento, mas também do “ser adulto”.

OLHA O OLHO DA MENINA
Menina crescia escutando que não adiantava mentir porque mãe sempre sabia



Mãe dizia que lia na testa da Menina, e que só Mãe sabia ler testa.




Menina tentava tapar a testa com a mão na hora de mentir.

Mãe achava graça. Muita graça. E continuava lendo assim mesmo.

Menina precisava entender como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro, mentia muito, em silêncio.
E na testa, nada escrito!





Aí, Menina descobriu que Mãe também mentia.
E que então não era testa - era o olho, com um brilho diferente - que entregava a mentira.

Menina então tentava fechar o olho com força, para esconder a Mentira.



Mas nem isso resolvia, pois Mãe sempre adivinhava.

Menina tinha era que aprender a fingir, de olho aberto, que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou... e aprendeu.
Era essa a solução.

Mas de noite Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada, não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto, não conseguia dormir.



Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica quase sem respirar, rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.

Menina - sem querer - tinha descoberto a Consciência, uma coisa que toma conta da gente mesmo quando Mãe não está lendo testa,
nem adivinhando olho.



Menina tinha aprendido que ter que fingir doía.
E que, desse jeito, ia ficar muito sem graça ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.

Mas não adiantava.
Menina via que agora já estava quase da altura do móvel da sala da vovó.



E ficava muito triste, o aperto apertando mais.

E de tanto que o aperto apertava, Menina achou que fingir só podia doer tanto porque era dor sozinha.

Menina teve uma idéia, e ainda não sabia se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim - que precisava testar, pra conseguir descobrir.



A idéia da Menina foi dizer para Mãe que era difícil fingir.
Menina achava ruim aprender montes de coisas sem dividir com ninguém.

Menina falou pra Mãe que era muito complicado, e que não era nada bom, ter que crescer sozinha.

Mãe abraçou muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado Menina estava sendo mãe da Mãe.




Menina sentiu que Mãe estava chorando.
E que Mãe ainda não tinha aprendido tudo.

Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam naquele abraço apertado que em Mãe também doía ser gente grande sozinha.



Nessa hora Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida, fica dor menos doída.

E que aí, dá até vontade de continuar a crescer pra descobrir
o resto das coisas.




Autores:
Texto – Marisa Prado
Imagens - Ziraldo

11 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Mariazita,
A crise do crescimento, os incidentes de percurso, essas coisas que as pessoas inventam. Mas a solidão não é boa conselheira, havendo que partilhar a dor, mas principalmente as alegrias. Cria-se mais amizades e fraternidade na distribuição dos momentos felizes, no convívio de beber um copo para celebrar algo, no agradecimento de uma ajuda para melhor mexer no blog, etc.
Varrer para o lixo as tristezas e tudo o que doa, para que o momento presente, o agora, seja o mais feliz possível.
Beijos
João

com senso disse...

Cara Mariazita
Gostei muito deste texto de uma imensa sensibilidade! E dei comigo a pensar: Que pena nós crescermos! Que pena nós não percebermos o valor excepcional da idade da inocência! Que pena os nossos filhos crescerem! Que bons que são esses momentos únicos em que eles e nós somos o mundo e em que um olhar travesso, uma gargalhada fresca e um abraço inesperado se tornam nos instantes mais belos da vida!
Com este texto e os desenhos muito bem escolhidos trouxe-me de volta as melhores e mais ternas recordações da minha vida.
Lindo mesmo!
Muito e muito obrigado por esta lavagem da alma, que me proporcionou.
Bem-Haja!
Um beijinho com amizade!

a casa da mariquinhas disse...

Querido amigo João
Concordo que é mais fácil criar amizades em momentos felizes, em ambiente de festa, a "beber um copo"...Mas para as conservar temos que estar presentes nos momentos menos bons, de doença, de tristeza. E também nas dificuldades, até mesmo para mexer no blog -:))))
Quanto à solidão...a minha Mãe dizia, e eu recordo-o muitas vezes: só se veja quem só se deseja!
Sou, por natureza, alegre. A tristeza não combina bem comigo.
Um fim de semana com alegria.
Beijinhos
Mariazita

xistosa disse...

Felizmente que temos de crescer, mentir, amar e odiar.
O que poderia ser a vida sem a futilidade,a inveja, a intriga, as maquinações, as guerras, as lutas pelo poder, os roubos as mortes violentas ...
Não teríamos jornais, livros, noticiários.
O conjunto de maus e bons momentos é que nos conduzem.
Nós é que temos de os separar.
Mas não só.
Termos a nossa felicidade e bem estar connosco próprios e se algo sobrar ajudarmos alguém.
Nesta vida materialista e de vorazes desvarios, nós os mais velhos, que já apanhámos todas as vacinas do tempo é que temos de tentar orientar os mais novos, como já fizeram connosco.
Gostei do post.
Principalmente quando a menininha descobriu que a mãe mentia.
É um cataclismo para um ser ainda pequeno que os progenitores tenham defeitos.
Os seus "heróis" terem defeitos.
Penso que a natureza está bem feita.
Não sou de religiosidades, mas penso que a maneira de vivermos se coaduna com uma vivência muitíssimo rica.
Quer com o mal, quer com o bem.

xistosa disse...

Esqueci-me de agradecer os "bombons".
Nem sei lhe enviei alguns ...
São tantos que perco a paciência e vai tudo para a lixeira.
Mas não os que me enviou ...
Um obrigado.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Eu não sabia que existia o Dia Mundial da Criança! Ainda bem que vc, do outro lado do oceano, tem um blog! Agora venha visitar-me. Se gosta de literatura, principalmente poesia, e cinema, resenhas de filmes, vá ao meu blog:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto de pois de www
Um abraço,
Renata

a casa da mariquinhas disse...

Caro Com Senso
Que bom que gostou!
Tinha este texto guardado há bastante tempo, precisamente porque qundo o li me encantou.
É, realmente, uma pena que os filhos cresçam. Parece que, quando são pequeninos, são mais nossos.
Felizes ds que podem acompanhar o seu crescimento, o seu desabrochar para a vida.
Infelizmente não acontece a todos os pais, o que, cada dia, se torna mais frequente.
Muito obrigafa pelo seu lindo comentário.
Até amanhã
Beijos amigos
Mariazita

Oliver Pickwick disse...

Um poema tocante. Ótimo para todas as idades, desde os oito, aos oitenta e oito.
A sabedoria nem sempre associa-se a maior experiência.
Um beijo!

a casa da mariquinhas disse...

Amigo Xistosa
A sua análise é bastante realista.
De facto, se não houvesse o mal não saberíamos apreciar o bem.
As próproas guerras, por mais condenáveis que sejam, às vezes são necessárias para se alcançar a paz.
O mesmo acontece com o crescimento: tem que se dar muito trambolhão para se aprender a andar. E à força de desilusões, como perceber que os pais não são perfeitos, se vai formando o nosso carácter.
Obrigada por ter vindo.
Um abraço
Mariazita
PS - Não entendi essa dos bombons...depois me explica.

a casa da mariquinhas disse...

Oi, Renata
Depreendo, das suas palavras, que é brasileira, ou que, pelo menos, vive no Brasil.
É gratificante verificar que escrevemos alguma coisa que alguém desconhecia!
De facto existe o Dia Mundial da Criança, que, em Portugal, se comemora no dia 1 de Junhos.
O post que publicarei amanhã é precisamente sobre esse tema.
Precisa vir cá ver...
Irei visitar o seu blog, com certeza.
Obrigada por ter vindo. Volte sempre.
Beijos
Mariazita

a casa da mariquinhas disse...

Olá, Oliver
Concordo que este texto é bastante bonito. Apraz-me que tenha gostado.
E se é verdade que há "o saber de experiência feito", não é menos certo que muitas vezes, da boca duma criança (sem experiência) saiem palavras de maior sabedoria do que as que proferem alguns adultos (com experiência).
Beijos
Mariazita